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Comunidade chinesa sente-se “cada vez mais valorizada”

As celebrações do Ano Novo Chinês em Lisboa estenderam-se este ano ao Teatro São Carlos e esperam amanhã e domingo milhares de visitantes no Martim Moniz. Os comerciantes da zona dizem que não traz negócio, mas que é importante para que os portugueses conheçam melhor a comunidade.

Dezenas de lanternas vermelhas tradicionais orientam-se, velha Rua da Palma abaixo, no sentido da Praça do Martim Moniz em Lisboa. Pelo caminho, porta sim, porta não, há letreiros de caracteres chineses simplificados que apontam a venda de roupa, acessórios de moda, eletrodomésticos, até se desembocar no renovado largo em redor do qual convivem lojas de diferentes origens de imigração em Portugal, e onde se destacam alguns supermercados e restaurantes chineses. 

O centro de Lisboa está longe da imagem de uma Chinatown convencional, mas é a zona que dela mais se aproxima. E é nele que, entre amanhã e domingo, a comunidade chinesa assinala as vésperas das festividades do Ano Novo Chinês com portugueses e turistas, naquela que é a quinta edição da festa chinesa na capital – porventura, a maior organização de sempre, pela Embaixada da República Popular da China em Lisboa e à qual se associam a Câmara Municipal de Lisboa, várias associações de matriz chinesa no país, e também instituições de Macau, como o Instituto Cultural e a Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa. A Liga dos Chineses em Portugal, o banco de investimento Haitong, a seguradora Fidelidade e a empresa Yanghe são os patrocinadores.

Desta vez, a festa contou com uma “Noite da China” no Teatro São Carlos, realizada na última quinta-feira, com vários grupos provenientes de diferentes províncias chinesas, incluindo atuações de um grupo de artes marciais de Shaolin e um número de dança dos alunos da Escola Pui Ching de Macau. É a principal novidade deste ano, a acompanhar o desfile de preparação da entrada no Ano do Cão a partir da Avenida Almirante Reis e as atividades no Martim Moniz, onde atuam novamente os grupos convidados para a gala do São Carlos e onde haverá algumas barraquinhas com comida e lembranças.

“Este ano, as atividades são maiores e também mais completas. Há muitos espetáculos e bastante diferentes. Os portugueses não precisam de saber chinês para apreciarem. Acho que assim é melhor”, diz Wu Su, o chefe de redação do Pu Hua Bao. 

O jornal semanário, registado em Portugal em 1999 e dirigido à comunidade imigrante, fica no número 70 da Rua da Mouraria, portas meias com “a festa mais importante na China” – uma festa das famílias, com o calendário lunar a virar a página de 15 para 16 de fevereiro em 2018. 

A antecâmara das celebrações é assim assinalada em comunidade nas ruas da capital portuguesa, e Wu Su estima que, entre chineses, portugueses e turistas, aflua ao Martim Moniz uma pequena multidão de “20 a 30 mil participantes” até domingo. Um intervalo próximo do número de indivíduos chineses contabilizados como imigrantes em Portugal – mais de 22,500, nos dados de 2016, e destes mais de seis mil a residir no concelho de Lisboa. 

“Há 30 mil chineses em Portugal”, estima Wu Su, arredondando muito para cima do que dizem hoje as estatísticas oficiais dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal. “A população chinesa está cada vez maior e queremos que os portugueses e os turistas nos conheçam melhor”, diz o chefe de redação do Pu Hua Bao, avesso a fotografias e gravadores quando entrevistado, mas disponível para ajudar a apontar alguns novos desenvolvimentos que têm contribuído para a afirmação dos chineses em Portugal: desde os altos volumes de investimento direto chinês em empresas portuguesas no período da crise dos últimos anos ao início de voos diretos para Pequim no verão do ano passado.

Wu Su, há dois anos a chefiar o jornal, fala em chinês, agradece em português, e Melissa Chang, estudante de gestão de empresas no ISCTE que há pouco tempo começou a trabalhar no jornal traduz tudo para inglês. Chegou a Portugal em 2016 e, enquanto traduz, acrescenta também a opinião que já tem sobre a situação atual da comunidade chinesa em Portugal. “A comunicação hoje é mais próxima. As associações chinesas falam diretamente com o Governo quando há dificuldades. Há mais pessoas chinesas e mais pessoas chinesas a investir em Portugal, o que também tem ajudado a desenvolver a economia de Portugal”, diz.

Lily, por trás do balcão da loja Liliy Biju, confirma a ideia de uma comunicação mais próxima e interesse recíproco entre portugueses e chineses. “Há muita gente que já conhece o Ano Novo Chinês em Portugal. Vem muito mais gente”, diz.

A loja não terá uma banca na festa, mas Lily diz que não precisa. O seu estabelecimento encontra-se virado para a praça e, de todo o modo, as comemorações do Ano Novo Chinês são menos um tempo para fazer negócio e mais um período de juntar a família. Além disso, os seus clientes não são os chineses, mas os portugueses. “Quando há festa não vêm fazer compras”.

“Não é pelo comércio. É só para as pessoas conhecerem a cultura chinesa”, diz Susana Zhu. É ela quem recebe na caixa registadora os clientes de uma das mercearias chinesas mais conhecidas do Martim Moniz, a Hua Ta Li. Ali se vende desde a couve chinesa à farinha, vinho e diferentes tipos de soja essenciais à confeção dos auspiciosos ‘jiaozi’, os pequenos ‘dumplings’ que podem ser de carne e vegetais e que, fritos ou ao vapor, pontuam as celebrações de passagem de ano, sendo igualmente uma das iguarias chinesas mais populares junto de pessoas de outras nacionalidades.

“É uma festa muito importante para os chineses e também é muito importante que os portugueses saibam mais sobre a comunidade chinesa”, defende Zhu, que já trata o país como seu.

Não acha que haja hoje mais chineses em Portugal, apesar de as estatísticas atuais da imigração mostrarem um aumento para o dobro frente aos dados dos últimos Censos do país, de 2011. Para Susana Zhu, entre entradas e saídas, a população deve andar ao mesmo nível. “Há pessoas que já foram embora”, diz. São os imigrantes da sua geração que optaram pelo retorno a casa, ao contrário de Susana. “Nem pensar. Eu estou aqui sempre”, assegura uma vez que tem reunida hoje em Portugal toda a sua família próxima. Outros vieram. Mas nem todos enchem as cidades como enchem as estatísticas. “Aqueles que compram casas não vêm para cá viver”, diz. 

Susana Zhu vê a comunidade como “cada vez mais valorizada”. Ora porque a atividade das empresas e instituições chinesas em Portugal saltou para o primeiro plano da atualidade do país, afirmando a população como um todo, ora porque uma multiplicidade de associações chinesas – dezenas nos diretórios existentes – está cada vez mais interventiva na sociedade. 

“Elas ajudam. Há muitos chineses que não falam português. Também a ajudam se precisar de alguma coisa da China”, recomenda. E lembra com orgulho a atuação destas organizações no apoio económico aos portugueses afetados pelos trágicos incêndios do último verão no centro do país. “Ajudaram muito. Foi como se fosse uma verdadeira ponte entre a China e Portugal”, avalia. A Liga dos Chineses em Portugal entregou em 2017 donativos superiores a 150 mil euros para apoio às vítimas dos incêndios de Pedrogão Grande, onde morreram mais de 60 pessoas. 

Maria Caetano  09.02.2018

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