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Empresas na China pedem diálogo entre Washington e Pequim

Negócios europeus temem o impacto de guerra comercial. As empresas americanas também querem o fim das ameaças bilaterais. Mas a China, dizem, deve honrar o compromisso de abrir o mercado.

As empresas americanas e europeias na China querem moderação nas ameaças entre Washington e Pequim. E resultados palpáveis numa das disputas fundamentais que, em pano de fundo, tem ditado as ações de salvaguarda comercial de parte a parte, com promessas de tarifas adicionais para fluxos bilaterais de mais de 200 mil milhões de dólares. Os negócios pedem maior abertura do mercado e garantias de proteção à propriedade intelectual que os investidores estrangeiros importam para a China – mas à mesa das negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC).

A Câmara de Comércio da União Europeia na China diz que é preciso aproveitar a “janela de oportunidade” para dialogar. A organização entende que as decisões tarifárias vão afetar as empresas americanas que exportam para a China, mas, inevitavelmente, os negócios europeus também sentirão esse impacto. A organização está ainda a fazer estimativas para quantificar o valor desta decisão.

“Numa economia altamente globalizada, as tarifas, sobre praticamente qualquer produto, terão efeitos adversos que se estendem além do país visado”, diz o presidente da câmara europeia na China, Mats Harborn, em resposta escrita ao PLATAFORMA.

A organização que representa os interesses dos investidores de países europeus na China não tem dúvidas de que também estes serão afetados pela escalada retórica entre a Casa Branca e Zhongnanhai, que teve já efeitos práticos no aumento dos custos das importações do aço e alumínio nos EUA e de bens agroalimentares americanos à entrada na China.

Harborn afirma, no entanto, que é preciso que Pequim concretize as promessas de abertura de mercado e de apoio à globalização que tem vindo a fazer à comunidade internacional.

“Enquanto grande e responsável proponente da globalização económica, a via mais simples para evitar quaisquer novas disputas que possam perturbar ainda mais o comércio global é a China implementar as medidas com as quais viva e repetidamente se comprometeu desde o discurso de 2017 do Presidente Xi Jinping em Davos”, defende o presidente da câmara de comércio.

Bruxelas também quer ser ouvida 

A organização defende que as atuais fricções comerciais devem ser resolvidas no quadro do mecanismo de resolução de disputas da OMC, ao qual, no passado dia 23, os Estados Unidos apresentaram queixa contra a China, alegando que as leis de investimento do país impedem as empresas americanas de fazerem valer os direitos de propriedade intelectual sobre a tecnologia que desenvolvem quando entram no mercado chinês.

É esta a alegação que subjaz ao anúncio de novas tarifas, a 25 por cento, a produtos tecnológicos chineses proposto na semana passada pelos representantes do comércio americano. As sobretaxas vão aplicar-se a importações que em 2017 representaram 100 mil milhões de dólares, e que consistem na sua maioria em bens de capital intermédios, como máquinas e equipamento, adquiridos pelas empresas dos Estados Unidos para laborarem.

À queixa norte-americana na OMC associaram-se já a União Europeia, Japão, Taiwan, Arábia Saudita e Ucrânia, como partes interessadas no processo de consulta, que corre durante 60 dias.

“Muitas das preocupações que resultaram desta última ação são comuns às empresas europeias que operam na China. Incluem uma falta generalizada de acesso ao mercado – especificamente, aos setores de alta tecnologia -, um ambiente de negócios que favorece as empresas domésticas, a existência continuada de transferências tecnológicas como pré-condição para acesso ao mercado, e a exigência de localizar equipamentos de inovação, industriais e de informação”, diz a Câmara de Comércio da União Europeia na resposta ao PLATAFORMA.

Na OMC, Bruxelas alega que as exportações de tecnologia europeia para a China rondam os 30 mil milhões de euros por ano, e que o investimento direto europeu na China atinge 180 mil milhões de euros, a justificar a pretensão de ser parte nas negociações que opõem Washington e Pequim.

Menos ameaças, mais resultados

O Conselho Empresarial China-EUA, que representa as preocupações das empresas americanas, mantém as críticas às leis de investimento chinesas que, de resto, fundamentam a atual abordagem da Casa Branca de Donald Trump.

“A comunidade empresarial americana concorda que há problemas com a proteção de propriedade intelectual e com práticas tecnológicas da China que têm de ser resolvidos”, afirma John Frisbie, presidente do Conselho Empresarial EUA-China, numa nota enviada aos membros da organização. Mas esta posição não significa apoio à retórica de belicismo comercial mantida quer por Washington quer por Pequim.

“Ao invés de fazer escalar as ameaças, é tempo de ambos os governos se sentarem e começarem a trabalhar numa solução”, recomenda Frisbie na nota consultada pelo PLATAFORMA. “Queremos ver um diálogo orientado para os resultados que produza soluções práticas, não ameaças de sanções que farão mais mal que bem e que trarão danos reais a ambas as economias. Ambos os governos disseram que estavam dispostos a negociar; devem fazê-lo”, defende o representante dos negócios americanos.

A escalada de ameaças entre Estados Unidos e China na antecâmara do que poderá conduzir a uma guerra comercial deixou a comunidade económica internacional em estado de alerta – e, sobretudo, os negócios que dependem diretamente das relações com a China.

Nos sucessivos anúncios de medidas e contramedidas tarifárias de parte a parte, ao longo das últimas semanas, Washington e Pequim têm usado retórica forte ao mesmo tempo que reservam margens ambíguas para negociações. Mas, uma resolução parece no entanto implicar mudanças legislativas significativas.

As leis chinesas sobre investimento direto continuam a proibir que as empresas estrangeiras façam valer direitos de propriedade intelectual sobre tecnologia desenvolvida na China em consórcio com empresas chinesas. Estas parcerias mantêm-se como obrigatórias para acesso ao mercado chinês nos setores tecnológicos.

Maria Caetano  23.04.2018

 

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