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LUSOFONIA E CHINA “SÃO PRIORIDADES” DA POLÍTICA EXTERNA DO BRASIL

 

A cooperação com os países de língua portuguesa e a China são prioridades da política externa brasileira, diz Augusto Castro, delegado do Brasil junto ao Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau). “O encontro e a convergência dessas duas prioridades em Macau é para nós uma mais do que feliz coincidência”, nota em entrevista ao Plataforma Macau o também responsável pela área de Política Comercial da Embaixada do Brasil em Pequim.

 

PLATAFORMA MACAU - O Secretariado Permanente do Fórum Macau vai sofrer algumas mudanças com a saída da secretária-geral adjunta em março e a entrada de uma nova pessoa. Quais as expectativas que tem para este novo ciclo e quais devem ser as prioridades deste mecanismo?

AUGUSTO CASTRO - Soubemos da saída e lamentamos muito. Realmente será uma grande perda para o secretariado, temos uma ótima relação com Rita Santos. Não tenho ainda muitas informações sobre as mudanças, mas não vejo que estas alterações no quadro de funcionários no secretariado vá acarretar uma mudança nas prioridades do Fórum neste momento.

Claro que vai exigir um ajuste. Rita Santos é uma pessoa muito ativa, gosta que as coisas sejam realizadas, tem um perfil muito executivo e com certeza vai fazer muita falta.

As prioridades são aquelas que têm vindo a ser discutidas e que foram eleitas pelos membros do Fórum: questões de investimento e comércio, a vulgarização dos eventos culturais em Macau, a questão das bolsas. Penso que as prioridades vão continuar a ser as mesmas.

 

P.M. - E que aspetos é que o Brasil gostaria de ver concretizados com urgência?

A.C. - Nós temos todo o interesse em estreitar as relações dentro do Fórum e estamos fazendo esforços para isso. Queremos que os interesses dos membros, de todos os países de língua portuguesa, sejam atendidos. Não vejo um vínculo entre a mudança do quadro e a mudança de prioridades. Em abril ou maio vamos ter uma nova reunião ordinária e vamos seguir tocando o trabalho do Fórum como vem sendo feito ao longo dos anos.

 

P.M. – Como olha o Brasil para o trabalho do Fórum Macau?

A.C. - Olhamos de forma muito positiva. Existe uma comunidade de países de língua portuguesa (CPLP) com sede em Lisboa e a cooperação com esses países – a cooperação técnica, o adensamento das relações políticas, económicas e culturais – é uma prioridade permanente da política externa brasileira. A China, por outro lado, é o nosso principal parceiro comercial, é um parceiro estratégico e é um país com quem celebrámos no ano passado 40 anos de relações diplomáticas. Temos um excelente diálogo em todos os níveis, estamos juntos nos BRICS (bloco que junta o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), um grupo plurilateral e que se tem adensado nos últimos anos com a criação de novas instituições internacionais, como é o caso do Novo Banco de Desenvolvimento que vai ter sede aqui na China, em Xangai.

Então, tanto os países de língua portuguesa como a China são prioridades na política externa e comercial do Brasil. O encontro e a convergência dessas duas prioridades em Macau é para nós uma mais do que feliz coincidência. A nossa avaliação do Fórum Macau e de Macau como plataforma para a promoção cultural, comercial e a aproximação dos países membros, só pode ser muito positiva.

 

P.M. - Quais são as suas expectativas em relação aos três centros de cooperação entre a China e os países de língua portuguesa anunciados por Pequim durante a última conferência ministerial?

A.C. - Temos a expectativa de que Macau cumpra o seu papel de plataforma, de ponte entre os países de língua portuguesa e a China. Penso que essa é a expectativa em relação aos três centros.

 

P.M. – Na sua opinião, Macau cumpre esse papel de plataforma entre a China e o Brasil?

A.C. - No caso do Brasil, nós celebrámos no ano passado 40 anos de relações diplomáticas com a China, como disse anteriormente. Temos investimentos chineses crescentes no Brasil, temos um grande volume de comércio bilateral – no ano passado esteve próximo de 80 mil milhões de dólares – e temos alguns investimentos brasileiros na China, inclusivamente em outras províncias. É um relacionamento bastante denso.

A China é hoje o nosso principal parceiro comercial. Então claro, Macau é uma prioridade, temos todo o interesse em utilizar a plataforma Macau, mas as nossas relações com a China são relações já bastante densas.

 

P.M. - O que quer dizer é que existe uma relação direta entre as duas partes, sem a necessidade de passar por Macau?

A.C. - É claro. A questão é que a China é um país enorme, tal como é o Brasil ou outros países como a Rússia, por exemplo. São países muito grandes e a China tem também uma grande diversidade regional. Então, podemos dizer que existem várias Chinas dentro da China e, claro, que o sul do país é diferente do norte e em termos de relação é importante manter contactos ao nível provincial e com as diferentes regiões do país.

P.M. - Tem informações recentes sobre os projetos brasileiros que concorreram ao fundo criado pela China e destinado aos países lusófonos? 

A.C. – A última informação que tivemos foi na reunião ordinária no ano passado, quando um funcionário do Banco de Desenvolvimento da China nos disse que havia uma discussão sobre um projeto com o envolvimento de uma empresa brasileira. Mas, depois disso não tive mais nenhuma informação.

P.M. – Como está a olhar o Brasil para este fundo? O embaixador do Brasil na China disse há vários meses em entrevista a este jornal que o fundo só faz sentido maior se beneficiar os países de língua portuguesa em África ou Timor.

A.C. - Sim, com certeza. Essa é a prioridade que acreditamos que esse fundo deve ter. Deve atender as necessidades dos países que, talvez, tenham menos acesso a recursos financeiros no ambiente internacional.

 

P.M. - Em relação aos empresários brasileiros que passam por Macau e estão interessados em fazer negócio na China. Existe a ideia de que é uma barreira difícil de ultrapassar?

A.C. - Em geral, os empresários brasileiros apreciam muito a possibilidade de usar Macau como uma plataforma de promoção comercial.

Agora claro, no que diz respeito à China em geral, numa relação comercial que cresceu na velocidade que a nossa relação bilateral cresceu nos últimos anos, é óbvio que surgem alguns problemas, alguns atritos em diversas áreas, algumas queixas de alguns empresários que têm dificuldade em fazer negócios. Acontece aqui e penso que também existem dificuldades por parte dos empresários chineses no Brasil. É um fenómeno natural quando há um crescimento tão grande do comércio bilateral como ocorreu nos últimos dez anos.

 

P.M. - O delegado do Brasil junto do Secretariado Permanente costumava estar em Hong Kong. Por que razão mudaram para Pequim?

A.C. – Fizemos uma avaliação e acreditamos que seria melhor que o delegado fosse aqui da embaixada de Pequim.

 

P.M. - Não dificulta o processo de comunicação?

A.C. - Não participo em todas as reuniões, não estou no dia a dia do secretariado, mas desloco-me a Macau para participar nas principais reuniões. Mesmo em Hong Kong, o delegado não podia estar no dia a dia do secretariado porque tinha de cumprir as funções ali no consulado, apesar de ser mais perto. Como envolve questões que estão relacionadas com a China, nós avaliámos que seria mais conveniente que o delegado fosse aqui da embaixada.

 

Catarina Domingues

 

 

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