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O Regresso

Aline Frazão acaba de lançar Dentro da Chuva. A artista angolana diz que o disco é um regresso ao início, da voz e violão, e o reencontro com Angola, para onde voltou depois de dez anos.

Dentro da Chuva é o mais recente trabalho de Aline Frazão. Aos 30, com quase dez de carreira, lança mais um disco, o primeiro escrito em Angola. Foi para lá que voltou há dois anos depois de dez fora. A mudança não foi fácil e o álbum fala disso: reencontro, desassossego, inquietude…A artista angolana falou ao PLATAFORMA sobre o projeto, o país “sem futuro político” e a lusofonia “que não existe”. 

- Dia 21 saiu o teu quarto disco. Como te sentes agora que está cá fora?

Aline Frazão - Tenho a sensação de dever cumprido. É quando chego às pessoas que o sentido de estar a fazer discos e música se fecha. 

- Os teus trabalhos traduzem muito o que viveste e as mudanças que entretanto aconteceram na tua vida. De que forma, o Dentro da Chuva reflete mais uma fase?

A.F. - O Dentro da Chuva foi escrito desde que voltei a Luanda. Passei dez anos fora, em Portugal e Espanha. Há cerca de dois, tomei a decisão de voltar. É o meu primeiro projeto que não é escrito desde a diáspora. Foi uma mudança custosa. Luanda não é uma cidade fácil. Colocou-me num lugar de reconhecimento e de uma certa reconfiguração da minha vida. É um disco que reflete esse lado dos silêncios, de querer parar um pouco. Coincidiu com uma altura que deixei de colaborar com o Rede Angola, um jornal online para o qual escrevia todas as semanas. Foi uma fase muito opinativa. Colapsou-me um bocado e tive necessidade de ouvir mais, de estar mais atenta a mim, ao que me rodeia, recuperar um sossego, uma calma. O disco fala desse trajeto. Mas não é um disco que fale de calma, de paz e sossego. Fala do inferno, do desassossego, da inquietude que implica uma mudança.

- Os teus trabalhos oscilam entre diferentes estilos. Dizes que o Insular era mais elétrico e eclético, e que este é um álbum de regresso, reencontro. Podes explicar melhor?

A.F. - Tem a ver com o regressar ao meu lugar de compor, da voz e do violão, a esse formato que foi como comecei a cantar em público. Todos os meus discos começam nesse lugar de intimidade: de um quarto e do papel, da caneta e da guitarra. O formato de songwriter é talvez o mais fidedigno do que sou. É um regresso à essência, aos poucos elementos, a uma sonoridade mais despida, mais minimalista, com menos instrumentos, que permite criar maior espaço para a voz, para a palavra, para os versos, para a poesia, para a mensagem, para aquilo que quero contar.

- Tens vários convidados, como o Jaques Morelenbaum. São artistas que te marcaram?

A.F. – Assim que decidi que fazia sentido gravar no Rio, pensei imediatamente no Jaques Morelenbaum. Conheci-o em Lisboa e surgiu o convite. Enviei-lhe a música, ele gostou, aceitou gravar. De repente estava o Jaques Morelenbaum, que acompanhava o Tom Jobim, que produziu vários discos do Caetano Veloso, sentado no estúdio comigo. Senti que ouviu a canção, que é uma coisa rara, mesmo quando se trata de um músico consagrado. Foi muito generoso. Quando pensei em gravar no Brasil e que queria também falar sobre esse encontro com a música brasileira, no Rio que faz parte do meu mapa afetivo, achei que não me iria sentir bem se voltasse para casa com um disco que tivesse apenas o Jaques, que representa a música mais institucional, mais célebre, um lado muito ligado à Bossa Nova. Já seguia o trabalho da Luedji Luna. Queria fazer uma música que desse para as nossas vozes que são muito diferentes. Sem a Luedji a experiência do Brasil seria uma história mal contada, incompleta. A Luedji representa o novo Brasil. Representa a força das cantoras e compositoras mulheres, negras, lésbicas. É da Baía. Tem uma ligação muito forte com África. É das canções mais bonitas do álbum. Dali saiu o nome Dentro da Chuva, que é um dos versos da música Kapiapia. Depois o João Pires, parceiro de alguns Carnavais, não só da música, mas dos afetos. É um compositor incrível, muito lisboeta mas muito do mundo, vive no Brasil, passou tempo em Cabo Verde, e acabamos por partilhar a linguagem. É um compositor brilhante. 

- Nasceste e cresceste em Angola, viveste em Portugal, tens família de Cabo Verde e do Rio. De que forma a lusofonia se espelha na tua música?

A.F. – Não sei se tem tanto que ver com ter raízes cabo-verdianas e brasileiras, ou mais com o facto dos meus pais ouvirem essas músicas em casa. E acho que tem mais que ver com isso. A minha mãe sempre ouviu muita música de Cabo Verde, em Luanda também se ouve muita música cabo-verdiana e do Brasil, e sou produto disso. A paixão pela música brasileira é algo muito grande na minha identidade como artista. Houve uma altura em que sentia que a lusofonia me definia bastante. Hoje não sinto que me defina. Sinto que é um wishfull thinking: queremos muito que exista, mas a realidade está sempre dois ou três passos atrás. Se falamos de lusofonia, deveríamos falar duma aposta em comum de vários territórios que normalmente são marginalizados, como Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé ou Macau. Não faço a mínima ideia do que se passa desse lado do mundo. 

