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Mulheres que são consideradas “restos”

“Arranja alguém para casar”. “Não morro em paz se não casares”. “Não sejas tão independente”. “Ela é tão teimosa”. “És demasiado exigente”. “És uma sheng nu”. 

Frases ditas pelos próprios pais às suas filhas, numa tentativa de exercerem pressão para se casarem, quer amem ou não alguém. Traduzida à letra, a última expressão significa “resto de mulher”. Basicamente, um adjetivo usado na China quando alguém se quer referir a uma mulher com mais de 25 anos que ainda não casou.

Já há uns tempos me tinha cruzado com um ensaio fotográfico de Klaudia Lech que focava precisamente a realidade das “sheng nu” na China. Mulheres solteiras, com cerca de 30 anos, bem-sucedidas, mas consideradas um “resto” pela própria família. Este trabalho da fotógrafa norueguesa retratava a realidade destas mulheres e chamava à atenção para a necessidade de mudança numa sociedade que está em constante mutação. O papel da mulher tem vindo a alterar-se e, cada vez mais, as jovens querem ter as rédeas do seu futuro. Algo que nos pode parecer óbvio, mas que gera uma gigante controvérsia num país onde a instituição família é o centro do universo.

Recentemente, uma marca de cosméticos chinesa lançou uma poderosa campanha que foca precisamente a problemática das “sheng nu”. Claro que também os homens mais jovens sofrem esta pressão, mas não são considerados “restos” e o respeito pelos seus sucessos profissionais é substancialmente maior. Além de relatos de filhas e de pais, com as suas diferentes perspetivas, o site da campanha conta a história de diversas mulheres alvo de tal estigma, revelando as suas vidas para além do rótulo de “resto de mulher”.

Negoceiam-se mulheres como se fossem objectos

O vídeo que acompanha a campanha mostra, inclusive, um “mercado de casamentos”, onde publicamente os pais tentam negociar noivos para as filhas, em Shangai. Desde o emprego ao rendimento mensal, passando pela fotografia e bens que possui, tudo é descriminado em praça pública. Como se estivessem a vender um pedaço de carne ou um carro. Mas o que realmente está a ser negociado é o futuro de seres humanos. De filhas que são consideradas “restos” aos olhos de uma sociedade que ainda encara ao papel feminino como algo que está estritamente ligado ao casamento e à maternidade. Uma função primordial e, supostamente, inquestionável. Cliché esse que se prolonga há séculos, não apenas na China, mas em inúmeras partes do globo.

Ser bem-sucedida profissionalmente não é valorizado no que toca à felicidade de uma mulher chinesa. Nem muito menos a sua vontade. Se simplesmente uma mulher não deseja casar e ter filhos é então vista como alguém com problemas sérios, uma ‘ovelha negra’ da sociedade. Se põe a necessidade de amor para embarcar numa relação acima da pressão familiar para cumprir o seu dever de mulher – ou seja, casar e ter filhos –, é tida como egoísta. A homossexualidade nem sequer entra na equação. Respeitar os pais é a maior regra quando se fala da vida familiar na China e não casar é uma falta de respeito, uma das maiores.

Embora esta seja uma campanha de cariz comercial, o tema pôs a China – e o mundo – a falar sobre este eterno desrespeito e menorização no que toca à vida feminina. Tornou-se numa celebração às mulheres independentes e realizadas noutros aspectos das suas vidas. Livres enquanto pessoas individuais, responsáveis pelas suas próprias escolhas, incluindo a importância do amor numa relação, que deveria ser muito mais do que um contrato por conveniência. Orgulhosas de si mesmas, felizes sozinhas ou acompanhadas. Sem regras pré-definidas.

“Não deixem a pressão ditar o vosso futuro”, lê-se como frase final desta campanha. Seja na China ou em Portugal – onde a pressão familiar para casar e ter filhos continua ainda a ser tão grande – esta mensagem é válida. Para mulheres, mas também para homens.

Lar ou profissão, modernidade ou tradição

As leis vigentes na China afirmam que as mulheres têm iguais direitos que os homens. No entanto, o exercício dessas vantagens submete muitas delas a elegerem alternativas pouco conciliatórias na sociedade atual.

Desde o estabelecimento da República Popular da China, têm-se sucedido estratégias de desenvolvimento que têm posto as mulheres na possibilidade de atingir metas antes inimagináveis.

Alguém lembrava recentemente a frase de Mao Zedong que “as mulheres sustêm a metade do céu” e outras afirmações que atribuem ao sexo feminino igualdade de capacidades entre elas e os homens.

Ao parecer ninguém questiona de maneira explícita essas asseverações, mas recentes investigações mostram que a mulher chinesa atual, em especial as que têm logrado uma qualificação profissional, enfrentam de maneira crescente a dúvida de eleger entre o lar e sua carreira.

Esse conflito pode assimilar-se ao que existe entre a modernidade e a tradição, que, no vertiginoso desenvolvimento sócio-econômico da China origina mais do que uma polêmica.

Um estudo realizado pela Federação de Mulheres Chinesas em Xangai, o principal centro financeiro e econômico do país e onde a modernidade ficou instaurada desde faz décadas, mostra indícios do conflito de interesses que experimentam muitas filhas desta pujante nação.

