CHINA-ECONOMY-GROWTH

Uma China à conquista do mundo

Uma malha ferroviária até à Europa, gasodutos desde o Turquemenistão e Birmânia ou novos portos em Moçambique e Geórgia anunciam uma “nova era”, na qual a China Continental ocupará o “centro” da futura ordem mundial.

“É uma mudança histórica na posição da China no mundo”, explica He Yafei, antigo vice-ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, durante um fórum dedicado à “Nova Rota da Seda”, o gigante plano de infraestruturas lançado pelo Presidente chinês, Xi Jinping.

“Trata-se da solução chinesa para resolver os dilemas que a humanidade enfrenta”, explica o diplomata, no centro de conferências de Zhuhai, parte de um complexo inaugurado há dois anos e que inclui um luxuoso hotel e uma torre envidraçada de 300 metros com ampla vista para Macau, território que outrora exibiu a extensão planetária do Império português.

Divulgado em 2013 por Xi Jinping, a “Nova Rota da Seda” vai abranger 65 países – 70 por cento da população mundial -, três quartos dos recursos energéticos do planeta e 28 por cento do Produto Interno Bruto mundial.

Uma malha ferroviária e autoestradas ligarão a região oeste da China Continental à Europa e Oceano Índico, cruzando Rússia e Ásia Central, enquanto uma rede de portos em África e no Mediterrâneo reforçarão as ligações marítimas das prósperas cidades do litoral chinês.

Pelo caminho, serão erguidos aeroportos, centrais elétricas e zonas de comércio livre, visando dinamizar o comércio e indústria em regiões pouco integradas na economia global.

Um novo modelo de desenvolvimento 

Sheng Shiliang, investigador no Centro de Pesquisa de Desenvolvimento do Conselho de Estado da China, descreve a iniciativa como uma forma de os países “conectarem estratégias de desenvolvimento e tornarem complementares as suas respetivas vantagens”.

No conjunto, o Banco de Desenvolvimento da China estima um investimento total de 900 mil milhões de dólares, distribuído por 900 projetos.

Trata-se de uma proposta “inclusiva” para a globalização, apresentada pela liderança chinesa numa altura em que os Estados Unidos de Donald Trump rasgam compromissos internacionais sobre o clima, comércio ou migração. “A Nova Rota da Seda combaterá a onda antiglobalização”, afirma He Yaofei.

“Vivemos um período de caos e fragmentação na governança global”, diz o antigo vice-ministro chinês, apontando as “crescentes desigualdades sociais”, “emergência do populismo” e uma “crise institucional” nos países capitalistas.

“Mas a China é outra história”, nota. “Temos uma governação doméstica de grande sucesso, se olharmos para os grandes feitos que alcançamos nas últimas três décadas de Reforma e Abertura e os progressos fantásticos dos últimos anos sob a liderança de Xi Jinping”.

Xi é o mais forte líder chinês das últimas décadas e a “Nova Rota da Seda” o projeto de assinatura. Sob a sua liderança, a diplomacia chinesa abdicou dos princípios vigentes desde Deng Xiaoping – “manter um perfil discreto” e “nunca reclamar a liderança” -, e passou a referir abertamente que o seu modelo político e económico pode ser uma solução para outras regiões do globo.

Jorge Torres-Pereira, embaixador português cessante em Pequim, considera a “Nova Rota da Seda” uma “projeção para fora das fronteiras da China de um conceito que até correu bem dentro da China”. “O modelo que os chineses aplicaram para o seu desenvolvimento acelerado passou muito pelas infraestruturas: isso gerou um ciclo virtuoso que se traduziu em emprego, mais desenvolvimento económico, mais necessidade de tecnologia”, explica.

Gao Zhikai, antigo intérprete de Deng Xiaoping e mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Yale, considera que a iniciativa chinesa é uma “nova forma de pensar o desenvolvimento” e “combater a pobreza”, ao “complementar a falta de conectividade entre países”.

“Mesmo na Europa, os problemas de pobreza estão ligados à falta de desenvolvimento ou a um desenvolvimento que não foi estruturado de forma racional”, comenta à Lusa. Mas nem tudo é cooperação e coexistência pacifica na Nova Rota da Seda, com algumas das novas vias comercias a depararem-se com disputas territoriais antigas e a causarem apreensão face à crescente influência de Pequim.

