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Fim da “era” José Eduardo dos Santos deixa João Lourenço com poder absoluto

O discurso duro de João Lourenço no encerramento do VI Congresso Extraordinário do MPLA, realizado sábado, em Luanda, mostrou que a bicefalia no poder em Angola o impediu de ir mais longe nas reformas em curso há quase um ano. Ao assumir a liderança do partido, elogiou o passado de José Eduardo dos Santos, mas acabou por, ao anunciar os objetivos, pôr duramente a nu os defeitos de 38 anos de presidência e 39 de liderança do partido que governa Angola desde a independência, em 1975. Falta ver na prática.

Na intervenção final do conclave, já como presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA obteve 98,59% dos votos dos delegados), João Lourenço aprofundou, com veemência, a necessidade de se combater a “corrupção, nepotismo e bajulação”, que declarou como “inimigos públicos número um” da sua governação, deixando implicitamente as críticas ao regime de Eduardo dos Santos, isto depois de, no início do discurso, o ter saudado e elogiado “por ter dedicado toda uma vida” ao partido e ao país, “numa conjuntura difícil da chamada guerra fria, com a ameaça constante do regime do apartheid”, da África do Sul.
“Neste momento em que deixa a política ativa, os militantes do MPLA e o povo angolano em geral guardarão para sempre na sua memória a imagem de estadista que, entre outros feitos, trouxe a tão almejada paz definitiva, o perdão e a reconciliação nacional entre irmãos antes desavindos”, afirmou João Lourenço, partindo, depois, para um discurso arrasador.

Aplausos entusiásticos dos delegados

Ao pronunciar estas palavras, ainda reinava o ambiente de homenagem a Eduardo dos Santos, mas, mesmo assim, as palmas dos 2.448 delegados presentes foram tímidas quando comparadas com o que se seguiria. E a galvanização dos delegados pode ficar simbolizada na demora em completar a frase “combater a corrupção, nepotismo e bajulação”. As palmas e os gritos de satisfação ficaram evidentes quando João Lourenço falou do combate à corrupção e nepotismo, altura em que foi interrompido, demorando a retomar a intervenção. E quando surgiu a palavra “bajulação” – palavra nova no discurso – registou-se nova interrupção, ainda mais prolongada, situação que voltou a repetir-se quando surgiu a frase “inimigos públicos número um”.
E foi assim ao longo do restante discurso, deixando claro o que os delegados também estavam desejosos de ouvir, incomodados com os erros da gestão de Eduardo dos Santos que, na abertura do congresso, não falou uma única vez no nome de João Lourenço e assumiu ter cometido erros ao longo dos quase 40 anos no poder em Angola, mas garantindo que sai de “cabeça erguida”.
“Não existe, naturalmente, qualquer atividade humana isenta de erros e assumo que também os cometi, pois só deste modo os podemos ultrapassar. Procurei ao longo destes anos dar o melhor de mim, aquilo que estava ao alcance das minhas forças, das minhas capacidades intelectuais, alicerçadas nas profundas convicções políticas e ideológicas que tenho desde a minha juventude. O erro é parte integrante do processo de aperfeiçoamento. Por isso se diz que aprendemos com os erros”, assumiu.

Reconciliação com a história do partido

Detentor agora da Presidência de Angola e da liderança do MPLA, João Lourenço “atacou” também a omissão histórica do próprio partido nas últimas quatro décadas, reconciliando-o com o passado, ao lembrar que se tornou o quinto líder de uma formação, recuperando os nomes de Ilídio Machado, Mário Pinto de Andrade, António Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos.

Tratou-se da primeira vez, em várias décadas, que, publicamente, foram feitas referências aos primeiros líderes do partido, Ilídio Machado e Mário Pinto de Andrade, por um presidente do MPLA, questão lembrada pelo “histórico” Vicente Pinto de Andrade e pelo investigador angolano Jonuel Gonçalves, que lembrou as detenções de militantes no passado quando tentaram repor a verdade.
“Corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”, palavra de ordem usada na campanha eleitoral um ano antes, foi recuperada por João Lourenço na sua intervenção, insistindo que foi a corrupção, o nepotismo, a bajulação e a impunidade que se implantaram em Angola nos últimos anos que causou “muitos danos” à economia angolana, afetando a confiança dos investidores e minando a reputação e credibilidade do país.

“Ninguém está livre de ser julgado”

Mas o presidente angolano e líder do partido ainda foi mais longe nos objetivos a que se propõe, indicando que, “nesta cruzada”, ninguém está livre se ser julgado, “mesmo que os primeiros a tombar sejam militantes ou mesmo altos dirigentes do partido, que tenham cometido crimes ou que pelo seu comportamento social sujaram o bom nome” do MPLA.
“Não se pode confundir, nunca, a necessidade de se promover uma classe empresarial forte e dinâmica, de gente honesta que, com seu trabalho árduo ao longo dos anos, produz bens e serviços e cria empregos, com aqueles que têm enriquecimento fácil, ilícito e, por isso, injustificável, feito à custa do erário público, que é património de todos os angolanos. No caso de serem militantes, responsáveis ou dirigentes do MPLA, não permitiremos que comportamentos condenáveis dessa minoria gananciosa, manchem o bom nome deste grande partido que foi criado com suor e sangue para defender uma causa nobre”, avisou.
Com o fim da bicefalia, João Lourenço tem via aberta para aprofundar as reformas, faltando agora garantir, de facto, o controlo do partido com a escolha/eleição dos novos membros do Comité Central Bureau Político e Secretariado.
Para já, pela primeira vez na história, o partido tem uma mulher na vice-presidência. A escolha recaiu em Luisa Damião. Boavida Neto é o novo secretário- geral. Ambos da confiança do novo líder.
“Espero que venham a ser eleitos militantes com idoneidade e capacidade de trabalho comprovadas, mas sobretudo corajosos e comprometidos com a causa do partido. Que me ajudem a fazer uma governação virada para a resolução dos principais problemas da nossa sociedade, da economia e dos cidadãos”, frisou.

Eduardo dos Santos vai agora dedicar-se às causas sociais

Nas únicas, breves e enigmáticas declarações após o congresso, Eduardo dos Santos indicou que, agora que deixou a política ativa, vai dedicar-se a causas sociais e que as suas memórias já foram escritas, mas por outras pessoas. Se a primeira ideia é clara – Eduardo dos Santos é patrono da fundação homónima – Fundação Eduardo dos Santos (FESA), a segunda é ambígua, uma vez que não esclareceu se, de facto, já estão concluídas ou se, ironia, não vale a pena escrevê-las porque alguém o tem feito fora das esferas oficiais.

José Sousa Dias 14.09.2018

Em Luanda, Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

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