Ma Jianchun 1

“É uma boa oportunidade para a China se aproximar do Irão”

O diretor do Instituto de Relações Sino-estrangeiras da Universidade de Jinan, Ma Jianchun, defende que Irão e China tem uma excelente oportunidade para se aproximarem face à decisão dos Estados Unidos de abandonar o acordo nuclear com Teerão. 

- Qual é o papel do Irão na antiga da Rota da Seda e na de hoje, com a política ´Uma Faixa, Uma Rota?

Ma Jianchun – Tem um papel muito importante. O Irão está localizado no Golfo Pérsico, o lugar onde a Rota da Seda terrestre e marítima se cruzam. Neste momento, a China importa grande quantidade de petróleo do Médio Oriente, passando sempre pelo Golfo Pérsico e pelo Estreito de Ormuz, quase totalmente controlado pelo Irão. Se a China não desenvolver uma relação próxima com o país, podem surgir vários problemas. Por via terrestre, se a China passar pela Ásia Central, irá no futuro desenvolver relações próximas com o Médio Oriente através de linhas ferroviárias. Para chegar a países como, por exemplo, Arábia Saudita, Síria ou Líbano, é preciso passar pelo Irão. Por esta razão é tão importante a localização do Irão tanto na Rota da Seda marítima, como terrestre. Neste momento, o país está sob restrições do Ocidente, e os EUA abandonaram o seu acordo nuclear. Acho que esta é uma boa oportunidade para a China. 

- Porquê?

M.J. - Para os Estados Unidos da América (EUA), abandonar o acordo com o Irão é equivalente a reintroduzir as suas sanções anteriores. Se forem impostas, o Irão poderá virar-se para a China para desenvolver várias relações económicas. O país sempre teve uma boa relação com a China. 

- Quão importante é o Irão para a China?

M.J. – O Irão é uma grande potência no Médio Oriente. Se a China quiser reforçar os seus laços nesta região, tanto a nível económico como cultural, terá de se relacionar com o Irão. Do ponto de vista cultural, é um país com uma longa História e cultura magnifica. Em termos económicos, também ocupa um lugar importante. A economia iraniana tornou-se relativamente mais diversa do que a da Arábia Saudita e de grande importância no continente asiático, embora o petróleo ainda seja o principal motor económico do Irão. 

- Grande parte da discussão sobre as relações entre a China e o Irão são maioritariamente à volta de importação de petróleo. 

M.J. – Existe muito mais além do petróleo. A indústria química do Irão, por exemplo, é também muito forte. Em termos de produtos agrícolas, muitos produtos, como a fruta, vêm do Irão. A indústria têxtil também está muito desenvolvida. 

- O professor é de etnia Hui*. Acha que a etnia pode assumir um papel relevante no desenvolvimento das relações entre a China e o Irão?

M.J. - Podemos dizer que poderá com certeza assumir um papel de intermediário muito forte. Podem servir como ponte entre os dois países. Não estou a dizer que, por exemplo, em alguns locais como embaixadas, é necessário haver alguém da etnia Hui ou outra etnia muçulmana, mas podemos promover e oferecer entre estudantes programas de treino para trabalho nesta área, relacionados com trocas culturais ou educativas em embaixadas. 

- Não é necessário ser fluente na língua local?

 M.J. - Não. Se um chinês Hui for a uma reunião e simplesmente disser sal‮!‬؟m (“olá”, em Farsi), conseguirá imediatamente uma aproximação aos outros. Não estou a dizer que isto irá resultar em todos os países muçulmanos. Mas acredito que fará diferença terem um pouco mais de conhecimento da cultura e religião iranianas do que um cidadão comum chinês. No caso de surgirem problemas, nós, da etnia Hui, devemos assumir uma posição favorável para ambas as partes. 

- Quão importante é a China para o Irão?

M.J. – A China, como segunda maior economia do mundo, é reconhecida pela sua grande capacidade de produção. A economia do Irão, em comparação, é muito mais unilateral, dependente maioritariamente do petróleo. A indústria ligeira – que inclui por exemplo a alimentar, do papel, de têxteis -, por exemplo, ainda tem muito espaço de evolução. Por um lado, precisam de apoio financeiro, por outro, necessitam de uma cooperação com um país com grande capacidade de produção.

- Qual a posição do Irão em relação à iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”?

M.J. – Desde que o antigo presidente, Mahmoud Ahmadinejad, assumiu funções, o Irão tem desenvolvido relações comerciais próximas com a China. O atual presidente, Hassan Rohani, tem demonstrado uma atitude positiva em relação à iniciativa, afirmando que o Irão está disposto a participar ativamente. 

- Alguns acreditam que os órgãos de comunicação nacional não prestam muita atenção ao Médio Oriente, concorda?

 M.J. – Concordo. Muitos chineses quando conversam com americanos costumam dizer: “Nós chineses sabemos muito mais sobre os Estados Unidos da América do que vocês sobre a China”. Obviamente que isto são os chineses a gabarem-se um pouco. Desde o século XVI, que o Médio Oriente está em clara decadência, precisam de uma mudança cultural, só agora estão a começar a descobrir os seus problemas e a tentar resolvê-los. Neste momento, a China ainda tem uma má imagem do Médio Oriente, moldada em grande parte pelos media do ocidente. A maioria dos órgãos de comunicação chineses não chegam lá, e por isso a imagem que os chineses têm do Médio Oriente não muda.  

- Que imagem negativa é essa?

M.J. - Na China, ainda há muita gente que acredita que o Médio Oriente está cheio de gente ignorante, retrógrada, de terroristas, violência e instabilidade, e que é uma região marcada por problemas religiosos. Esta imagem é inteiramente baseada na informação que recebemos da BBC e da CNN. Os órgãos de comunicação chineses não fazem esforço nenhum para tentar compreender o Médio Oriente, por isso ainda temos um longo caminho a percorrer. Seguimos apenas a forma de pensar ocidental, e por isso estamos a contribuir para que permaneça. Precisamos de explorar e mostrar mais o verdadeiro Médio Oriente.

- De que forma poderiam Governo e habitantes de Macau iniciar relações com o Irão, caso quisessem?

M.J. – Não me parece que Macau esteja a prestar atenção ao Irão. Por isso, talvez seja necessário iniciar contacto através de Hong Kong ou Cantão. Conheço, por exemplo, alguns iranianos que vivem em Cantão. Alguns em negócios, outros a estudar, alguns com as suas próprias empresas, outros com os seus restaurantes. Pode ser iniciado contacto através destes habitantes. Um conhecimento mútuo, com habitantes de ambos locais a visitar o outro.  

Davis Ip  22.06.2018

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