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Nanhai Jiujiang prolonga domínio

Pelo terceiro ano consecutivo, os três dias de festa terminaram com uma vitória dupla da Nanhai Jiujiang nas Regatas Internacionais de Barcos-Dragão de Macau 2018. Mas desta vez as equipas locais deram luta no Lago Nam Van e chegaram ao pódio, com destaque para as formações da SJM.

Cerca de 140 equipas e quase três mil remadores rumaram ao lago Nam Van no fim-de-semana prolongado para as Regatas Internacionais de Barcos-Dragão de Macau 2018, a parte mais visível de uma tradição milenar chinesa, o Festival dos Barcos-Dragão. As corridas chegaram a ser proibidas pelo Partido Comunista Chinês, mas sobreviveram em Hong Kong e Macau e têm ganho destaque na China continental à medida que Pequim tenta recuperar a cultura ancestral chinesa.

Foi sem surpresa que a dupla vencedora deste ano foi uma equipa do continente, a China Nanhai Jiujiang, vinda de uma pequena cidade de Foshan. Um domínio bem recebido pelo público, tendo em conta a existência em Macau de uma significativa comunidade com raízes nessa região da província de Guangdong. Ainda assim, ao contrário de edições passadas, os barcos locais conseguiram dar luta aos rivais vindos do estrangeiro e garantir a presença no pódio.

Na principal corrida – Open 500 metros para grandes embarcações, com 22 membros – a Nanhai Jiujiang sagrou-se tricampeã, mas ficou bem longe do tempo recorde alcançado no ano passado. A corrida começou de forma mais equilibrada e só nos últimos 100 metros é que a Nanhai Jiujiang se conseguiu distanciar da SJM Golden Jubilee e da seleção de Macau, que completaram o pódio.

Já na categoria Senhoras, a favorita Nanhai Jiujiang garantiu o sétimo triunfo consecutivo, deixando a segunda classificada, a seleção de Singapura, a uns longínquos três segundos. Bem para trás ficaram as formações locais, com a MGM e a Galaxy Pearl a serem mais rápidas que a seleção de Macau e a SJM Lotus. Bons resultados das operadoras de jogo, que como sempre levaram entusiásticas claques para apoiar as suas equipas.

Raízes locais

Só a outra grande corrida da segunda-feira, a categoria universitária, escapou ao domínio da China continental, com a Universidade de Tecnologia de Nanyang de Singapura a sagrar-se vencedora. Após ter conquistado no primeiro dia a regata universitária para pequenas embarcações – com 12 membros –, a Universidade de Macau voltou a brilhar nas grandes embarcações ao conseguir o segundo lugar. O melhor que as formações do continente conseguiram foi o terceiro lugar da Universidade de Nankai, em Tianjin.

Se o último dia é a altura das equipas mais profissionais brilharem, nos primeiros dias foi a vez das regatas dedicadas às equipas locais. Neste capítulo, a grande vencedora foi a operadora de jogo SJM, cujas equipas conquistaram a categoria Open 500 metros para grandes embarcações, e os 200 metros para pequenas embarcações, tanto na categoria Open como nas Senhoras. A única corrida que escapou foi a categoria Senhoras 500 metros, na qual foi a Wynn a vencedora.

Na corrida reservada a trabalhadores da Função Pública de Macau e de Hong Kong, por convite, foi curiosamente a equipa da Direção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA) a triunfar nos 200 metros, à frente do Hong Kong Leisure and Cultural Services Department e do Hong Kong Electrical and Mechanical Services. No primeiro dia, na categoria Open, tinha sido a Polícia de Segurança Pública a vencer, relegando o Corpo de Bombeiros e a DSAMA para os lugares mais baixos do pódio. 

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Barcos-dragão a quebrar barreiras

Meses antes das Regatas Internacionais de Barcos-Dragão começarem, já dezenas de associações iniciaram os treinos no Lago Nam Van. Mas, para muitas, não é o brilho das finais que as motiva, mas sim o espírito de equipa que ajuda também a quebrar barreiras linguísticas e culturais.

“É muito divertido, tirando dias como estes,” lamenta Aurélie Belleau. A chuva torrencial cai no Centro Náutico da Praia Grande e quase abafa a voz da professora de francês na Alliance Française. Falta pouco mais de uma semana para as Regatas Internacionais de Barcos-Dragão de Macau 2018, mas o sinal 3 de tempestade tropical significa que hoje não vai haver treino para a Associação Desportiva Badas.

Longe das finais (ver página seguinte) há outras razões para que muitos residentes resistam à tentação do fim-de-semana prolongado e fiquem em Macau para participar nas regatas no Lago Nam Van. “É cansativo, mas os treinos são algo que eu aguardo com expetativa. Não há nada melhor para aliviar o stress,” diz Ângela Canavarro Ramos. A vontade de participar nas regatas era antiga, mas só este ano, após regressar de Inglaterra, é que se estreou. “Sempre me pareceu um desporto de equipa, com muito calor humano,” diz a macaense.

Dentro do barco o ritmo é marcado pelo bater do tambor e pelas vozes das remadoras. Após cada volta, trocam-se posições, afina-se a estratégia e dão-se conselhos. Uma das veteranas é Catarina Cortesão Terra, que começou nos barcos-dragão em 2003 e desde então não falhou qualquer edição. “Para começar, tem de se saber como usar o remo, para não dar com ele em alguém ou atirar com água para cima das colegas,” explica a portuguesa. “Isso acontece sempre.”

Mesmo Aurélie, que já tinha praticado canoagem, descobriu que tinha de “aprender tudo do zero”. “Toda a gente tem diferentes técnicas e te dá dicas, mas ao início é complicado,” diz a francesa. Também Therese Betzenhauser estava “nervosa” quando se juntou à Badas. Receios infundados, afinal. “Sinto-me muito bem-vinda e creio que isso faz parte da cultura dos barcos-dragão,” acrescenta a professora da Escola das Nações.

Crescer juntos

Uma cultura que “permite o intercâmbio, porque temos portugueses, chineses e outros a rir, a aprender, a crescer juntos,” resume Catarina. O convívio não termina com o final das regatas. “Muitas de nós acabamos por nos tornar amigas e vamos combinando encontros durante o ano,” conta a veterana.

Aurélie já viveu no Canadá, Austrália e Nova Caledónia, mas confessa que “nunca tinha ouvido falar dos barcos-dragão”. As duas professoras foram surpreendidas pelo caráter multicultural das regatas. “Há muitos ocidentais a participar. A nossa equipa é uma mistura de pessoal local e ocidentais,” diz Therese. O resultado é um ambiente onde mesmo quem veio de fora se sente à vontade para arriscar umas expressões em cantonense.

Numa cidade onde a barreira linguística faz com que as culturas chinesa e ocidental sejam “estanques”, os barcos-dragão são uma rara oportunidade para quebrar barreiras, diz Catarina. “A igualdade é sempre difícil quando há duas culturas, mas aqui estamos todas a trabalhar para o mesmo,” acrescenta a portuguesa.

Ela acredita que a participação de ocidentais nas regatas é vista com muito bons olhos pela comunidade chinesa. “Eles percebem que queremos partilhar a cultura deles, ser parte de tudo isto. E afinal é isto o que Macau tem de diferente,” diz Catarina. Tudo isso serve de motivação para continuar: “Já tinha dito há dois anos que me reformava, mas não consigo dizer que não quando me convidam,” confessa com um sorriso. 

Vitor Quintã  22.06.2018

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