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De volta ao radar dos investidores

Quando, em julho, o presidente da Comunidade de Empresas Exportadoras e Internacionalizadas de Angola (CEEIA) revelou um “detalhe muito importante” na preparação do novo programa de apoio à diversificação económica, Agostinho Capaia estava a dar o exemplo perfeito das medidas que levam a uma nova perceção de Angola nos mercados e nos parceiros internacionais.

“Há um detalhe muito importante, que é o facto de o Governo ter elaborado o PRODESI [Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações], em contacto com os empresários. Nós participámos ativamente em reuniões todos os dias para a elaboração desse programa, a nossa associação participou”, disse Agostinho Capaia.

“Antes havia mais dificuldade” em participar na preparação dos documentos oficiais e, admitiu, “às vezes já vinham programas feitos por consultores, por pessoas que não percebem” da atividade exportadora.

“Quando se fala de exportações, é importante falar com alguém que faz exportações, e outra coisa é alguém que sai da universidade, um professor ou um consultor que às vezes não vai ao encontro da realidade”, vincou o empresário, apontando que haverá um “comité de acompanhamento” sobre a atividade do plano do Governo para aumentar as exportações não petrolíferas.

As exportações de petróleo, que ainda representam a esmagadora maioria das vendas de Angola para o exterior, e que continuam a ser a ‘galinha dos ovos de ouro’ da economia angolana, melhoraram com a subida sustentada do preço para cima dos 70 dólares, melhorando as contas públicas e permitindo ao país apresentar bons números para consumo interno e externo.

“A nossa previsão para o crescimento real do PIB em Angola é 2,8 por cento, acima do consenso da Bloomberg de 2,1 por cento, escrevem os analistas da BMI Research, uma consultora do grupo Fitch que, numa nota de análise sobre a economia do segundo maior produtor de petróleo em África, garante que o otimismo é realista e está baseado “na perspetiva positiva para os preços do petróleo e da produção” em Angola, que deve subir 8,2 por cento este ano depois de dois anos de contração.

O Governo, por seu turno, espera um crescimento económico de 4,9 por cento, marcadamente acima das projeções mais otimistas.

Na nota, a BMI acrescenta que as mudanças cambiais, com a imposição de um regime flutuante, mas com limites, “vai permitir o acesso e a entrada de moeda externa”, o que por sua vez vai “aumentar consideravelmente” as receitas fiscais.

Depois de dois anos de recessão motivada pela descida dos preços do petróleo, em 2015 e 2016, Angola está a recuperar, e isso nota-se nos indicadores económicos, na facilidade de acesso a financiamento internacional e na perceção que os analistas mostram sobre o trabalho do presidente angolano João Lourenço.

Vários comentadores internacionais que seguem a atualidade angolana estavam céticos quando a onda de exonerações começou, o que valeu a Lourenço a alcunha de ‘O Exonerador Implacável’, numa referência ao conhecido filme protagonizado por Arnold Schwarzenegger ‘O Exterminador Implacável’.

Nos primeiros 100 dias, Lourenço mudou a direção do país ao ritmo de três exonerações por dia, cumprindo o sonante aviso deixado posse: “Ninguém é suficientemente rico que não possa ser punido, ninguém é pobre demais que não possa ser protegido”, disse o general de 62 anos quando assumiu a liderança do país.

Nos últimos meses, Angola tem-se desdobrado em iniciativas para promover a competitividade interna – através por exemplo da nova lei do investimento – e a imagem externa – como mostra a criação de um Manual de Comunicação Administrativa e Identidade Visual do Governo, uma espécie de cartilha  que visa melhorar a imagem do Executivo.

“Há um aparente empenho do presidente em traçar um rumo independente e operar de forma mais transparente”, escreveu esta semana a Economist Intelligence Unit (EIU), a unidade de análise económica da revista britânica The Economist, muito crítica do antecessor de João Lourenço, José Eduardo dos Santos.

Agora, o tom é outro. Em junho, poucas semanas depois de uma emissão de dívida soberana de três mil milhões de dólares, os analistas escreviam que “o facto de ter havido mais 500 investidores com ofertas de nove mil milhões de dólares, no total, e taxas de juro mais baixas do que o esperado, reflete a confiança aumentada na política local”.

A EIU lembrava até que Angola é o quarto país africano, depois da Nigéria, África do Sul e Gana, a emitir dívida com maturidade a 30 anos, e salientava o interesse dos investidores internacionais: “Desde que João Lourenço chegou ao poder, no final de 2017, que o Governo embarcou numa série de programas de reforma económica, prometendo combater o tema sempre presente da corrupção”.

Nos mercados financeiros, Angola é encarada como um mercado promissor e fiável. Os empréstimos que tem recebido comprovam: a emissão de dívida pública no valor de três mil milhões de dólares, o empréstimo de dois mil milhões até 2020 do Banco Africano de Exportações e Importações (Afreximbank), os 750 milhões em apoio ao orçamento do próximo ano assegurados pelo Banco de Desenvolvimento Africano, e os milhões sempre disponíveis via Pequim são alguns exemplos. 

Afreximbank entre os mais otimistas

Em julho, o vice-presidente do Afreximbank com o pelouro da banca e do desenvolvimento do negócio explicava à Lusa a mudança de tom: “Angola ainda está numa situação difícil, mas está no caminho certo e a tomar as medidas certas, e quem olhar a longo prazo para o país não vai ter problemas em investir”, defendeu Amr Kamel.

O Afreximbank, acrescentou, está “a trabalhar com o Banco Nacional de Angola e a dar um apoio considerável”. O responsável sublinhou que “as dificuldades estão lá, mas estão a ultrapassá-las”.

A maneira positiva como o banco de referência africano para o comércio olha para Angola está bem explícita na visão deixada à Lusa pelo economista-chefe.

“Angola, que sempre foi um bom cliente do banco, está a honrar os compromissos e está outra vez a crescer devido a reformas difíceis feitas pelo presidente [da República, João Lourenço]”, disse Hippolyte Fofack, acrescentando: “Chegar ao poder e fazer o que ele fez, a nível pessoal e estratégico, foi notável. É corajoso para um líder e começam-se a ver os resultados no crescimento e no aumento do sentimento empresarial”.

Angola, sublinhou, “estava a sangrar há um ou dois anos” e chegou a duvidar-se se iria honrar os compromissos, admitiu.

O grande desafio para Angola é conseguir “sustentar as reformas, mas tendo em conta o que o presidente já fez, tomando decisões muito arriscadas logo no princípio, estamos confiantes que está empenhado na boa governação e vai criar o ambiente certo para o crescimento inclusivo”, afirmou Hippolyte Fofackna numa entrevista à Lusa durante os Encontros Anuais do Afreximbank, em Abuja, em julho.

Mário Baptista-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau 10.08.2018

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