Francisco_Leandro

“A China não está interessada em desequilíbrios”

Francisco Leandro lança para a semana um estudo detalhado sobre a Iniciativa Faixa e Rota. O livro “Steps of Greatness: the Geopolitics of OBOR” (One Belt One Road) mapeia em vários aspectos o projeto charneira da política externa chinesa desde há cinco anos a esta parte. 

O académico, professor e investigador no Instituto de Pesquisa dos Países de Língua Portuguesa da Universidade da Cidade de Macau, salienta a dinâmica de soma positiva do projeto, sem deixar de realçar a importância do nível de participação dos estados que aderem à iniciativa. 

PLATAFORMA – Tem estado a acompanhar e  estudar a iniciativa Uma Faixa Uma Rota desde que foi lançada há cinco anos. Entre tudo o que já foi escrito e dito, afinal do que é que estamos a falar? Como definir este projeto?

Francisco Leandro - Um caminho que se faz caminhando. Uma das coisas que aprecio na Faixa e Rota é que é um projeto que se constrói a ele próprio. Tenho insistido neste ponto. A Faixa e Rota dá o enquadramento. O produto final depende muito do enquadramento com características chinesas e a participação de cada um dos estados. O escrutínio nacional é um fator decisivo naquilo que vier a ser o resultado final da iniciativa.

Será um passo maior que a perna? Será algo demasiado ambicioso e assertivo para a China contradizendo os conselhos de prudência de Deng Xiaoping, como apontam alguns críticos?

F.L. – É e não é. O racional é o de Deng Xiaoping, de alguma contenção, limite e low-profile. Mas a certa altura com a liderança do presidente Xi Jinping na sequência dos resultados económicos que levaram a China ao segundo lugar na economia mundial, não faz muito sentido esse discurso. A mensagem da iniciativa é basicamente conciliatória, não agressiva, de jogo de soma positiva.

- É esta uma iniciativa que acaba por ser a impressão digital de um modelo de globalização centrado e impulsionado pela China?

F.L. – Sim e não.  A segurança económica acaba por estar no centro de tudo. A Faixa e Rota está alicerçada nesta ideia também defendida por Deng Xiaoping quando este foi às Nações Unidas e diz: “Não há verdadeiramente independência política sem independência económica”. Nesse aspeto parece haver a continuidade dessa perspetiva mas de uma forma intercontinental, interregional. Por outro lado, o modelo de globalização indica a total abertura. Um dos pilares da globalização até certa altura parecia ser o modelo neoliberal. A Faixa e Rota vem oferecer um outro modelo.

 - Uma alternativa…   

F.L. – A palavra é essa: alternativa. Tenho falado com imensas pessoas um pouco por todo o mundo e a sensação que tenho é que este modelo está gasto. A Faixa e Rota vem criar uma série de sinergias que vão desde a reformulação do sistema económico, das instituições financeiras, do modelo das trocas comerciais, dos acessos, da dimensão não material. 

- Alguns críticos da iniciativa Faixa e Rota sugerem que estamos perante uma forma de neo-imperialismo. Como encara esta visão? 

F.L. – Todos os modelos são criticáveis. Agora, eu gosto de olhar para os modelos naquilo que eles têm de positivo. Eu continuo a achar que nos devemos centrar na participação nos mais de 70 estados neste projeto. 

As estruturas foram criadas pela administração chinesa, mas a evolução das estruturas para o seu equilíbrio funcional é um processo que está a ser feito. Dou o exemplo do Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas.

- E quanto à crítica que a iniciativa Faixa e Rota fomenta a chamada cilada do endividamento? 

F.L. – Na última cimeira do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), o presidente da Namíbia a certa altura diz: “A maneira como nos relacionamos percorreu um determinado caminho mas continua a ser desequilibrada, pelo que no futuro temos de ser capazes de resolver este desequilíbrio”. Eu estou absolutamente convencido de que a administração chinesa não está interessada em desequilíbrios. 

O problema diz respeito aos modelos de participação chinesa nos projetos nacionais. Estou convencido de que é uma questão de tempo até eles se voltarem a  reequilibrar. 

- E qual é o lugar de Portugal na iniciativa Faixa e Rota? 

F.L. – Faz sentido que Portugal adira ao projeto, mas não pelas razões que têm sido apontadas. No discurso das relações China-Portugal realça-se uma parceria estratégica que data de 2005. A evolução dessa parceria estratégica vai depender de como a Faixa e Rota se vai equacionar. Do meu ponto de vista Sines tem sido um pretexto para iniciar o diálogo. Das minhas várias visitas à China, das conversas que tive com colegas, formam-se duas ideias. A primeira: o verdadeiro interesse que a China tem relativamente à cooperação com Portugal é a questão da Base das Lajes. Não pela razão da utilidade que ela tem agora, mas por causa do programa espacial chinês.  Se isso for para a frente é algo de muito bom para as duas partes. A segunda razão que é questão  da extensão da Plataforma Continental. Portugal não demostrou até agora ter capacidade para explorar os recursos em causa.

- E Macau tem um papel importante a desempenhar?  Fala-se muito da ligação Macau-Lusofonia no âmbito da Faixa e Rota. 

F.L. – Desde logo não faz sentido Macau ir sozinha a jogo. Faz sentido que seja integrada no Delta  do Rio das Pérolas, desde logo porque a Rota Marítima da Seda está desenhada a partir da Grande Baía e a partir da região do litoral sul da China. Faz sentido é olhar para isto como uma malha com os eixos de desenvolvimento doméstico que terminam com zonas económicas especiais ou cidades de fronteira ou regiões administrativas especiais. E a partir daí faz-se a articulação entre os seis corredores e a rota marítima.  

José Carlos Matias 23.11.2018

Artigos relacionados

 
 

Índios receiam ameaças do novo Governo

Os índios brasileiros temem que se concretizem as promessas políticas do novo Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, de atacar os direitos das comunidades tradicionais. As primeiras medidas políticas para o setor estão a acentuar os receios.  Leia mais em Plataforma Media. Carolina de Ré 18.01.2019 Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

“Os portugueses não podem ser só os expatriados”

O novo cônsul de Portugal em Macau e Hong Kong defende a importância dos macaenses e dos chineses com nacionalidade portuguesa. Paulo Cunha Alves não teme a integração da cidade no Continente e olha para o projeto da Grande Baía como uma oportunidade da comunidade e cultura portuguesas se afirmarem. O português, diz, pode ser

O Fringe atinge a maioridade

O Festival Fringe de Macau está a completar 18 anos. Para a vice-presidente do Instituto Cultural (IC), Leong Wai Man, no ano em que atinge a maioridade, o festival quer “fazer emergir a arte na sociedade (…) visando proporcionar ao público novas experiências”.  Leia mais em Plataforma Media. Margarida Sajara Vidinha 18.01.2019

País em contagem decrescente

Depois do período natalício praticamente estagnado – até a recolha do lixo na capital esteve praticamente suspensa – Timor-Leste retomou, lentamente, a atividade com todos os olhos postos no Palácio da Presidência. Leia mais em Plataforma Media. António Sampaio 18.01.2019 Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

Mercado de dívida mais internacional

Portugal e Paquistão avançam em 2019 para a emissão de ‘panda bonds’. BNP Paribas tem autorização para investir no mercado. Leia mais em Plataforma Media. Maria Caetano 11.01.2019

Estreito de desentendimento

Apesar do discurso do presidente chinês, Xi Jinping, Taipé recusa termos propostos e diálogo político permanece distante. Governo de Macau dá apoio total à iniciativa do Presidente. Leia mais em Plataforma Media. José Carlos Matias 11.01.2019