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Brasil e China vão continuar de mãos dadas

Académico brasileiro prevê que a chegada de Bolsonaro ao Palácio do Planalto não vai alterar um relacionamento que vem de longe

O presidente do Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia Pacífico, Severino Cabral, admitiu que o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, vai manter e até reforçar as relações entre o gigante sul-americano e a China.

“Temos relações com todos os países da região, muito destacadamente com a China. Temos já uma trajetória de quase meio seculo de relações especiais com a China. Vêm ainda da época dos governos militares e da China do Presidente Mao”, disse, prevendo que, “para o futuro, o Brasil vai querer é ampliar a gama de intercâmbio na área económica e na área científica e tecnológica” com Pequim.

Aliás, Severino Cabral, professor universitário e especialista nas relações sino-brasileiras, não viu em momento algum nas palavras de Bolsonaro qualquer indício de que o país venha a alterar o relacionamento com a China.

“A questão essencial no futuro das relações entre Brasília e Pequim e que é acentuado no próprio discurso do presidente eleito é que o Brasil está muito confortável com o excedente comercial com a China, mas isso não é a meta e o alvo principal. O foco principal da nossa política é estimular o crescimento da economia, não só a de exportação de matérias-primas e recursos naturais, mas a de indústria de produtos de alto valor agregado”, disse Severino Cabral.

Lembrou que o Brasil, no âmbito das parcerias com a China, está a lançar projetos para a diversificar as exportações para o gigante oriental, acentuando que o que Brasília quer “é ampliar a gama de intercâmbio nas áreas, económica, científica e tecnológica”.

Para o especialista, “uma das dificuldades da económica brasileira é ultrapassar aquilo que os próprios chineses chamam a armadilha da renda média. Somos um país de renda média e queremos dar o salto para chegar a um país desenvolvido, com uma renda maior. Para isso temos de modificar algumas das situações que temos vivido”. 

“Temos um setor fortíssimo, que é o agronegócio, que gera uma renda fabulosa para o país nas exportações para a China. O Brasil é um dos grandes países que tem uma forte presença no agro negócio no mundo. Mas não é o nosso destino sermos sempre produtores e exportadores do agro negócio. Pretendemos entrar no terreno da tecnologia e da inovação tecnológica. A própria China está-se abrindo para o mundo. Esse é o foco da grande nação do Oriente e também o nosso do outro lado do mundo. Temos de nos empenhar e fazer com que os dois lados ganhem”, defendeu.

Severino Cabral disse ainda não ver qualquer problema decorrente da visita realizada em fevereiro deste ano pelo agora Presidente eleito a Taiwan, iniciativa que mereceu protestos da Embaixada chinesa no Brasil.

“Nada transpirou do que disse e expressou de que vai alterar a posição do nosso país em relação a questão de Taiwan. Essa é uma posição firmada desde os anos 70 e de reconhecimento de que ‘só há uma China’ e essa é representada por Pequim e não por Taipé. De acordo com a própria fórmula aceite por Pequim, Taiwan, sendo parte do universo da China, tem relações económicas e culturais com o mundo todo”, salientou.

Severino Cabral fez ainda questão de lembrar que Brasília “nunca cessou de ter uma representação comercial em Taipé e que isso sempre aconteceu em função dos interesses económicos do Brasil e da própria Taiwan, que tem vários investimentos no Brasil, assim como no próprio continente” [China].

“As relações comerciais e económicas com Taiwan sempre foram solidas e crescentes. O Presidente eleito foi lá numa visita de estudo para ver o desenvolvimento, inclusivamente mais preocupado com a educação, com o sistema educacional. Nada transpirou do que ele disse que alteraria o conceito base: O conceito que inspira as relações entre o Brasil e a China e, aliás, do mundo inteiro com a China”, atirou.

Acerca do futuro relacionamento com os Países de Língua Portuguesa (PLP), Severino Cabral considerou que aquilo que se pode “extrair das ideias do Presidente eleito é que este está preocupado em fixar uma linha de desenvolvimento das relações internacionais do Brasil, sem viés ideológicos”. 

“Tem de se entender bem o que ele quer dizer com isso. Sem uma aproximação por compadrio ou identificação ideológica. Isso significa, que esse desenvolvimento e aproximação será feito em função dos nossos interesses objetivos, ‘win-win’”, defendeu, acentuando que na relação do Brasil com os países e os povos de língua portuguesa “está presente um elemento que não é medido pelo valor económico, mas sim cultural e espiritual”.

“A comunidade de língua portuguesa é criada pela sua universalidade, na qual o Brasil se identifica. Somos brasileiros porque falamos português. Falamos português porque fazemos parte de uma família que existe no mundo. É evidente que a comunidade dos PLP não pode entrar em questão, não pode ser medida apenas pelo interesse económico. Isso tem de ser colocado claramente. É um desdobramento do próprio Brasil. A sua projeção no Mundo passa pelos países irmãos, a começar pela matriz portuguesa que está lá na Europa”, concluiu. 

António Bilrero 02.11.2018

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