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Uma Faixa, Uma Rota “mais perto do desastre”

A iniciativa chinesa Uma Faixa, Uma Rota pode ser um desastre para a biodiversidade do planeta. O alerta é dado por vários académicos num artigo científico. A tese é contrariada por outros peritos que acreditam que o Governo central quer mesmo mostrar liderança mundial na proteção do ambiente.

“As aspirações de desenvolvimento económico através da política Uma Faixa, Uma Rota poderão colidir com os objetivos de sustentabilidade ambiental, dada a expansão e modernização das infraestruturas de transporte em zonas ambientalmente sensíveis”. O aviso é de sete investigadores, incluindo dois portugueses, num artigo publicado recentemente na revista Nature Sustainability. Um dos autores confessou ao PLATAFORMA estar ainda mais pessimista: “Penso que estamos mais perto do desastre do que do sucesso, e que será um desastre em vários sítios”, defende o académico Henrique Pereira.

Oleodutos e gasodutos a ligar a China à Rússia, ao Cazaquistão e ao Myanmar; uma rede de caminhos-de-ferro que se estende até Espanha; uma autoestrada na Tanzânia; um porto no Sri Lanka. Cinco anos depois de ter sido lançada, os projetos incluídos na iniciativa chinesa multiplicaram-se e já chegam a pelo menos 64 países, cobrindo cerca de dois terços da população mundial e um terço da economia.

Uma Faixa, Uma Rota inclui projetos em “áreas de enorme valor ambiental”, onde podem ter “um impacto significativo na biodiversidade” (ver caixa). Um dos projetos é a linha de caminhos-de-ferro a ligar o Oceano Atlântico ao Oceano Índico, de Angola ao porto de Bagamoyo, na Tanzânia. “Muitas destas zonas são muito importantes, muito sensíveis para a biodiversidade, o que requer um cuidado extra”, defende o cientista Henrique Pereira.

O problema é que muitos destes países têm fraca legislação ambiental e “uma fiscalização muito pior” que a da China, refere ao PLATAFORMA Richard Corlett, um outro autor do artigo, que nas últimas três décadas tem investigado a biodiversidade do Sudeste Asiático. Faith Chan é mais otimista. O professor na Universidade de Nottingham, na cidade chinesa de Ningbo, acredita que mesmo os países em desenvolvimento já perceberam que “custa muito mais salvar um rio poluído do que protegê-lo logo à partida”.

“Deram cabo” da China

A China sabe disso. “Toda a gente sabe que deram cabo do país nos últimos 30 anos e arrependem-se, e estão a tentar mudar a situação”, afirma Richard Corlett. Após 20 anos em Hong Kong, o biólogo é atualmente professor no Centro para a Conservação Integrada, que faz parte da Academia Chinesa de Ciências e fica no Jardim Botânico Tropical Xishuangbanna, na província de Yunnan.

Henrique Pereira concorda. Como co-presidente do Group on Earth Observations Biodiversity Observation Network esteve em Pequim no mês passado para fazer um balanço do programa chinês de monitorização da biodiversidade lançado em 2011. “É verdadeiramente notável o trabalho da China e os recursos que foram investidos. O programa é agora um dos maiores e dos melhores a nível mundial”, realça o professor no Centro Alemão Halle-Jena-Leipzig para a Investigação Integrada em Biodiversidade.

Pereira salienta que os problemas de poluição são “muito graves e vão continuar a ser”, como o smog na capital chinesa, mas ressalva que a regulação ambiental tem-se tornado muito mais apertada. Por exemplo, há precisamente uma semana, a província de Shandong divulgou um plano com objetivos mais ambiciosos para redução das emissões poluentes até 2020, que inclui um corte na produção de carvão e aço, e o encerramento das fundições de alumínio mais antiquadas.

Longe da vista

Mas será que a preocupação da China com o ambiente se estende além fronteiras? Faith Chan acredita que sim e dá como exemplo o lançamento de recomendações por parte do Governo central – ainda por aprovar pelo Conselho de Estado – para garantir que a política Uma Faixa, Uma Rota é tão “verde” quanto possível (ver caixa). “É um bom sinal e muito encorajador”, afirma o professor de ciências ambientais. “Seria muito mais fácil ter deixado isso tudo de lado”, acrescenta.

“Há sinais positivos, outros mais negativos”, contesta Henrique Pereira. O académico dá como exemplo o caso da Indonésia – que desistiu de uma linha de comboio de alta velocidade por não ter sido feito um estudo de impacto ambiental; mas também do Laos, Camboja e Vietname, onde tem havido manifestações anti-China devido ao possível impacto para o ambiente e para as comunidades locais de vários projetos hídricos planeados para o Rio Mekong.

A situação, considera Richard Corlett, importa aos líderes chineses. “Não querem que Uma Faixa, Uma Rota se torne uma mancha na imagem da China. Acreditam sinceramente que a iniciativa é algo de bom” para o mundo, garante. O académico sublinha que, até as grandes empresas chinesas já têm mais cuidado, porque passaram a ser “tão vulneráveis aos riscos de reputação como qualquer outra grande empresa internacional”.

Henrique Pereira é mais pessimista e teme que o Governo central tenha “poucas possibilidades” de controlar os impactos negativos da Uma Faixa, Uma Rota porque a iniciativa não tem “um controlo central, é algo disperso”. Apesar da política ser dirigida por Pequim, Richard Corlett ressalva que é errada a ideia veiculada no ocidente de que há “biliões de dólares de dinheiro chinês” a serem canalizados para levar a cabo a medida Uma Faixa, Uma Rota.