A pesquisa foi efetuada nuns 40 centros de investigação científica e os resultados mostram que as projeções das profissionais dessas instituições estão minadas pelas expectativas das suas famílias e a persistência de atitudes retrógradas quanto ao papel da mulher na sociedade.

Direitos da mulher chinesa

Esse é um assunto um tanto controverso e nebuloso também. Devido ao regime de governo,as informações sobre os direitos da mulher não são confiáveis, do ponto de vista de dados estatísticos.

Levando-se em consideração a situação da mulher chinesa até ao ínicio do século 20, podemos dizer que houve um grande avanço . E por mais irónico que possa parecer, um dos feitos da Revolução Cultural, que devastou a China, foi inserir a igualdade de generos no país. Apesar de não ter sido um sucesso absoluto, ela abriu caminhos que antes nem sequer existiam, entre eles a lei do casamento, o direito da mulher possuir propriedade, direito de voto, número de postos de trabalho (aumentaram 10 vezes em relação aos que existiam em 1949) e abertura para mulheres na política/cargos do governo.

Tudo isto gera grandes números, porque na China 1% da população significa  mais que o número de habitantes de muitos países da Europa. A escala numérica, aqui, foge ao nosso controle.

A situação da mulher na história da China

Desde os tempos do império, a situação da mulher na China é difícil. A questão da preferência por filhos em vez de filhas, vem de séculos atrás, onde somente os filhos levariam o nome do pai e assim, dariam continuidade a família. A mulher, ao casar, era obrigada a deixar a família e passava a pertencer, literalmente, à família do marido.

Houve uma época em que o Império dava lotes de terra às famílias que tinham filhos.  As que tinham filhas não recebiam nada, já que ela não iria continuar com a família depois do casamento.

Além disso a tradição chinesa diz que os filhos devem cuidar dos seus pais na velhice. Como as filhas, depois de se casarem, passavam a pertencer à família do marido, os pais não teriam quem cuidasse deles na velhice.

Esses são somente três pontos que levaram a sociedade chinesa a dar preferência a bebés do sexo masculino. E não, como muita gente pensa, que isso é consequência da ‘lei do filho único’. Essa ‘regra social’ só fez a lei ser mais perversa para as filhas. Mas a discriminação já existia há séculos, inclusive o assassinato de bebés do sexo feminino logo após o parto.

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A Constituição Chinesa 

Artigo 48.º – As mulheres na República Popular da China gozam dos mesmos direitos dos homens em todas as esferas da vida política, económica, cultural, social e familiar. O Estado protege os direitos e interesses das mulheres, aplica a homens e mulheres sem distinção o princípio de “a trabalho igual salário igual” e forma e escolhe quadros de entre as mulheres.

Artigo 49.º – O casamento, a família, a mãe e a criança são protegidos pelo Estado. Tanto o marido como a mulher têm o dever de praticar o planejamento familiar. Os pais têm o dever de criar e educar os filhos menores e os filhos maiores têm o dever de manter e auxiliar os pais. É proibida a violação da liberdade de casamento. São proibidos os maus tratos a velhos, mulheres e crianças.”

Assim podemos ver que de direito a lei existe, mas de facto ainda estamos a séculos de uma sociedade igualitária.

Mas… e de fato, o que acontece?

Como quase tudo que vem ocorrendo na China nos últimos 30 anos, as ações que levaram o país à posição económica e social de hoje ainda esbarram (e muito) nas tradições sociais seculares. Resumindo: a lei existe, alguns cumprem, mas a maioria ainda sofre das restrições e discriminações que existiam na época do Império.

A evolução de um povo, de uma cultura enraizada por milénios, nenhum visionário conseguirá mudar em 30 anos. E isso não é um privilégio da China. Todas as civilizações já passaram por isso. O que ocorre aqui é um ‘gap’ na história, que fez a sociedade estar mais fechada e as mudanças serem mais lentas.

Discriminações que ainda existem

Em cidades como Xangai, por exemplo, que tem uma forte influência ocidental, alguns desses factos são menos gritantes, mas saindo dessas bolhas internacionais, a cultura ainda oprime muito a mulher. Vejamos alguns exemplos:

Uma rapariga com 25 anos que ainda não casou, já está fadada ao esquecimento. Quando elas casam e não conseguem engravidar, é gerado um novo drama familiar, causando muitas vezes até divórcios.

A mulher só tem direito ao que leva para o casamento; nada do que for conquistado durante a união será dividido em caso de divórcio. Hoje algumas já exigem que os maridos coloquem alguma coisa em seu nome para garantir sua vida, caso haja o divórcio.

A ‘segunda esposa’ ou ‘Er’nai’: apesar de a bigamia ser proibida, ainda é uma prática muito comum . E por conta de não terem direitos no divórcio, as esposas acabam fazendo vistas grossas.

Os salários ainda são menores para mulheres. Por outro lado, elas vêm conquistando mais e mais espaço nas universidades e mercado de trabalho. Quando ocupam um cargo de chefia são respeitadas dentro do ambiente de trabalho. Já saindo dali, a coisa muda… 

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