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Fernando Pessoa (Pei Suo A) à conquista da China

Foi só em 1999 que uma obra de Fernando Pessoa foi pela primeira vez publicada na China continental, mas escritores e artistas do país não hesitam em apontar o português como um dos mais “influentes e profundos” poetas do século XX.

Cheng Yisheng, que traduziu os poemas de Alberto Caeiro para chinês, revela que Pessoa é “altamente apreciado” nos meios literários da China. “A sua obra une a poesia e a reflexão. E isso é raro na poesia chinesa, que tende a ser mais emotiva ou narrativa”, descreve Cheng à agência Lusa. Doutorado em literatura e professor na Universidade de Henan, Cheng Yisheng, 46 anos, começou em 2001 a traduzir a partir do inglês os poemas de Alberto Caeiro.

A tradução foi feita sobretudo a partir da obra do norte-americano Richard Zenith, investigador pessoano, tradutor e crítico literário que venceu em 2012 o Prémio Pessoa. No final do ano passado, Cheng publicou finalmente a sua tradução dos poemas de Caeiro, num livro intitulado “Sentado a Teu Lado Reparando nas Nuvens”.

Fernando Pessoa morreu em 1935, com 47 anos. Alberto Caeiro foi um dos seus mais conhecidos heterónimos, descrito como um anti-metafísico, que desprezava qualquer tipo de pensamento filosófico. “Pensar é estar doente dos olhos”, lê-se num dos seus versos.

“Os chineses que verdadeiramente amam a literatura, gostam muito de Pessoa”, diz Cheng. “Ele faz uma análise muito acertada sobre como se sentem as pessoas em ambientes urbanos. É um poeta profundo, muito à frente do seu tempo e que compreende o homem moderno”, conta.

Também Gao Xingjian, o primeiro escritor chinês galardoado com o Nobel da Literatura, em 2000, evocou outrora a “profundidade” do poeta português. “Fernando Pessoa é o poeta mais profundo do século XX”, disse Gao, em Estocolmo, na cerimónia de entrega do Nobel.

Mas não é só nos meios literários que Pessoa é apreciado na China: há mais de dez anos que o encenador chinês Shao Sifan recorre aos versos de Alberto Caeiro para inspirar os atores que dirige. “Quando estou nos ensaios, costumo ler os poemas de Caeiro com os atores”, contou Shao à Lusa.

“Não refletir, mas sentir apenas. É uma ideia que quero que retenham”, explicou. “Esquecer a mente e usar só os sentidos. Parece simples, mas não é”. Em 2016, Shao Sifan, 39 anos, decidiu prestar homenagem ao ‘Mestre Ingénuo’, com a peça “Caeiro! Aquela Noite Triunfal”, uma adaptação para o teatro dos poemas de Alberto Caeiro.

Trinta minutos antes da última apresentação, que decorreu no teatro Peng Hao, na zona antiga de Pequim, os bilhetes já estavam esgotados. Entre a plateia, composta por cerca de 100 pessoas, houve até quem ficasse de pé. “Nas primeiras sessões tínhamos pouca gente, mas depois foi enchendo cada vez mais”, comentou na altura à Lusa o funcionário da bilheteira.

Localizado num dos raros “hutongs” – os típicos becos da capital chinesa – que não foi arrasado para dar lugar a construções em altura, o lema do teatro Peng Hao é ‘Theatre is Free’ (“o Teatro é Livre”).

Durante uma hora, três atores chineses recitaram, interpretaram e cantaram em mandarim poemas de Alberto Caeiro, para um público composto na maioria por jovens na casa dos vinte anos.

Lá fora, a temperatura caía abaixo dos dez graus, mas um vinho tinto português servido no bar das instalações aquecia a plateia. Shao conheceu os poemas de Alberto Caeiro em 2005, quando vivia em Paris.

“Assisti por acaso a uma adaptação para teatro do Guardador de Rebanhos”, recordou. “Foi uma noite esplêndida. A sua poesia deu-me logo uma sensação de bem-estar”. Na altura, o jovem encenador não conhecia ainda “Pei Suo A”, (Pessoa, em chinês) e só mais tarde descobriria que Alberto Caeiro era afinal um dos seus heterónimos.

Hoje, não tem dúvidas: “Pessoa é um dos poetas mais influentes do século XX. A sua obra é indispensável”. O primeiro trabalho de Fernando Pessoa publicado na República Popular da China, em 1999, foi “O Livro do Desassossego”, traduzido a partir do inglês pelo romancista Han Shaogong.

Aquela obra é assinada por Bernardo Soares, um outro heterónimo do escritor português. Han ouviu falar de Pessoa pela primeira vez nos anos 1990, durante uma viagem pela Europa, recordou mais tarde em entrevistas.

“Não sou um tradutor profissional: só traduzo o que realmente gosto”, sublinhou Han, a propósito da sua decisão. As primeiras traduções de Pessoa para chinês, entre as quais “Mensagem”, um dos raros livros publicados quando o autor era vivo, saíram na década de 1980, com o patrocínio do Instituto Cultural de Macau.

No entanto, a tradução de Han teve um impacto maior. “Como Han Shaogong é um escritor conhecido, a obra teve bastante influência nos meios intelectuais chineses”, comentou Cheng Yisheng.

Uma década depois, o livro já ia na quinta edição e inspirou o nome de um dos blogues então mais populares da China, “Oitavo Continente”. O seu autor, Lian Yue, é formado em literatura chinesa e antigo jornalista do semanário Nanfang Zhoumo (Fim de Semana do Sul), considerado um dos raros jornais independentes no país.

“Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é a minha”, escreveu Fernando Pessoa (Han Shaogong traduziu “partida” por “continente”), na passagem que inspirou o nome do blogue. 

João Pimenta-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau  23.02.2018

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