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Casos de crianças desaparecidas beliscam comunidade chinesa

O desaparecimento de mais duas crianças, de 09 e 11 anos, no início de fevereiro, na cidade da Praia, em Cabo Verde, foi a gota que fez transbordar o alarme social da população cabo-verdiana, que desde agosto tinha já assistido ao desaparecimento de uma jovem com um bebé recém-nascido e de outra criança de 10 anos. A população tomou o assunto em mãos e, com o rastilho das redes sociais, encontrou na comunidade chinesa o alvo ideal para dar largas à frustração pela falta de respostas ou informações das autoridades.

Dois cidadãos chineses residentes em Cabo Verde foram, no início do mês de fevereiro, alvo de uma tentativa de agressão coletiva, no bairro da Achadinha, na cidade da Praia. Motivo: estariam nas imediações de uma escola para raptar crianças. Gerou-se o pânico, centenas de pessoas rodearam o carro – que se encontrava parado no local por estar avariado – e a polícia teve de intervir para evitar que os dois homens fossem agredidos.

O episódio foi o culminar de uma “campanha” crescente de rumores, desinformação e boatos que vinha ganhando forma nas redes sociais e que relatava várias alegadas tentativas de rapto de crianças, tendo sempre como suspeitos cidadãos chineses.  A dimensão do fenómeno forçou a Polícia Judiciária a vir tomar uma posição pública para afastar as suspeitas da comunidade.

Segundo a polícia, nenhum dado concreto apontava para a existência de novos casos de desaparecimento de crianças além dos já desconhecidos e nem para que cidadãos chineses estivessem envolvidos.

“A Polícia Judiciária apela à população para ter cuidado com aquilo que é transmitido, sob pena de, além de provocar desinformação, instaurar pânico nas pessoas”, adiantou a PJ, pedindo responsabilidade na divulgação das informações.

Também o Governo pediu “serenidade e tranquilidade”, numa declaração pública em que manifestou solidariedade com a comunidade chinesa. “Apelamos a todos os cabo-verdianos que estejam atentos, que continuemos a ser um povo tranquilo, universal e amigo de todos”, disse fonte do governo. 

“O crime não tem nacionalidade, pode ser chinês, francês, cabo-verdiano, holandês. Cabo Verde é um país universal, todos devem ser tratados de igual forma e vamos deixar a justiça fazer o seu trabalho, com tranquilidade, e continuar atentos porque os tempos são outros”, acrescentou a mesma fonte.

Comunidade integrada e em crescimento

Segundo as Estatísticas das Migrações de 2014, os chineses em Cabo Verde representavam 1,4% dos 16.491 imigrantes residentes no país, dos quais 80% são homens. Apresentam, tendencialmente graus académicos entre o secundário e o superior e vivem nas ilhas de Santiago, São Vicente, Sal e Boavista.

Embora não haja números oficiais mais recentes, nos últimos anos o crescimento da comunidade é evidente com a chegada de quadros para trabalhar em grandes obras que estão a ser realizadas pela China em Cabo Verde, de que são exemplos emblemáticos o empreendimento turístico do empresário macaense David Show ou a construção do novo campus universitário.

Estes vieram juntar-se aos tradicionais comerciantes e pequenos empresários que, há décadas, dinamizam o comércio cabo-verdiano, 400 dos quais se reúnem na Associação de Empresários Chineses (AEC), uma das primeiras organizações a manifestar a sua indignação pelo envolvimento da comunidade nas suspeitas de desaparecimento das crianças.

Membros da direção da AEC, criada há oito meses e que tem sede na ilha de São Vicente, deslocaram-se à cidade da Praia, para manifestar a “sua indignação e tristeza” pela tentativa de envolvimento na comunidade no desaparecimento de crianças em Cabo Verde.

Os responsáveis da associação asseguram que comunidade está em Cabo Verde para trabalhar e não quer arranjar problemas nem para si, nem para o país.

“Vivemos nesta terra, vendendo roupa, utensílios domésticos e comida. Não vendemos ou roubamos crianças”, afirmaram.

Também o presidente da Associação Amizade Cabo Verde – China (AMICACHI), José Correia, disse que o incidente não caiu bem aos cidadãos chineses e que foi preciso promover um encontro para tranquilizar a comunidade.

José Correia alertou também para as implicações que uma eventual repetição destes episódios poderá ter nas relações com a China, um dos principais parceiros de desenvolvimento de Cabo Verde.

“É preocupante. A comunidade sente-se vítima de calúnia. É preciso que as autoridades tomem medidas para que situações destas não voltem a acontecer”, considerou.

Um estudo de 2014 sobre integração de imigrantes em Cabo Verde revela que 48% dos chineses se consideram bem integrados em Cabo Verde, contra 67% dos cidadãos da União Europeia e 47% dos africanos. Mais de 9% dos chineses consideram-se mal integradas.

No espaço de seis meses, agosto de 2017 e 03 de fevereiro deste ano, pelo menos cinco pessoas, entre as quais quatro crianças, foram dadas como desaparecidas e, apesar das investigações da Polícia Judiciária, nenhum dos casos foi esclarecido até ao momento.

Familiares e amigos dos desaparecidos já saíram por diversas vezes à rua para exigir respostas às autoridades, que asseguram estar a trabalhar em todas as linhas de investigação. 

Cristina Fernandes Ferreira-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau  09.03.2018     

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