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“As autoridades em Cantão estão cientes que as relações com Portugal e os países lusófonos devem ir mais longe”

André Sobral Cordeiro é o primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Cantão, desde 1949. O diplomata diz que há um grande desconhecimento e desinformação das empresas sobre o Continente que é preciso combater. 

Há mais de meio século que as portas do Consulado de Portugal em Cantão estavam fechadas. Vão reabrir este mês com André Sobral Cordeiro na liderança. Entre outros desafios, o novo Cônsul-Geral de Portugal em Cantão contraria a ideia de que é difícil para as empresas entrar no Continente, e considera que o problema está no desconhecimento e desinformação que existe sobre o mercado. Sobral Cordeiro já está em funções há quase um ano para abrir o segundo consulado de Portugal na China Continental. Ao de Xangai, junta-se agora o de Cantão. É a primeira representação diplomática portuguesa a ser aberta em 13 anos.

- Quais são as prioridades como Cônsul Geral em Cantão, função que assumiu desde julho de 2017? 

André Sobral Cordeiro – Como qualquer Consulado Geral, a primeira prioridade é para com a comunidade portuguesa residente bem como aquela que esteja temporariamente na área de jurisdição do Consulado. O Consulado Geral em Cantão tem jurisdição sobre as Províncias de Guangdong, Fujian, Hainan, Hunan e Região Autónoma Zhuang de Guangxi. Iremos procurar, no devido tempo, disponibilizar os serviços normais de um Consulado. É um processo que tem o seu tempo próprio e que não depende apenas da vontade política do Governo português, muito clara em ter um Consulado Geral em Cantão. Por outro lado, dada a localização de Cantão, o Consulado irá acompanhar o desenvolvimento das relações económicas entre os dois países, sobretudo as exportações portuguesas e o IDE – investimento estrangeiro direto. A região do Delta do Rio das Pérolas, excluindo Macau e Hong Kong, contribui com mais de 30 por cento para o PIB comercial total da China. Este é um valor que não pode deixar de ser ponderado no futuro.

- É o primeiro Cônsul Geral em Cantão depois de 1949. Que importância tem a recuperação desta figura na zona, a abertura de um consulado de Portugal na cidade e ser a primeira representação diplomática a ser inaugurada em 13 anos? 

A.S.C. - Enquanto Cônsul Geral em Cantão posso dizer-lhe que as autoridades chinesas têm apoiado muito a abertura do Consulado desde a minha chegada a Cantão, o que reflete as excelentes relações entre os dois países. A presença de um Cônsul Geral de Portugal numa cidade onde existiam já 59 Consulados Gerais vem, naturalmente dar uma visibilidade nova ao país numa região na qual não estávamos ainda representados. Sobre as razões de não abertura de um Consulado desde há 13 anos, não me parece que me caiba a mim comentar, uma vez que é uma decisão que não passa pelo Consulado Geral de Portugal em Cantão.

- Este é o segundo Consulado Geral de Portugal na China Continental. Faz diferença haver representação oficial de Portugal no país, tendo uma diminuta presença no Continente, tanto ao nível de residentes como de empresas?

A.S.C. - A China hoje é um colosso. Não vou aqui referir os números que são bem conhecidos. Num quadro de globalização que vivemos estranho seria ignorar a China. Por outro lado, a presença de um Consulado Geral pode – isso aconteceu com alguns parceiros nossos – estimular as trocas entre os dois países, a vinda de mais empresas para a China e um maior investimento da China em Portugal. Tocou num aspeto essencial da nossa diplomacia de hoje – a língua portuguesa. É sem dúvida um dos nossos mais ricos ativos que importa dinamizar e promover tanto quanto possível. Se a China é um colosso, a língua portuguesa também o é e está em claro crescimento em termos mundiais. Existem na China numerosas Universidades com licenciatura em língua portuguesa, mas admite-se que se o mercado se expandir possam surgir mais cursos.

- De que forma pode um Consulado-Geral nesta zona fazer diferença para o país, empresas e cidadãos em ambos os sentidos? 

