Fernanda Ilhéu_GLP_03

“O Perigo Amarelo não existe”

Fernanda Ilhéu diz que Macau tem de abrir as portas aos talentos do exterior para ter sucesso no processo de integração regional. A académica também afirma que há muitas novas oportunidades de investimento para a China em Portugal.

Fernanda Ilhéu, professora no Instituto Superior de Economia e Gestão em Lisboa e especialista na internacionalização da economia chinesa, olha com otimismo para o investimento da China em Portugal, salientando novas áreas que podem surgir como a economia do mar ou a indústria automóvel. Conhecedora profunda também da economia de Macau, faz um apelo à abertura de portas a talentos do exterior para que a cidade tenha sucesso no projeto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau.  

Fernanda Ilhéu – Cheguei no dia 17 de Fevereiro de1979, uma semana depois de as relações diplomáticas entre Lisboa e Pequim terem sido restabelecidas. Foi o Governador Garcia Leandro que me convidou para vir para Macau para desenvolver aquilo que é hoje o Instituto de Promoção do Comércio e Investimento de Macau (IPIM). Mas logo de seguida entrou em funções o Governador Melo Egídio. Era uma Macau romântica, interessante, mas adormecida, em que o tempo não passava. Entre a hora que saímos do serviço, as cinco da tarde, e o jantar, parecia que nunca mais lá chegávamos. Havia muito poucos portugueses. Apenas uma comunidade macaense algo envelhecida. E estava muita coisa por fazer. Para termos uma ideia, para tomarmos banho tínhamos de por uns cotonetes nos ouvidos porque senão tínhamos infeções porque a água estava poluída. 

Os telefonemas eram algo inimaginável. Pedíamos uma chamada telefónica às 10 da manhã para Lisboa e a chamada era feita às oito da noite. A eletricidade ia, frequentemente abaixo. 

- Viveu 18 anos em Macau num período de um enorme salto. 

F.I. – Tudo aconteceu. Foi espetacular. 

- Sente particular orgulho de ter participado para o desenvolvimento de Macau?

F.I. - Tive a sorte de estar em Macau numa altura em que foi possível inovarmos muito na forma de trabalhar e termos a oportunidade de colocar em funcionamento muitas instituições que Macau precisava. Ao nível económico começámos a levar as empresas para o exterior porque havia uma pequena exportação de Macau que era dependente de Hong Kong. Os grandes grupos instalaram-se em Macau com base num sistema de quotas e de sistema generalizado de preferências. O Governo português negociou muito bem o sistema multifibras e conseguiu para Macau quotas muito superiores à capacidade instalada para os têxteis. As empresas de Hong Kong começaram a instalar-se em Macau para aproveitar essas vantagens. 

- Muita coisa mudou desde então. Mais de três décadas volvidas, o foco incide sobre a necessidade de Macau estar bem integrada, economicamente, na zona da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. Como deve Macau posicionar-se neste processo? 

F.I. - Macau tem de ter consciência de que não pode abandonar o posicionamento como cidade de jogo, de onde vem a sua riqueza. Não podendo deixar de ser o que é. pode criar muitas mais coisas em cima, reais.

Não pode, por exemplo, deixar de olhar para as novas tecnologias e o desenvolvimento da inteligência artificial à sua volta. 

Tem de criar várias frentes. E aí vai precisar de gente. E tem de deixar de ter aquela ideia, que já tinha no tempo em que cá estive, de protecionismo face às pessoas de fora. De medo de perder os lugares. Isso não vai acontecer. Quanto mais pessoas aqui estiverem com qualidades e capacidades em várias áreas de desenvolvimento, mais Macau vai prosperar. 

- E o setor da educação tem um papel chave a desempenhar.

F.I. – Exato. E por exemplo, Macau tem uma universidade em Hengqin, uma universidade que pode ser muito avançada na formação de quadros para o sul da China, nomeadamente, com uma componente muito forte, relativamente aos laços com os países africanos e da América Latina, mais concretamente os países de língua portuguesa. 

Estamos a falar de dois continentes que terão de ter um grande desenvolvimento e onde a iniciativa “Uma Faixa Uma Rota” também vai tocar. Eu acho que é uma pena não se apresentar a Universidade de Macau nesse sentido. A Universidade de Macau está muito orientada por pessoas que têm uma experiência, sobretudo americana, e não tem havido uma abertura, penso eu, para outras colaborações.

- Falando desse trabalho que tem estado a fazer ao nível universitário, qual é a atual situação de estudantes chineses em Portugal?

F.I – Tem aumentado, significativamente o número de estudantes chineses em Portugal. Penso que estamos mais ou menos com mil estudantes chineses em universidades portuguesas. Mas há espaço para muitos mais. Está a crescer muito rapidamente. O interesse destes alunos é muito grande e de uma maneira geral são bons alunos. Os meus colegas estão maravilhados com a qualidade dos alunos chineses.

- Em simultâneo, temos tido um investimento direto chinês inaudito em Portugal nos últimos seis anos.

