China-economy

FMI alerta contra retorno ao crescimento a crédito

O Conselho de Estado voltou a dar luz verde ao endividamento dos Governos locais e o banco central abriu a torneira do financiamento. O FMI espera que a China não volte à velha receita de crescimento.

Em 12 anos, a economia chinesa poderá superar a dos Estados Unidos, mas só se não enfrentar choques pelo caminho. É o mais recente cenário que o Fundo Monetário Internacional (FMI) coloca aos decisores de Pequim para recomendar que o país não volte a pôr o curto prazo à frente dos frutos que pode colher mais tarde. Insistir num crescimento apoiado em dívida e no investimento em infraestruturas pode deitar tudo a perder, segundo o fundo de Washington.
Para chegar a 2030 com uma economia maior que a norte-americana são necessárias “reformas de mercado com determinação”, prescreve o FMI na ultima avaliação em consultas com a China. Já manter o crédito e a atuação do Estado na economia nos níveis atuais conduzirá “a uma má alocação de recursos e maior acumulação de riscos, aumentando a probabilidade de eventual ajustamento abrupto e reduzindo as perspetivas de crescimento de longo prazo”.
O aviso do FMI não é novo, e a instituição diz até que tem assistido a progressos – o ritmo de aumento de concessão de crédito abrandou e o setor financeiro teve novas regras para operar, reduzindo-se ameaças à estabilidade financeira. Já desde há três anos que o fundo diz à China que é preferível crescer menos, mas melhor, para manter a expansão no longo prazo. Só que Pequim está agora a sinalizar o que pode ser outra tendência.
Na passada semana, o Ministério das Finanças deu ordem aos Governos locais para voltarem a aumentar os níveis de endividamento com vista a financiarem infraestruturas. Serão 1,35 biliões de yuan em novas obrigações. Haverá também alívio de impostos. E o banco central despejou no mercado interbancário um valor de financiamento recorde, de 502 mil milhões de yuan, com o objetivo de assegurar mais crédito para os pequenos e médios negócios do país.
Depois de ter passado os últimos anos a sublinhar a intenção de produzir as chamadas reformas do lado da oferta – ou seja, com redução do excesso de capacidade de indústrias pouco eficientes – e de ter no consumo interno, e não exportações ou investimento, o principal motor de crescimento, a China poderá ou não inverter o rumo.
“Houve alguma flexibilização, disso não há dúvida”. Mas, para o FMI, ainda é cedo para dizer o que vai acontecer. “Haver uma mudança e um retorno ao ultrapassado estímulo ao investimento alimentado a crédito seria um erro. Para já estamos tranquilizados pela declaração do Conselho de Estado de que quer evitar um tal estímulo”, considerou James Daniels, chefe de missão da instituição na avaliação à China.
O Governo chinês e o banco central rejeitam estar a mudar o curso à política de controlo da expansão de crédito que, segundo o FMI, em 2017 abrandou para um ritmo de crescimento de 13 por cento, caindo 3,1 pontos percentuais. O crédito também ganhou eficiência. Foi necessário menos financiamento para produzir o mesmo, reflexo de maiores valores de investimento e aumento dos preços de produção. E houve mais dinheiro disponível para os novos setores da economia, como as tecnologias da informação, saúde e indústria farmacêutica.
Mas “apesar do crescimento do crédito ter abrandado, este permanece excessivo”. Só no setor público, a dívida estava no ano passado em 67,5 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), incluindo aqui as finanças dos Governos locais que caem fora das contas nacionais – obrigações e dívida contraída por veículos financeiros especiais. O FMI estima que o nível de endividamento público alcance este ano os 72,4 por cento do PIB e continue a crescer a ritmo acelerado até atingir 91,6 por cento do que produz a economia dentro de cinco anos. Até lá, a China estará ainda a crescer acima dos cinco por cento.
No horizonte imediato, há riscos externos – entre os quais o de aumento das barreiras comerciais no contexto da atual guerra de tarifas que opõe Pequim a Washington – e muitas reformas a fazer. Mas a economia chinesa não está a perder gás. O FMI antecipa para este ano apenas o que considera uma desaceleração ligeira do crescimento, para 6,6 por cento. O problema, diz, seria um regresso à política de estímulos ao crédito, que poderia deitar tudo a perder.

Maria Caetano 03.08.2018

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