Beichuan novo 10 anos depois

Vida depois do “fim do mundo”: Wenchuan dez anos depois

Em Beichuan, província de Sichuan, o tempo parou. Nesta cidade que em tempos alojou 160 mil pessoas, os únicos sinais de vida hoje são as borboletas que sobrevoam os destroços das habitações, edifícios e carros destruídos. 

No dia 12 de maio de 2008, às 14 horas e 28 minutos, Sichuan foi atingido por um terramoto de 8.0 na escala de Richter. Um terramoto tão repentino e poderoso, que grande parte dos residentes não teve tempo para fugir ou se esconder, levando à morte de dezenas de milhares de pessoas.

Em Sichuan, chama-se à partilha de histórias “Bai Long Men Zhen”, que significa “conversa de dragões”. Dez anos depois do terramoto de Wenchuan, viajamos ao longo da montanha do “Portão do Dragão” para ver como a província recuperou desde esta tragédia e ouvir o que os dragões têm para contar.

Ao longo das planícies

A cidade de Chengdu está a 70 quilómetros de distância do epicentro. A cidade situa-se nas planícies de Sichuan, no centro do antigo império chinês. Contudo, estas planícies sofreram secas e cheias, e águas das montanhas cercaram a cidade.

Foi um governador da dinastia Qin que, pela primeira vez, pôs em prática o sistema de irrigação Dujiangyan, na cidade com o mesmo nome, sistema este que mudava o caminho da corrente do rio. Antes da invenção da dinamite, usava-se fogo para aquecer as rochas da montanha, seguido de água gelada, fazendo com que as mesmas enfraquecessem e rachassem. 

Embora estivesse a apenas 25 quilómetros de epicentro, Dujiangyan saíu intacta, tal como o sistema de irrigação.

O dia em que o céu caiu

A 88 quilómetros nordeste desta maravilha da engenharia, podemos encontrar Luobozhai, a dois mil metros acima do nível do mar. Esta pequena comunidade é conhecida, localmente, como “a aldeia nas nuvens”. Luobozhai já estava habituada aos tremores de terra. Nos anos 70, entidades locais alertavam os moradores para os mesmos, gritando por altifalantes. No entanto, nada por que passaram anteriormente poderia preparar a aldeia para o que iria acontecer. 

Tudo foi destruído, nenhuma família sobreviveu. Vidas extintas sob entulho e lama. Familiares desapareceram e nunca mais foram vistos.

“Parecia ser o fim do mundo. Pensei que não fosse sobreviver”, disse Wang Baojian, dono de uma pequena pensão. 

Tinha saído de casa quando o terramoto começou, significando a sua salvação. Porém, a sua irmã não. Ela tinha corrido para dentro de casa para salvar o seu bebé, momentos antes da estrutura colapsar. Os seus corpos foram os últimos a ser encontrados.

“Durante as buscas eu sabia onde estavam, mas não tinha forma de os tirar de lá”. Luobozhai, com ar fresco da montanha e uma paisagem maravilhosa, é já um destino turístico muito popular. Depois do terramoto, um dos antigos clientes da pensão de Wang escreveu-lhe, perguntando se poderia visitá-lo novamente. Wang apenas foi capaz de responder ao cliente seis meses depois. Numa chamada emocionada, disse: “Não resta nada para visitar”. A resposta foi generosa. “Tudo pode ser comprado novamente. Do que é que precisa?”. Este cliente, juntamente com outros que tinham visitado em tempos o Sr. Wang, conseguiram enviar-lhe 260 mil yuan (cerca de 41 mil dólares), que, juntamente com a ajuda de 90 mil yuans do governo, fez com que Wang pudesse reconstruir a sua pensão e a sua vida. Entretanto, porém, a aldeia original foi abandonada, sendo as ruínas dos edifícios destruídos as únicas testemunhas para aqueles que ali morreram.

Lições aprendidas

Depois do terramoto, uma grande ajuda financeira tornou possível a reconstrução das zonas afetadas. Leis foram alteradas, e normas de construção são agora mais rigorosas. Foi prometido que tragédias como esta não se voltariam a repetir. Sichuan tinha agora uma grande tarefa pela frente, reconstruir-se, e províncias, municípios e regiões autónomas por toda a China ajudaram nesta reconstrução. 

A escola primária nº1 de Wenchuan, por exemplo, foi construída com a ajuda da província de Guangdong. A escola é luminosa e arejada. As paredes estão decoradas com recortes de papel, bordados e outras obras de arte dos alunos. Enquanto os corredores dos andares mais altos se enchem de risos e conversas, o rés-do-chão está extremamente silencioso. 

Durante o caos que foi o terramoto, muitos foram esmagados pelos edifícios que colapsaram. Por isso, esta escola não tem salas de aula no rés-do-chão, e os alunos participam numa simulação pelo menos uma vez por ano. Durante dois a três minutos depois do alarme tocar, os alunos precisam de ficar à espera de que seja determinada a gravidade da situação. No entanto, esses minutos são mais longos do que podem parecer.

Yingxiu está apenas a três quilómetros do epicentro. Esta cidade promissora parece agora estar a ser engolida pelas paredes e tetos de uma escola destruída. Este é um memorial para aqueles que ali morreram. Para os sobreviventes, os problemas estavam longe de ter terminado nos dias após a tragédia. Todas as infraestruturas estavam destruídas, e não havia condições básicas como água e eletricidade. 

Liu Yong, da operadora de rede de Yingxiu, foi uma das primeiras pessoas no local. A sua mulher foi transportada por helicóptero para o hospital, e Liu ficou para ajudar os outros. Foram precisos três meses para reconstruir a rede de Yingxiu, com a cidade a sobreviver com geradores durante esse período. Esta experiência tornou-se numa lição vital que iria dar frutos no futuro. Depois do terramoto de 2017 em Jiuzhaigou, Sichuan, a rede elétrica foi reconstruída em apenas 48 horas.

Hoje, aqueles que foram afetados por esta tragédia já recuperaram a normalidade, uma parte muitas vezes esquecida neste processo. Apenas quando vidas destruídas são reconstruídas, mais fortes do que nunca, poderá o dragão contar a sua história. 

H. L. Bentley-XINHUA  18.05.2018

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