A.S.C. - A presença de uma representação diplomática numa cidade confere aos seus nacionais um maior nível de proteção se necessário. Por outro lado, uma vez que um Consulado-Geral tem também funções políticas, pode agilizar alguns processos que por vezes podem tropeçar em algumas questões burocráticas. Além disso, é parte do mandato deste Cônsul-Geral promover a boa imagem de Portugal no Sul da China e o apoio dos cidadãos e das empresas portuguesas é nisso fundamental, naturalmente.

- Tem sentido haver um consulado em Cantão, tendo em conta que já existe um em Macau? De que maneira podem cooperar e não se atropelarem? Não considera um dispêndio de recursos, atendendo a que as duas cidades são próximas?  

A.S.C. - Faz todo o sentido. O Sul da China é uma região muito diferente de Macau, que constitui uma Região Administrativa Especial, que se rege por regras diferentes da China continental. Cantão é a capital da província mais rica da China, o mercado potencial é muito grande e é importante que Portugal possa estar onde há crescimento e interesse pelo nosso país. Não há qualquer atropelo entre os dois Consulados e existe, sim, uma cooperação permanente. As competências e jurisdições de ambos os Consulados estão, claramente, definidas pela lei, pelo que o problema não se coloca.

- De que forma olha para Macau e que importância acha que tem no plano das relações entre a China, países de língua portuguesa e Portugal? Apesar de se afirmar como uma plataforma, também são muitas as vozes que dizem que se fica pelo conceito. 

A.S.C. – Sobre Macau tenho poucas opiniões, existe um Cônsul Geral em Macau que poderá melhor do que eu dar qualquer opinião sobre o território. Sobre ser uma plataforma, tal corresponde a uma realidade histórica e tem potenciado o contacto de Portugal com a região de Cantão há séculos. Assim é e assim continuará a ser. Por outro lado, e dado o estatuto de Região Administrativa Especial de que Macau desfruta, à semelhança de Hong Kong, estes são mercados em considerável medida separados do da China continental, com regimes jurídicos próprios, razão pela qual dezenas de países optam por ter postos consulares autónomos em Cantão e em Macau ou Hong Kong.

Em concreto e desde que o Fórum Macau foi criado, há 15 anos, diz-se que pouco ou nada se tem feito que tenha repercussões na vida das pessoas, empresas e proximidade entre os países que resultem em mais-valias. Concorda? 

A.S.C. - O Fórum Macau, como diz, está em Macau e as questões relativas ao Fórum deverão ser colocadas aos seus representantes. Posso dizer-lhe que as autoridades em Cantão estão, obviamente cientes da sua existência, mas também consideram que as relações com Portugal e os países lusófonos devem ir mais longe. Veja que em Cantão há consulados gerais de Portugal, Brasil e Angola.

- Quantos portugueses, negócios e empresas portuguesas existem na Província de Cantão e na cidade? Em que áreas se destacam? Qual tem sido a evolução nos últimos anos? 

A.S.C. – De acordo com números oficiais, em Cantão cidade estão registados 142 portugueses, na área de jurisdição do Consulado admitimos que se possa chegar ao dobro, porém cumpre lembrar que o registo no Consulado não é obrigatório, pelo que aqui, como em muitos outros locais, os números podem ser um pouco flutuantes. Empresas haverá, em Cantão, cerca de 10, mas há muitas mais que comercializam com Cantão, quer comprando, quer vendendo, diretamente de Portugal sem presença aqui. As áreas são várias, desde o setor alimentar, passando pela moda ao high-tech. Há uma grande diversidade. O número de empresas não é estanque e tem variado ao longo dos anos, vão abrindo umas e fechando outras.

- Uma das críticas apontada prende-se com a enorme dificuldade de as empresas portuguesas entrarem no mercado chinês, sendo que o contrário não se verifica, nem ao nível micro, nem macro. Do pouco tempo que leva em Cantão, qual é a sensação e feedback que tem? 

A.S.C. – Não me parece que haja mais dificuldades para as empresas portuguesas do que há para as de outros países. Parece-me, sim, haver um grande desconhecimento e alguma desinformação que importa combater. É preciso saber quais são, efetivamente, as dificuldades de cada cidadão e de cada empresa para se tentar encontrar uma solução que existe. Vejam-se os milhares de empresas estrangeiras aqui presentes. Julgo que as dificuldades se vencem com perseverança.

- Assistimos nos últimos anos a um aumento significativo do investimento e ida de chineses para Portugal. Tem números? Sente que essa procura vai continuar a crescer?  