Avaliado em 54 mil milhões de dólares, o Corredor Económico China-Paquistão, que ligará o extremo noroeste da China ao porto de Gwadar, no sudoeste do Paquistão, inclui novas ligações ferroviárias e autoestradas que cruzarão parte de Caxemira e Gilgit-Baltistão, territórios controlados por Islamabad e reclamados por Nova Deli.

Isso, e a desconfiança das autoridades indianas quanto à estratégia chinesa para o Índico, levaram a Índia, o maior dos vizinhos da China e uma grande economia emergente, a recusar até agora envolver-se na iniciativa. “Alguns membros da diplomacia chinesa consideraram consultar a Índia, mas o Paquistão recusou firmemente essa proposta”, revela à Lusa Jin Canrong, diretor do Centro de Estudos de Estratégia Internacional da China, da Universidade do Povo.

“Islamabad considerou que seria um desrespeito pela sua soberania”, explica. “E nós temos que admitir: a China é politicamente mais próxima do Paquistão do que da Índia”. Críticos da iniciativa apontam também os perigos para os Direitos Humanos e para o ambiente associados à exportação do modelo de desenvolvimento chinês, enquanto a volatilidade das regiões por onde passam as novas vias comerciais poderá impelir Pequim a expandir a sua presença militar no exterior.

Em agosto, a China Continental abriu a sua primeira base militar no estrangeiro, em Djibuti, no corno de África. O país contribui hoje com mais “capacetes azuis” para a Organização das Nações Unidas do que os restantes quatro membros permanentes do Conselho de Segurança juntos.

Jin Canrong admite que existe um “dilema” entre os crescentes interesses da China no exterior e o princípio de “não-intervenção”, vincado pela diplomacia chinesa desde a fundação da República Popular da China, em 1949. “Como princípio, não planeamos alterar esta política”, afirma. “Mas taticamente, deveremos introduzir novos procedimentos”. 

João Pimenta-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

Artigos relacionados

 
 

“O altruísmo do espírito cabo-verdiano é tudo o que sempre quis”

Shauna Barbosa é poeta, filha de mãe norte-americana e pai cabo-verdiano. A sua escrita tem o sabor e o ritmo dos dois lados do Atlântico. Cape Verdean Blues, o primeiro livro da autora, está a ser recebido com entusiasmo. Muitos leitores terão ficado a saber da existência da poeta Shauna Barbosa da mesma forma que

“Macau pode fazer mais e melhor”

O presidente do Instituto Politécnico de Macau defende que a região tem de saber tirar maior proveito do que a faz singular: a cultura e língua portuguesas. A presença do português foi uma das batalhas de Lei Heong Iok enquanto liderou a instituição que deixa no próximo mês. Sai do Instituto Politécnico de Macau (IPM)

Cultura com limites

A primeira edição do “Encontro em Macau – festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa” termina no domingo. No fim de semana passado, também teve lugar a primeira edição do Fórum Cultural entre a China e os Países de Língua Portuguesa. O objetivo é que se tornem eventos

“Presidência pode marcar viragem para consolidação da CPLP”

A ilha cabo-verdiana do Sal acolhe, a 17 e 18 de julho, a XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). A cimeira para a qual está confirmada a presença de oito dos nove chefes de Estado da organização – Timor Leste cancelou a presença –

UNESCO: Lusofonia em peso

Cabo Verde quer garantir já para a semana o apoio de Portugal, Angola e Guiné-Bissau à candidatura conjunta do campo de concentração do Tarrafal a património da Humanidade. São Tomé e Príncipe, e Timor-Leste estão também a planear apresentar candidaturas junto da UNESCO. A cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) começa na

Lusofonia: unidos pelo património

O primeiro “Fórum Cultural entre a China e os Países de Língua Portuguesa” terminou com um apelo dos dirigentes culturais lusófonos à criação de uma plataforma para a cooperação na proteção do património conjunto, nomeadamente o que se encontra nos países menos desenvolvidos.      Dois dias que souberam a pouco. Foi o que sentiram