Atravessar a África ocidental num carro com 22 anos para distribuir livros escolares em Bissau

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*** por Luís Fonseca, texto e vídeo ***

Bissau, 22 jun (Lusa) - Fita adesiva, fio de cobre e meia-dúzia de ferramentas serviram para segurar as pontas de um carro com 22 anos em que dois portugueses viajaram do Porto até Bissau para distribuir cerca de 500 livros escolares em português que ambos adquiriram.

Miguel Diogo, 40 anos, arquiteto, e José Albuquerque, 50 anos, empresário de hotelaria, chegaram a Bissau a 17 de junho, passados 20 dias e cerca de seis mil quilómetros.

A ideia dos dois amigos já era antiga, mas não passava da intenção: "fazer o rali Paris - Dakar dos pobres", com um carro antigo e a partir de Portugal, explicou Miguel Diogo.

"Quando percebemos que o que iria fazer a diferença na nossa viagem era carregar o carro com livros em português, aí sim, tínhamos descoberto o que iria justificar chegar a Bissau, faltar ao trabalho, deixar mulher e filhos em casa e sofrer de saudades", disse à agência Lusa.

Pelo meio houve vários contratempos: o tejadilho da Renault 4L quase veio abaixo com o peso dos livros - guardados numa bagageira extra feita de madeira -, um semieixo partido, dificuldades na bomba de combustível, alguns furos e um atolamento.

Algumas situações "foram resolvidas ao telefone com o mecânico em Portugal e com uma caixa de ferramentas" com o material básico para remendar a situação, referiu José Albuquerque.

A simplicidade mecânica do carro é uma das razões para conseguir fazer uma viagem dura ao longo da África ocidental.

"Tudo acontecia à noite e nós com medo dos mosquitos, mas conseguimos ultrapassar as situações e no outro dia de manhã parecia que tinha sido um sonho", em que sempre surgiu uma mão amiga, descreveram,

As privações de conforto eram compensadas com "paisagens deslumbrantes" e momentos memoráveis junto da população, no deserto ou em casa de algumas pessoas que conheciam pelo caminho.

Na quinta-feira, os livros de várias disciplinas do primeiro ao sexto ano de escolaridade e algum material escolar foram distribuídos por orfanatos e escolas de Bissau.

"Não está fácil receber ajudas e quando aparecem é muito importante", referiu Francisca Conceição, do orfanato Lar Bethel.

A instituição acolhe 40 crianças e procura ajudas fixas para suportar os custos com o dia-a-dia das crianças, nomeadamente na área da Educação.

No orfanato Casa Emanuel o material "vai ajudar a preparar o próximo ano letivo", explicou a irmã Isabel Johanning que tem entre mãos 355 alunos.

Na escola de ensino básico do bairro do Kelele, sob a copa de árvores (mangueiras) e onde as paredes são feitas de cana entrelaçada, o material vai servir para preparar as provas que começam dentro de dias.

Alguns livros vão ainda ser entregues numa escola em Mansoa, no centro do país, e em Varela, norte da Guiné-Bissau.

Toda a ajuda entregue foi comprada pelos viajantes, "não porque não houvesse gente interessada. Seguramente haveria, mas se calhar um pouco pela nossa genética desorganização achámos que assim era mais simples", justificou Miguel Diogo.

A Renault 4L vai regressar a Portugal de barco enquanto os dois companheiros de viagem voltam a casa de avião, mas a esboçar planos para um regresso à Guiné-Bissau.

LFO //GC.

Lusa/fim



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