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Guerra comercial mundial em suspenso

Pequim e Washington evitam, para já, uma guerra comercial, com a China a concordar comprar mais produtos norte-americanos, mas sem se comprometer a alterar a política para a tecnologia, principal fonte de tensão. Empresários “continuam assustados”.

Na declaração conjunta, ao fim de dois dias de conversações de alto nível entre China e Estados Unidos da América (EUA), em Washington, Pequim concordou em “aumentar significativamente” as suas compras de produtos agrícolas e recursos energéticos norte-americanos. 

O documento não prevê, no entanto, que a China pare de subsidiar indústrias chave e garanta uma melhor proteção dos direitos de propriedade intelectual das empresas norte-americanas, enquanto economistas desvalorizam o deficit comercial entre os dois países.

“Os défices no comércio externo norte-americano não têm correlação com crescimento económico ou o desemprego”, afirma Yokon Huang, antigo diretor do Banco Mundial para a China, num encontro com jornalistas em Pequim. “Trata-se de uma convicção geral errada”, defende o autor de Cracking the China Conundrum: Why Conventional Economic Wisdom Is Wrong.

Pelas contas de Washington, no ano passado, a China registou um excedente de 375,2 mil milhões de dólares – quase o dobro do Produto Interno Bruto (PIB) português – no comércio com os EUA. O Presidente norte-americano, Donald Trump, exige a Pequim uma redução do défice dos EUA em “pelo menos” 200.000 mil milhões de dólares, até 2020, visando cumprir com uma das suas principais promessas eleitorais.

Trump quer ainda taxas alfandegárias chinesas equivalentes às praticadas pelos EUA e que Pequim ponha fim a subsídios estatais para certos setores industriais estratégicos. O chefe da Casa Branca ameaça subir os impostos sobre um total de 150.000 mil milhões de dólares de exportações chinesas para os EUA.

Para Yokon Huang, no entanto, o deficit comercial norte-americano deve-se unicamente à estrutura da economia do país: “Os pontos fortes dos EUA são os seus serviços; se fores na rua, irás ver muitas marcas norte-americanas, como o KFC, McDonald’s, Pizza Hut, Marriott ou Ritz Carlton”.

“Tratam-se de ‘franchising’: o investimento é de um local, que paga aos EUA uma taxa de franquia ”, explica. “Este é o modelo norte-americano de produção: muito lucrativo, muito poderoso e muito eficiente economicamente”. 

Arthur Kroeber, diretor de pesquisa no centro de investigação Gavekal Dragonomics, com sede em Hong Kong, considera numa nota recente que a rivalidade entre os EUA e a China “não tem tanto a ver com comércio”, mas mais com a emergência da China nos últimos anos “como um formidável concorrente por influência política e económica, um aspirante a líder no setor tecnológico e principal investidor global”.

A lista de produtos chineses que Trump ameaça taxar inclui os setores, aeronáutico, tecnologias de informação e comunicação ou robótica e máquinas, categorias nas quais as exportações chinesas para os EUA são residuais, indicando que Washington quer travar Pequim de competir, no futuro, em setores de alto valor agregado.

A China fabrica 90 por cento dos telemóveis e 80 por cento dos computadores do mundo, mas depende de tecnologia e componentes oriundos dos EUA, Europa e Japão, que ficam com a maior margem de lucro. Mas as autoridades chinesas estão a encetar um plano designado “Made in China 2025”, para transformar o país numa potência tecnológica, com capacidades em setores como inteligência artificial, energia renovável, robótica e carros elétricos.

Entretanto, empresários chineses estão “apavorados e indignados” face à tensão entre Washington e Pequim, que ameaça indústrias inteiras nos dois países, testemunham exportadores radicados no país. “Existem fábricas com 300 funcionários que, provavelmente vão parar”, conta à agência Lusa Ricardo Geri, cofundador da Plan Ahead, empresa com sede em Pequim que exporta pedra artificial à base de quartzo para os EUA.

“Há uma certa indignação entre os empresários chineses, que investiram muito dinheiro para aumentar a produção”, admite Geri, natural do estado brasileiro de Rio Grande do Sul e radicado em Pequim há cinco anos. No caso particular dos produtos de quartzo, “a China fornece 70 por cento do mercado norte-americano” e, nos últimos anos, “fábricas que tinham duas linhas de produção, passaram a ter quatro, seis ou até nove”, beneficiando da recuperação do setor da construção nos EUA e taxas alfandegárias inferiores a dois por cento, contou o empresário.

No entanto, aproveitando a crescente tensão entre Washington e Pequim, o fabricante líder norte-americano de produtos de quartzo, o Cambria Co., apresentou ao Departamento de Comércio dos EUA uma petição para subir as taxas sobre as importações oriundas da China para 455 por cento, acusando os produtores chineses de receberem subsídios ilegais e prática de ‘dumping’ – venda abaixo do custo de produção.

Em setembro, Washington irá decidir a taxa preliminar e, em julho do próximo ano, sairá a taxa final, com os produtos importados entre aquele período a serem taxados retroativamente. “Criou-se um cenário de alto risco, que parará, praticamente todas as importações”, explica Ricardo Geri.

Pedro Ribeiro, empresário português radicado em Cantão, no sul da China, e que também faz comércio com os EUA, concorda que Pequim “teria muito a perder com uma guerra comercial”, mas lembra que as disputas comerciais afetariam também os exportadores norte-americanos de produtos alimentares. Sabendo que grande parte do eleitorado de Trump se contra na América rural, Pequim ameaça subir os impostos sobre a importação de soja e outros produtos alimentares dos EUA, caso Washington taxe os produtos chineses.

No caso da soja, por exemplo, em que 60 por cento da produção norte-americana se destina à China, as exportações dos EUA para o país asiático caíram de 255 mil toneladas métricas, na primeira semana de abril, para apenas 7.900, na última semana do mesmo mês.  

João Pimenta-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau  01.06.2018

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