O académico sublinha que o capital vem de inúmeras fontes, incluindo de bancos privados chineses e estrangeiros, e até do Banco Mundial. “Toda a gente está a participar e a China não está numa posição de poder de dizer a toda a gente o que fazer”, realça o britânico. Só o banco estatal chinês EximBank, por exemplo, já emprestou 130 mil milhões de  yuan (153,9 mil milhões de patacas) na primeira metade deste ano para projetos da Uma Faixa, Uma Rota.

Corlett acrescenta que, ao contrário de instituições como a União Europeia ou o Fundo Monetário Internacional – que impõem condições aos empréstimos ou à ajuda ao desenvolvimento -, a China “não gosta de interferir nos assuntos de outros países”. “É algo fundamental na política externa chinesa.”

O investigador ressalva no entanto que há exceções e refere o exemplo do comboio de alta velocidade planeado entre a província de Yunnan, onde vive, e o vizinho Laos. Neste caso, em que a China está a disponibilizar a maioria do financiamento e o resto vem de um empréstimo do Exim Bank ao Laos “com condições favoráveis”, Pequim tem maior espaço para fazer exigências, considera Corlett.

Oportunidade de liderança

O artigo do Nature Sustainability argumenta que o Governo central devia aplicar aos projetos da Uma Faixa, Uma Rota as mesmas exigências que tem na China continental, incluindo uma avaliação estratégica ambiental e social. “Se a China está de alguma forma a financiar estes investimentos, não é por ser noutras zonas que os procedimentos ambientais devem ser mais leves ou moderados”, critica Henrique Pereira.

Faith Chan sublinha que este tipo de avaliação já faz parte das recomendações do Governo central para Uma Faixa, Uma Rota verde. 

Apesar de crítico, o artigo da revista de investigação académica sobre sustentabilidade também enumera motivos para otimismo, como a mudança do trajeto de uma autoestrada na Tanzânia. A alteração poupou o Parque Nacional do Serengeti e garante melhor acessibilidade às comunidades locais. 

Henrique Pereira vinca que Uma Faixa, Uma Rota pode ser uma grande oportunidade para a China assumir a liderança a nível mundial no que toca ao ambiente. Já Faith Chan acrescenta que, depois do presidente Donald Trump ter retirado os Estados Unidos do Acordo de Paris relativo às alterações climáticas, o país tem de facto “demonstrado liderança” na área do ambiente. Richard Corlett, por sua vez, refere que o presidente chinês “gostaria muito” de ficar com o título de líder na área. Já Zhang Junjie, diretor do Centro de Pesquisa Ambiental na Universidade de Duke na cidade chinesa de Kunshan, é mais cauteloso. Numa entrevista ao jornal PONTO FINAL, o académico referia que Xi Jinping sabe bem que “há um preço a pagar por assumir a liderança” e está atualmente “a repensar” o papel que a China pode ter no mundo. 

A natureza e o monstro

Os corredores de desenvolvimento incluídos na iniciativa Uma Faixa, Uma Rota vão atravessar 1,739 áreas chave para a Biodiversidade identificadas pela União Internacional para Conservação da Natureza, avisou o Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla inglesa), em novembro passado. Os corredores podem ainda afetar 46 zonas com grande biodiversidade mas já ameaçadas e 200 eco-regiões classificadas pelo WWF. O relatório acrescenta também que a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota poderá prejudicar o habitat de 265 espécies ameaçadas, incluindo 81 em risco e 39 já em estado crítico.
O organismo dá como exemplo a ligação por comboio de alta velocidade entre Singapura e a capital da Malásia, Kuala Lumpur, que poderá atingir várias zonas sensíveis, como o Parque Nacional Taman Negara, uma das mais antigas florestas tropicais do mundo e habitat do elefante asiático. O projecto foi suspenso em junho pelo novo primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, numa tentativa de reduzir o endividamento do país.
A WWF avisa também que a Reserva Natural de Sikhote-Alin’ poderá sofrer consequências nefastas por causa de um gasoduto incluído na política Uma Faixa, Uma Rota, que vai ligar o porto russo de Vladivostok ao centro da Rússia – a única zona onde ainda vive o maior tigre do mundo, o siberiano, cuja população está reduzida a menos de 600 animais.

Tons de verde

A promessa chinesa de apostar no investimento e financiamento “verdes” foi recebida com desconfiança pelo ocidente, com muitos políticos e activistas a sublinhar que para Pequim até uma central eléctrica moderna a carvão é considerada amiga do ambiente. Mas para Zhang Junjie, a produção de energia com recursos fósseis pode ser positiva, desde que seja “mais limpa” do que alternativa.

Um país em desenvolvimento “vai sempre ver as suas emissões poluentes aumentar”, afirma o professor na Universidade de Duke, na cidade chinesa de Kunshan. “Temos de ser realistas, porque rejeitar o desenvolvimento não é uma solução. Os cidadãos destes países merecem ter uma vida melhor”, defende Zhang.

O especialista em economia ambiental acredita que o método chinês tem a vantagem de “se adequar ao nível de desenvolvimento de cada nação”. “Se impusermos requisitos muitos rigorosos, os países abrangidos pela Uma Faixa, Uma Rota nunca terão capacidade financeira para construir estes projectos de infra-estruturas”, avisa o académico.

Vítor Quintã 10.08.2018

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