8731801

FMI: Mais dinheiro para o BPC só com fecho de agências e despedimentos

O Estado angolano ainda necessita de injetar 31.500 milhões de kwanzas (cerca de 127 milhões de dólares) no Banco de Poupança e Crédito, para completar o capital social da maior instituição de crédito nacional, em processo de reestruturação devido ao volume de crédito malparado.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) está preocupado com a falta de liquidez e crédito malparado no Banco de Poupança e Crédito (BPC), a maior instituição de crédito angolana e totalmente detida pelo Estado, recomendando ao Governo que uma nova injeção de liquidez fique condicionada à concretização do plano de reestruturação, mantendo-se a proibição de concessão de novos créditos.

A informação consta das conclusões, de junho, da missão do FMI no âmbito das consultas regulares com as autoridades angolanas, ao abrigo do Artigo IV, realizadas este ano, e que abordam com preocupação a situação da banca angolana, e a respetiva falta de liquidez.

Na avaliação, a missão do FMI conclui que os bancos angolanos, e sobretudo os detidos pelo Estado, enfrentam um cenário de crédito malparado muito elevado, apontando o caso do BPC como o caso mais crítico: “Permanece fracamente capitalizado, dependente do Banco Nacional de Angola para liquidez, e o ritmo da reestruturação operacional tem sido lento”.

De acordo com o Fundo, desde 2014 – com o início da crise do petróleo que colocou em evidência a gestão dos bancos – que Angola tem investido, anualmente, mais de quatro por cento do Produto Interno Bruto (PIB) na recapitalização das instituições financeiras. Em 2018, segundo o FMI, Angola ainda vai gastar um por cento de toda a riqueza que produzir nesta recapitalização.

Em 2016, especificamente para atuar sobre a situação crítica no BPC, o Governo angolano lançou a sociedade pública Recredit, uma espécie de ‘banco mau’ para comprar o crédito malparado, injetando assim liquidez naquele banco e tentando depois recuperar esses ativos considerados tóxicos.

Inicialmente foi definida a aquisição pela Recredit de cerca de um terço dos ativos problemáticos do BPC, num total de cerca de 300 mil milhões de kwanzas (1,2 mil milhões de dólares à taxa de câmbio atual), mandato que foi, entretanto, alargado pelo Governo para a compra – recorrendo para tal à emissão de dívida pública – de mais 180 mil milhões de kwanzas (cerca de 720 milhões de dólares) de crédito malparado a outros bancos angolanos.

Em 2015, o BPC tinha 406 agências em todo o país, com 5.354 trabalhadores, números que subiram, respetivamente, para 443 e 5.530 até final do ano seguinte. Entretanto, a instituição iniciou um processo de redução do número de agências em todo o país.

Após a análise à situação da banca angolana, o FMI recomenda que tudo regresse à primeira forma, receando que o crédito mal parado adquirido a outros bancos pela Recredit acabe, indefinidamente, a encargo do Estado e alertando para o facto desta sociedade pública não se encontrar na supervisão do BNA.

“Reverter a Recredit para o mandato original, de suporte ao BPC, adicionando uma cláusula de expiração às suas operações”, recomenda o FMI.

Acrescenta que a prioridade deve passar por “aumentar a eficiência dos bancos estatais”, implementando “integralmente” os planos de reestruturação aprovados.

No caso do BPC, a terceira parcela de recapitalização prevista para 2018, através da compra de ativos pela Recredit, “só deve ser concluída após ações concretas de redução do número de agências e de pessoal”.

“Enquanto isso, o BPC não deve ser autorizado a retomar os empréstimos e deve-se concentrar em melhorar a situação de liquidez”, aponta a missão do FMI.

Mais 120 milhões de USD para BPC, sugere auditoria

O Estado angolano ainda necessita de injetar 31.500 milhões de kwanzas (pouco mais de 120 milhões de dólares) no BPC, para completar o capital social.

