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“As pessoas continuam a acreditar que é possível fazer um país melhor”

O músico angolano Paulo Flores está em Macau para participar na Festa da Lusofonia. Conhecido por ter relançado o género tradicional semba, Flores fala da importância da música e dos músicos, dos 30 anos de carreira que agora celebra e de Angola, país que acredita estar “num momento de esperança”.

- Como correu o primeiro concerto na Doca dos Pescadores?

Paulo Flores – Foi muito bom, por vários motivos. Primeiro porque é uma formação diferente do que costumamos fazer, sem teclados, com as guitarras e as percussões; e depois porque era uma praça onde estavas muito dependente de as pessoas quererem parar e ficar. No final acabámos por criar um bom ambiente, onde havia chineses, cabo-verdianos, portugueses, angolanos e pessoas de várias idades. Foi bastante especial. Tivemos muito prazer em estar em palco e estamos ansiosos por fazer os próximos.

- Que espetáculo trouxeram a Macau?

P.F. – Essencialmente é um show que faz uma viagem pelo semba mais tradicional, com algumas cambiantes rítmicas, algumas músicas mais ligeiras onde passo também por Cabo Verde, numa música que fiz com o Tito Paris, ‘Clarice’, uma morna mais ou menos estilizada. E também temos uma kizomba que agora está a tocar muito nas escolas de kizomba pelo mundo inteiro, a  ‘Kunanga de Amor’. São músicas que vão desde o meu segundo disco até ao disco mais recente.

- Para os menos entendidos, como é que se define o semba?

P.F.  Tem várias maneiras de ser definido. Foi uma música que nos permitiu começar a celebrar a nossa dor e que, como tinha um ritmo forte, tocava em todas as festas, mesmo no tempo colonial. Comecei a descobrir isso com as minhas avós, porque ouvia-as cantarem em casa, com uma alegria muito grande, um ritmo contagiante. Quando perguntava o que significava a música, normalmente estavam a falar de uma história de dor. Aquilo inclusivamente funcionou também na minha escrita, um pouco a preocupação com os outros e também esse direito de celebrar e ser feliz. Ritmicamente é um quatro por quatro que serve um pouco de matriz a muitos ritmos como a capoeira, o baião, coisas do Nordeste, e até a própria kizomba, embora seja uma derivação do zouk, é tocada com alguns elementos que o semba também tem. Tem a característica de ser uma identidade recente e que nos define enquanto angolanos.

- Falava há pouco da preocupação com os outros. Acredita nesse papel social, quase interventivo, da música e dos músicos?

P.F.  Sim, porque também foi assim que cresci. Mesmo as minhas influências na música portuguesa e nos poetas, o Ary dos Santos, o Carlos do Carmo, Amália, Zeca Afonso; em Angola, as músicas em kimbundu antes da independência, depois o próprio Rui Mingas, o André Mingas; também na música brasileira, o Chico Buarque, aquela forma de escrever sobre nós e sobre o amor ao próximo. Enquanto artista, que às vezes é um bocado indissociável de mim enquanto indivíduo, a minha música acaba muitas vezes por funcionar para mim como um bálsamo, uma forma de procurar desconstruir as minhas inseguranças e expô-las, e ao partilhá-las perceber que muitas vezes as minhas inseguranças também eram as dos outros. Hoje em dia às vezes a questão principal é aguentar a dor que sinto por achar que não estou a conseguir ajudar toda a gente como gostava; e ao mesmo tempo o pragmatismo de sermos profissionais e de precisarmos do aplauso e do cachê. Mas vejo a arte como uma forma de estar próximo dos outros e de nos ajudar a ser mais inteiros. Em relação a Angola em particular, também serve para resgatar memórias que permitam à juventude continuar a criar e a olhar em frente com outra substância.

- Está a celebrar 30 anos de carreira. Nestas três décadas a sua música mudou, e mudou também o seu país. Como olha para a Angola de hoje e também para o momento atual da sua música?

