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Alta competição: o salto que falta

A aposta no desporto de alto rendimento é uma promessa antiga, mas Macau ainda não deu o salto. Atualmente, há mais de uma centena de atletas de elite incluídos no programa de apoio financeiro, mas só dez se dedicam em exclusivo a uma modalidade, com formação especializada.

Segundo dados facultados pelo Instituto do Desporto (ID), há apenas um atleta no nível mais elevado do programa – reservado a medalhados com ouro em Mundiais ou Jogos Asiáticos. Trata-se de Huang Junhua, praticante de wushu, que mensalmente recebe 25 mil patacas. A equipa que o acompanha aufere 14 mil.

Nas modalidades praticadas pelos restantes nove, incluindo portadores de deficiência, figuram sobretudo artes marciais – além do wushu, há também atletas de karaté e taekwondo. Estes encontram-se numa categoria inferior, que também exige a conquista de pódios em competições internacionais, recebendo, por isso, um financiamento menor (17 mil no caso do atleta e 9 mil para a equipa).

Os dez atletas de elite, com formação especializada, treinam pelo menos cinco dias por semana ou um mínimo de 25 horas. O programa lançado pelo Governo, em 2014, divide os atletas em três grandes níveis, subdivididos em diversas categorias, às quais correspondem distintos financiamentos. Em todos os patamares diferenciam-se os atletas a tempo inteiro dos de a tempo parcial.

Os dados espelham o atual panorama do desporto de alto rendimento em Macau. O presidente do ID, Pun Weng Kun, reconhece que, “no passado, o número era maior”, pelo que a ideia passa por “sensibilizar os atletas para que adiram ao programa de modo a passarem para um nível semiprofissional ou profissional”.

“Quantos mais atletas, melhor”, disse, salientando que o plano não exige a prática de uma modalidade específica: “Queremos sensibilizar os atletas que têm condições”. Apesar disso, existe uma manifesta vontade de “aumentar o nível desportivo”, em particular das artes marciais – com especial destaque para o wushu –, por permitirem uma “formação mais sistemática”, como disciplinas individuais, justificando assim a intenção de “investir mais” nelas.

A nível técnico, o ID pretende melhorar a formação de atletas de modalidades como o ténis de mesa e barcos-dragão, planeando contratar treinadores profissionais para o efeito. O futebol também consta dos planos de investimento do ID que, recorda, “tem dado força ao desenvolvimento de novos atletas” e dialogado com a Associação de Futebol no sentido de apoiar a modalidade, nomeadamente por via da contratação de técnicos da Ásia. “No futuro, temos intenção de elevar o nível das seleções para que tenham um bom resultado nas provas no exterior, mas temos de dar mais tempo”, afirmou Pun.

Estes desportos resultam das preferências da população: “Não é por se ter bons ou maus resultados, é porque são as modalidades favoritas e as mais praticadas pela população”.

Planos inconsequentes

Já Manuel Silvério, antigo presidente do ID, que liderou a organização dos Jogos da Ásia Oriental (2005), Jogos da Lusofonia (2006) e Jogos Asiáticos em Recinto Coberto (2007), considera inconsequentes os planos ao nível da alta competição. Por um lado, encontra-se centralizada nas associações desportivas – que são subsidiadas – marcadas por “puro amadorismo” e, por outro, “há um corte entre o desporto escolar e o desporto federado ou associativo”, uma ligação que seria fundamental para “haver um verdadeiro desenvolvimento para se chegar à alta competição”.

“Há bons atletas que saem de competições escolares e depois não têm acompanhamento no desporto associativo. Não há uma ligação e os Serviços de Educação organizam os seus campeonatos desportivos que muitas vezes acabam por não ligar com os demais”, afirmou. Apesar de reconhecer que “não existe nenhuma fórmula”, a “falta de hábitos dos técnicos, dos dirigentes, dos atletas, de instalações ou os calendários de competições confusos” são outros fatores que impedem o fomento da alta competição.

O ex-dirigente considera essencial definir modalidades prioritárias, concordando com a escolha das artes marciais. “Sem dúvidas, o wushu”, afirmou, lembrando que foi daí, aliás, que veio a primeira medalha de Macau (bronze nos Jogos Asiáticos de Pequim, 1990). “A partir dessa data, o wushu conseguiu quase sempre medalhas em todas as competições olímpicas asiáticas e internacionais”. Além disso, para Manuel Silvério, esta arte marcial está para Macau como o futebol para Portugal. “O wushu é nosso. Em Macau reúnem-se todas as condições para promover esta modalidade”, sublinhou.

A aposta noutras modalidades do género de combate, como taekwondo ou karaté, também é bem-vinda, até porque são modalidades olímpicas – ao contrário do wushu. O futebol seria também uma boa opção, na perspetiva de Silvério, porque é uma forma de massificar o desporto. “Tem a ver com as miudagens, com o envolvimento das famílias, das escolas”, argumentou, desvalorizando o facto de Macau e a China estarem na cauda do ‘ranking’ da FIFA.

“Outra modalidade que se podia mesmo pensar para a alta competição seria o ténis (…), temos uma academia, talentos e poderia servir para promover Macau numa outra imagem”.

O papel de ‘olheiro’, esse, defende, deve caber ao Governo. “É claro que, através do ID, deve fazer esse papel. Se fossemos um país, naturalmente, seria a federação nacional da modalidade em causa a fazer isso. Mas, como esse tipo de estrutura não existe em Macau, o ID podia e devia ter a coragem de apostar nisso”. Neste sentido, defende uma aproximação entre os mundos opostos de um ID “profissional” e “burocrata” das associações desportivas “amadoras, sem condições, sem cacau e sem ideias”.

A falta de instalações desportivas constitui um dos grandes entraves à prática de determinadas modalidades em Macau, como o futebol, por exemplo, com grandes dificuldades em marcar campos. O próprio presidente do ID reconhece que “ninguém acha que o número de instalações desportivas é suficiente”.

No plano da alta competição, o Governo prometeu, há vários anos, um centro de alto rendimento, um projeto que tem sofrido, contudo, sucessivos atrasos. “A elaboração do projeto já está na última fase (…). Esperamos que esteja concluído dentro de três anos”, revelou o presidente do ID.

Manuel Silvério alerta, porém, para a possibilidade de o centro de alto rendimento se tornar num elefante branco: “Se não tivermos número suficiente de atletas locais de certeza que vai ser um fracasso ou estar às moscas”.

Desporto para todos

Macau tem falta de atletas de elite, mas desportistas de sobra. Muito se deve, talvez, à política “Desporto para Todos”, que promove atividades e eventos com o objetivo de divulgar as vantagens do exercício físico, ainda do tempo da administração portuguesa. “Cerca de metade pratica desporto”, realçou Pun Weng Kun, baseando-se nos dados do Dia Mundial do Desafio.

Manuel Silvério entende que essa política teve particular relevo aquando do seu lançamento, mas que hoje entra em conflito com a prática do desporto associativo, devido à escassez de infraestruturas: “Sei de equipas da I divisão [de futebol] que não conseguem campos para treinar. Muitas vezes é por causa do Desporto para Todos. Os campeonatos são interrompidos por causa de uma efeméride, para uns joguinhos de idosos, para o festival das mulheres, para as competições dos deficientes. (…) O Desporto para Todos é bom mas deve ser utilizado pontualmente. Num espaço tão exíguo, já com tantos atritos entre modalidades, estarmos ainda a insistir nesse tipo de campanha é ‘chover no molhado’”. 

Diana do Mar / Inês Santinhos Gonçalves-Exclusivo Lusa/Plataforma

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