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Mandarim: Muitos querem aprender, poucos conseguem

Milhares de portugueses estão a despertar para o estudo do mandarim, aliciados pelas oportunidades geradas pela ascensão económica da China. O domínio da língua, no entanto, “não está ao alcance de todos”, concordam os estudantes.

Luís Lino “nem queria acreditar” quando na época passada passou de guia no museu do FC Porto para intérprete do treinador de futebol André Villas-Boas, no clube chinês Shanghai SIPG. “Caiu-me do céu”, lembrou à agência Lusa o jovem de 26 anos, sentado à margem do relvado no final de um treino do vice-campeão chinês.

Formado em mandarim pelo Instituto Politécnico de Leiria (IPL), Lino serviu durante uma época como “polivalente” da tradução no Shangai. Além de apoiar a equipa técnica de Villas-Boas, o português estava ainda à disposição dos jogadores lusófonos no plantel: os brasileiros Elkeson, Hulk e Oscar e o defesa central português Ricardo Carvalho.

“Até para coisas muito pequenas, como ir tratar de documentação, vistos ou documentos de viagem”, contou. Natural da cidade Invicta, Lino ainda pensou em tirar o curso de jornalismo após terminar o ensino secundário, mas acabou por optar pelo estudo de uma língua “muito rentável”.

O chinês mandarim é a língua mais falada do mundo e o único idioma oficial da República Popular da China, país com 1.375 milhões de habitantes – cerca de 18% da população mundial – e a segunda maior economia do planeta.

Em colaboração com o Instituto Politécnico de Macau, o IPL abriu em 2006 a licenciatura de Tradução e Interpretação Português/Chinês – Chinês/Português.

Foi também naquele curso que Tiago Nabais se estreou no ensino superior, aos 29 anos, depois de “viajar bastante” e fazer “uns biscates aqui e ali”. A entrada tardia para a universidade, no entanto, revelou-se uma vantagem no estudo do chinês. “Estudar com tanta dedicação uma coisa destas aos 18 ou 19 anos seria muito difícil”, notou à Lusa.

Sentado numa esplanada junto ao Templo de Confúcio em Pequim, obra inaugurada no século XIV em homenagem ao maior sábio da China Antiga, Nabais disse que a paciência é a chave para aprender mandarim. 

“É preciso aceitar que vai demorar tempo e que os resultados não aparecem logo. É bastante frustrante e só pessoas com um determinado perfil conseguem estudar mandarim”, afirmou, revelando que da sua turma, “para aí metade desistiu a meio”.

Durante o curso, também Nabais pensou muitas vezes: “porque é que me meti a estudar chinês”, acentuando que chegou mesmo “a odiar” a língua, mas hoje recolhe os frutos da sua persistência.

No ano passado, estreou-se no campo da tradução literária com “Crónica de um vendedor de sangue”, romance escrito por Yu Hua, um dos mais aclamados escritores chineses da atualidade, e editado em Portugal pela Relógio d’Água.

A tradução, feita diretamente a partir do chinês, trata-se de um feito raro em Portugal, que Nabais deverá repetir este ano com um outro título do mesmo autor – “A China em dez palavras”.

A primeira instituição de ensino superior em Portugal a oferecer uma licenciatura dedicada à língua chinesa foi a Universidade do Minho, com o curso em Estudos Orientais – Estudos Chineses e Japoneses, aberto em 2004. Na ocasião, “existia ainda uma espécie de complexo em aprender mandarim”, lembrou Samuel Gomes, que ingressou no curso em 2009. 

A China não era “moda” em Portugal e “os estereótipos sobre o país entre os portugueses eram bastante acentuados”, afirmou Gomes, que em 2016 foi distinguido com o prémio “Melhor Performance Artística” no Chinese Bridge, o maior concurso do mundo para alunos de língua chinesa.

Entretanto, o país asiático tornou-se um dos principais investidores em Portugal, comprando participações em grandes empresas das áreas da energia, seguros, saúde e banca, enquanto centenas de particulares chineses compraram casa em Portugal à boleia dos vistos ‘gold’. “Hoje, todos os portugueses falam da China”, sublinhou o jovem portuense.

Gomes considerou que, mais do que o sistema de escrita, um dos mais antigos do mundo e constituído por milhares de carateres, é a existência de tons que torna o chinês numa “língua especial”. Em mandarim, existem quatro tons e mais um quinto tom neutro. A mesma palavra pode ter vários significados, dependendo do tom utilizado. ‘Chi’, por exemplo, quer dizer comer (ch‮!‬ث), estar atrasado (chí), régua (ch‮!‬ل) ou repreender (chì).

Além das referidas licenciaturas, o Instituto Confúcio, organismo patrocinado por Pequim para assegurar o ensino de chinês, garante cursos livres de mandarim em quatro universidades portuguesas – Aveiro, Coimbra, Lisboa e Minho. Desde 2016, o ensino do chinês foi também introduzido em algumas escolas portuguesas ao nível do secundário e do terceiro ciclo, como alternativa de língua estrangeira.

Mas foi São João da Madeira que estreou, em 2012, o mandarim no ensino básico português, ao incluir a língua no curriculum dos 3.º, 4.º e 5.º anos das escolas locais. Para quem começou agora a estudar chinês, Mauro Marques, 29 anos, e formado também pela Universidade do Minho, deixou uma sugestão: “a licenciatura é apenas o início de uma jornada para a vida inteira”.

“Ainda hoje, tenho sete anos de estudo de mandarim e continuo a estudar”, afirmou o jornalista do Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista Chinês. Para Marques, que está radicado em Pequim há dois anos, a sala de aula é apenas “uma estufa”.

“A realidade é bem mais agreste: só ao chegar à China é que se percebe o quão pouco se sabe e o quão vasta é a língua”, concluiu. 

João Pimenta-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

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