P.F. – Estamos num momento de esperança, embora ainda falte muita comida em muitos pratos. Nota-se que existe uma maior preocupação da classe política pelos seus concidadãos. Isso dá-nos logo à partida uma lufada de ar fresco, sentes que há um respirar mais leve, parece que está a sair um peso grande de cima de nós. Por outro lado, é a força que existe numa sociedade onde, por exemplo, não tens um teatro em condições mas és capaz de encontrar pessoas a fazer teatro nas escolas, nas esquinas, nas províncias, nos musseques. É essa capacidade de nos reinventarmos que dá esperança, as pessoas continuam a acreditar que é possível fazer um país melhor, também e principalmente através da arte. A minha música, no início era quase como uma criação que saía antes do pensamento, que vinha cá para fora por inspiração, por ingenuidade. Hoje em dia já existe uma maior consciência da minha parte e por isso também às vezes me custa mais acabar as músicas, porque já não é só música para mim. Não no sentido literal político, mas no sentido de fazer as pessoas sentir que estamos próximos e que nós artistas representamos as carências e as expectativas dos angolanos em particular.

- Parece-lhe que a música em Angola teve um papel nesta mudança que agora diz sentir no país?

P.F. – Acho que sempre teve. Antes da independência, cantando muitas vezes em kimbundu, com o semba, e juntando as culturas, também com os portugueses juntos a cantar e também a fazer a revolução connosco. Depois, nos anos 80, no meu caso, era muito difícil procurarmos uma música que pudesse tocar em Angola, porque naquela altura só se ouvia o zouk e música brasileira. Daí se calhar ter nascido esse movimento a que hoje em dia chamam kizomba, porque tentámos fazer algo aproximado em termos rítmicos mas que falasse do nosso dia-a-dia. Ali foi uma época marcante, porque muitos de nós tivemos a primeira namorada, a primeira festa, o primeiro desgosto, e tudo isso estava também de alguma forma marcado por essas músicas, que muitas vezes falavam de coisas normais. Isso acabou por marcar uma época que hoje as pessoas sentem como algo muito bom. A música sempre fez parte, mesmo no tempo da guerra a música ligava-nos a todos – UNITA, MPLA, norte, sul. Era de facto um grande elo de ligação e continua a ser.

- Traz a sua música até Macau, um território distante de Angola e de Portugal, mas onde a língua portuguesa persiste. O que acha da atual relação entre os países e territórios de língua portuguesa?

P.F. – Uma coisa é institucionalmente, e disso não posso falar muito. Outra coisa é, em 30 anos de carreira, ver os meus amigos, o Stewart [Sukuma] de Moçambique, o Manecas [Costa] da Guiné, o Tito [Paris], o Grace [Évora] de Cabo Verde… No fundo, somos a lusofonia na prática, não é tanto a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Aí, acho que houve uma grande evolução. Mesmo Lisboa, hoje em dia é um lugar que qualquer pessoa que vá para lá passar um tempo, seja de Angola, do Brasil, de Cabo Verde, aprende uma outra forma de ser africano, de ser misturado, de ser diferente e de fazer junto esse caminho, respeitando essas diferenças. De facto sinto-me um privilegiado por poder estar sempre nessa ponte Angola-Moçambique-Portugal. Acho que na prática está muito mais forte a nossa ligação. Claro que podia ser muito melhor, acredito que sim, mas independentemente das carências sinto muito maior proximidade, até na linguagem, na forma como todos nos identificamos com o mesmo calão. Se dizemos ‘dama’ em Angola, também dizemos em Lisboa e em Moçambique. Acho que isso é a língua portuguesa na prática.

- Ao fim de 30 anos de carreira, há ainda alguma coisa por cumprir?

P.F. – Voltamos à questão do que é que procuramos. Às vezes não procuro tanto o aplauso ou aquele palco. O que procuro é continuar a ter o prazer quando termino uma música, sentir-me vivo, sentir-me com vontade de continuar à procura e perceber que muitas vezes a música ganha uma dimensão na vida das pessoas que não temos noção. Quero essencialmente continuar a criar e a comunicar de uma maneira que possa fazer diferença na vida das pessoas. 

Hélder Beja 19.10.2018

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