Esta informação consta da análise da auditoria externa às contas de 2017 do BPC, elaborada pela UHY – Auditores & Consultores, e que alerta desde logo que a “capacidade do banco para continuar as operações depende do sucesso das atividades futuras, da manutenção dos depósitos dos clientes e da continuação do suporte financeiro dos acionistas”.

Os auditores recordam que já foram realizados aumentos do capital social do BPC nos montantes de 90.000 milhões de kwanzas em 2017, mais 90.000 milhões de kwanzas em 2016 e 36.000 milhões de kwanzas em 2015.

O Estado angolano é acionista do BPC, através do Ministério das Finanças (75 por cento), do Instituto Nacional de Segurança Social (15 por cento) e da Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas (10 por cento), que suportaram, na proporção da respetiva participação, o financiamento do aumento de capital do banco.

“Não obstante, além de o capital social não se encontrar integralmente realizado pelos acionistas no montante de 31.500 milhões de kwanzas, a respetiva realização tem ocorrido em grande parte através da emissão de Obrigações do Tesouro em moeda nacional (não indexadas à taxa de câmbio de qualquer moeda estrangeira), remuneradas a uma taxa de juro fixa de cinco por cento e com maturidade de 24 anos”, alerta a análise dos auditores.

Os acionistas do BPC aprovaram em maio, em assembleia-geral, o relatório e contas referente ao exercício de 2017 e o Plano Estratégico para o quinquénio 2018-2022. O banco registou um Produto Bancário positivo de 50.900 milhões de kwanzas em 2017, mas o resultado líquido do exercício foi negativo em 73.100 milhões de kwanzas (a 31 de dezembro último).

Em 2017, o BPC registou um buraco de 5.200 milhões de dólares, de ativos com baixo desempenho e em incumprimento, essencialmente crédito malparado, o segundo pior registo da história da banca em Angola. 

Paulo Julião-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau  29.06.2018

Artigos relacionados

 
 

“O Governo é demasiado lento e limita-se a copiar”

Annie Lao acusa o Governo de ser passivo na proteção do ambiente. A ativista – que lançou uma petição sobre o desperdício de plástico e poluição que reuniu mais de seis mil assinaturas – defende que Macau está muito atrasado. Com 30km2, é a cidade do mundo que produz mais lixo em média por pessoa. 

Previsões para 2019 continuam positivas

Depois do início da guerra comercial sino-americana no ano passado, os líderes dos dois países chegaram pela primeira vez no passado mês de dezembro a um acordo de “cessar-fogo” de 90 dias. Porém, devido aos conflitos ainda existentes a nível político e comercial, a região de Macau, altamente dependente do consumo do Continente, poderá sofrer

“Não pode haver cultura de arbitragem se não existirem casos”

Fernando Dias Simões tem sido uma das vozes que mais se tem ouvido propondo Macau como um centro de arbitragem com foco no relacionamento entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Sete anos após ter chegado a Macau, o docente de Direito trocou este mês a Universidade de Macau pela Universidade Chinesa de

Hospital virtual contra a insularidade

A criação de um hospital virtual que garanta o atendimento de doentes de todas as ilhas de Cabo Verde por especialistas, 24 horas por dia, é a grande ambição dos responsáveis do programa de telemedicina no arquipélago. Leia mais em Plataforma Media. Sandra Moutinho 11.01.2019

Mercado de dívida mais internacional

Portugal e Paquistão avançam em 2019 para a emissão de ‘panda bonds’. BNP Paribas tem autorização para investir no mercado. Leia mais em Plataforma Media. Maria Caetano 11.01.2019

Estreito de desentendimento

Apesar do discurso do presidente chinês, Xi Jinping, Taipé recusa termos propostos e diálogo político permanece distante. Governo de Macau dá apoio total à iniciativa do Presidente. Leia mais em Plataforma Media. José Carlos Matias 11.01.2019