A.S.C. – Não tenho números, ainda nem abrimos o Consulado para que os possa ter. Admito que a procura continue, enquanto o crescimento económico da China se mantenha ao mesmo ritmo.

- A Transparência Internacional identifica o regime de concessão de residência por investimento português como um dos mais vulneráveis à corrupção e branqueamento de capitais na União Europeia. O que pode Portugal, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e neste caso os consulados nesta zona fazerem para garantir mais transparência e sobretudo a idoneidade dos candidatos?

A.S.C. – Como disse ainda não abrimos o Consulado, pelo que ainda não tenho essa experiência aqui. Julgo que este tipo de programas é muitas vezes criticado – muitos países o têm – , mas a sua instituição é uma formulação política que, enquanto agente do Estado, devo cumprir. Pela minha parte, irei tudo fazer, como costumo, no sentido de todos os processos, e não só os das autorizações de residência para investimento – que aliás são, sobretudo, tratadas em território nacional – serem tratados com a máxima transparência e zelar pela verificação possível da idoneidade dos requerentes.

- Sente que as críticas apontadas por uma entidade internacional descredibilizam a imagem de Portugal enquanto destino de investimento para o Governo central e empresários chineses?

A.S.C. – Não me parece.

- Há cada vez mais uma aposta da China no ensino do português. Outra das críticas apontadas a Portugal tem a ver com a falta de estratégia do ensino da língua no estrangeiro, estando a ser ultrapassado, fortemente, por institutos brasileiros, por exemplo. 

A.S.C. – Será uma crítica infundamentada. Portugal, através do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, desenvolve programas, projetos e atividades, visando a internacionalização da Língua Portuguesa consubstanciada pelos seus valores.

‘ O que pode Portugal fazer para assumir um papel protagonista no ensino da língua no estrangeiro, e sobretudo na China?

A.S.C. – No que respeita às geografias potenciadoras da internacionalização da língua portuguesa, distinguem-se os espaços geopolíticos, económicos e culturais em que a língua portuguesa é língua oficial — dois transcontinentais, o da CPLP e o da Ibero-América, e um continental, o da União Europeia, bem como espaços específicos de atenção, nomeadamente o do Magreb, da África Austral, do Atlântico Norte e de países asiáticos, determinados, quer pela História, quer pelos diálogos diplomáticos e comerciais de hoje. Estes múltiplos espaços, associados ao interesse e ao empenho que conhecemos das autoridades de muitos países pela/na língua portuguesa como um ativo estratégico, revela-se e revelar-se-á como um importante impulso à sua afirmação no plano internacional em domínios de grande centralidade na globalização como a economia, incluindo a do conhecimento, o comércio e a cooperação. 

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Perfil

Manuel André Coutinho Sobral da Cruz Cordeiro nasceu em Lisboa, em 8 de agosto de 1969. É casado.  Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Tem uma pós-graduação em Estudos Europeus, pela Universidade Católica de Lisboa; em Relações Internacionais, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa; um mestrado em Estudos Europeus, pela Universidade de Genebra, na Suíça. Mais tarde, tira o doutoramento em Direito Europeu, na Universidade de Viena.

Foi assessor de Mário Soares. Em 1998, foi aprovado no concurso de admissão aos lugares de adido de embaixada. Foi Chefe de divisão de Desarmamento e Não-Proliferação de Armas Ligeiras e de Destruição Maciça na Direção de Serviços para os Assuntos de Segurança e de Defesa na Direção-Geral da Política Externa, em 2013; Chefe de Divisão dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e da África Austral na Direção-Geral de Política Externa, em 2015. Em julho de 2017, assume o lugar de Cônsul-Geral em Cantão.

História

O último Consulado Geral de Portugal em Cantão fechou as portas em 1966. José Calvet de Magalhães foi o último cônsul na cidade que abandonou em 1950, um ano depois depois da instauração da República Popular da China. Apesar da ausência de um cônsul, Portugal manteve um chanceler,  Eugénio Miguel, que ficou até 1966, quando o consulado fecha definitivamente as portas. Foi em 1888 que Portugal inaugurou o primeiro consulado em Cantão, que agora reabre na capital da Província de Guangdong. 

Catarina Brites Soares  06.04.2018

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