- É apenas uma ideia vazia?

A.F. - Ao nível político, também há que romper com certos jogos de poder que situam a lusofonia num relação bilateral entre Portugal e o Brasil. Portugal por ser a terra-mãe da língua, que é discutível, e o Brasil por ter o maior número de falantes. E o resto acaba por ser periferia. Venho de Angola e sinto muito esse lugar periférico. Antes pensava de outra maneira. Hoje quando se levanta essa bandeira, sinto que é um bocado forçar de barra. Depois existem os lugares afetivos. Esses encontros que vamos construindo e intercâmbios, como este com a Luedji. Mas ainda são pontuais. Não são institucionais para que possamos dar-lhe o nome de lusofonia.

- Entre artistas, sentes que há uma unidade e uma ligação porque há uma língua e história comuns?

A.F. - Não. Há muito romance e ficção. Se vamos falar de História comum, vamos falar de coisas que não são muito agradáveis: guerras, opressão colonial, de questões que não estão bem resolvidas para Portugal. O passado colonial português não é uma ferida sarada. Tornou-se tabu que, infelizmente, as novas gerações nem tocam. É como se não conhecessem bem a própria História porque houve uma geração que decidiu calar-se. Mas a História não para. Há muitos portugueses em Angola. Há muitos africanos em Lisboa, que estão a moldar e a apropriarem-se da cidade. E o cenário musical em Lisboa reflete isso. Mas ao mesmo tempo continua a ser muito endogâmico, há a bolha dos guineenses, a bolha dos angolanos, dos brasileiros… Quando acontece um diálogo, sentes que há um susto. Nesta altura da minha vida, também não acho que a língua seja um elemento forte para ligar as pessoas. Tem de haver respeito e tem de haver um igual para igual, que ainda não existe na lusofonia. Há esse lugar de Portugal e do Brasil, que disputam, e que acho uma guerra de galos pouco interessante.

- Como vês a nova fase com João Lourenço na liderança de Angola?

A.F. – João Lourenço trouxe esperança às pessoas porque levanta muito a bandeira do combate à corrupção, transmite verticalidade, uma postura completamente nova para a liderança do país. Assim que tomou posse, afastou Isabel dos Santos e outros filhos do José Eduardo dos Santos. Foi logo ao coração das críticas que se fazia ao antigo presidente, que era de beneficiar os filhos. Não partilho do entusiasmo. Faltam-me dados para perceber quais são os critérios da luta contra a corrupção: se é feita a partir duma separação de poderes ou por imposição do presidente. Depois é uma luta muito escorregadia porque Angola é um país bastante corrupto e se se começar vai afetar todo o tecido empresarial e, eventualmente, chegar ao presidente. As garras da corrupção vão até à “gasosa” que pede o polícia. Há um claro sinal de mudança de era. O filho do antigo presidente, “Zenú”, está preso e isso é muito forte. O que eu ainda não entendi é se isto é uma caça às bruxas e a certas bruxas. Por outro lado, continuo sem ver muito futuro: o MPLA é um partido ultrapassado, a oposição é muito fraca, a vida política é muito fraca e as questões que são importantes para o país – as sociais, de sobrevivência e dignidade do povo angolano – continuam por resolver. 

- Esta é também uma fase de reforço dos laços com a China, que é o maior parceiro comercial de Angola. Como sentes a presença chinesa, política e económica, mas sobretudo da comunidade?

A.F. - Não é fácil integrar-se em Angola. Mas curiosamente os chineses inspiram um respeito pela capacidade que têm de se integrarem, aprenderem a língua, viverem como locais. É um aspeto que faz com que os angolanos fiquem admirados no bom sentido.

- Também te defines como feminista e isso está presente no teu trabalho. Há uma longa luta pela frente ou sentes que a mentalidade já está a mudar?

A.F. - As duas coisas caminham a par e passo: havendo mais espaço para pluralidade de ideias, começamos a conhecer melhor o lado conservador e tacanho do povo angolano. Agora que podemos falar sobre o que pensamos, há um processo de autoconhecimento. O trabalho do Odjango (coletivo feminista angolano) nunca se esquiva ao debate das grandes questões, nem apanha boleia, tenta sempre adaptar-se ao contexto angolano. Sumamuma é uma pequena homenagem ao que tem sido feito pelas mulheres feministas e ao que tenho aprendido com elas.

- Macau diz-te alguma coisa ou é um mundo lusófono demasiado distante que mentalmente não encaixa nesse mapa?

A.F. – Está muito distante. Tenho muito poucas referências. Nunca tive muito contato, nem conheço, mas tenho muita curiosidade. Gostava de entender como se desenvolve essa versão de Macau de se falar português, de haver uma comunidade que fala português, como é esse lado do mundo. Espero que isso aconteça no próximo ano. 

Catarina Brites Soares 05.10.2018

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