F.I. – Portugal é dos principais destinos não apenas em termos relativos, como também absolutos, de investimento direto chinês em stock acumulado está em 10º lugar. Em primeiro estão os Estados Unidos. Isto é fantástico.

- Qual é a estratégia da China em termos de investimento em Portugal?

F.I. – Tem havido uma evolução. Quando a China tinha um crescimento económico de dois dígitos, investia, sobretudo, em países com muitas matérias-primas. Depois, quando entra no “novo normal” de crescimento, entre seis e sete por cento, passamos a uma nova fase de investimento da China em tecnologia e ao nível do comércio e setor financeiro. E é nessa fase que Portugal entra, nomeadamente no campo da energia. E a China ao entrar em Portugal entrou também de certa forma nos Estados Unidos. Outro aspeto importante tem sido um setor financeiro e, mesmo, no setor da saúde privado. 

- Como olha para a OPA lançada pela China Three Gorges (CTG) e todo o debate que está em curso?

F.I. - Esta pergunta levanta vários problemas e várias questões. Em primeiro lugar é uma questão de estrutura acionista. Se a China não entrar e não reforçar o seu capital para obter 50 po cento + 1 voto, possivelmente entram empresas europeias e americanas. Com essas empresas europeias, Portugal corre o risco de a sede da EDP poder ir para outros países ou mesmo de uma divisão do grupo. Eu nunca me esqueço do que aconteceu à Cimpor e à Portugal Telecom. Nesse aspeto a CTG oferece mais condições a Portugal e à EDP e também estabilidade para condições de investimento. Agora, se olharmos para isto de uma forma política, independentemente de o investidor ser a China, temos aqui um condicionalismo que é o facto de a empresa chinesa ser estatal. Daí termos um problema que é difícil de a Europa entender. A EDP era uma empresa estatal que teve de ser privatizada. E agora, curiosamente, a EDP poderá passar a pertencer, maioritariamente a uma empresa estatal de um país estrangeiro. O problema é que Europa não admite monopólios estatais num país da União Europeia. Se não fosse uma empresa estatal esta questão não existiria.

- A isso acresce o facto de a Rede Elétrica Nacional (REN) estar, parcialmente nas mãos de outra empresa estatal chinesa, a State Grid.

F.I. – O que sempre ouvimos dizer na Europa é que os monopólios estatais não seriam permitidos. E mesmo que não sejam estatais, a lei da concorrência poderá dizer que não é possível. Tudo isso vai ser analisado. Nenhum de nós sabe qual vai ser o resultado dessa questão. O certo é que a Europa está a discutir nesta altura o investimento da China em áreas estratégicas. Isto acontece ao mesmo tempo que a China quer discutir esse investimento, juntamente com a iniciativa da Faixa e Rota. A Europa quer discutir as questões, separadamente.

- E face ao aumento substancial do investimento chinês, não começam a surgir em Portugal receios na sociedade e nas instituições? Há todo um debate em torno disto nos Estados Unidos e na Europa.

F.I. – Eu acho que não devemos tomar como nossos os problemas dos outros. Esse é sobretudo um problema dos Estados Unidos. Nós estamos muito bem com os americanos, mas também nos damos muito bem com os chineses. Não aspiramos a ser superpotência no mundo. Preocupa-me mais a posição da Europa, porque a Europa, efetivamente ainda não encontrou o caminho e começa ser complicado nós termos uma estratégia, quando Europa não dá um passo em frente, não avança nem recua. A Europa tem que decidir qual é a sua estratégia em relação à China. Relativamente à China, enquanto ameaça, ela nunca foi um país que ameaçou os outros nesse aspeto. O “Perigo Amarelo” não existe. A China trabalha para um mundo multipolar – é isso que sempre tenho visto defendido em todos os discursos oficiais e publicações. Não é um país agressor. É um país que defende algumas das suas fronteiras e os seus problemas internos. 

Mas não anda pelo mundo a conquistar espaços para se instalar. Não precisa, tem muito espaço. Efetivamente, Portugal tem todo o interesse nessa presença chinesa e tem de saber negociar e defender o que é importante para si. E considero que, de certa forma, tem sabido. 

Penso que a opinião pública é favorável. Não vejo ninguém a dizer mal da presença chinesa, pelo contrário. 

- Tivemos a visita do ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, a Portugal e em novembro teremos Xi Jinping. O que espera desta visita?

F.I. – Espero que a presença dele seja uma alavanca grande para as relações entre Portugal e a China também para o compromisso de cooperação em várias áreas de desenvolvimento dentro deste projeto “Uma Faixa Uma Rota”.

- Portugal e o espaço dos países de língua portuguesa conferem uma dimensão atlântica a este projeto, certo?

F.I. – Sim,  certamente. Mas Portugal também tem uma vantagem competitiva na Europa. A China tem investido imenso em Portugal. Está cada vez mais presente em Portugal, em tudo. E há muita coisa pra fazer em Portugal. Olho para a nossa realidade e vejo porque é que não desenvolvemos na região entre Sines e Setúbal, uma grande área de desenvolvimento em que a China possa apostar, não apenas no que diz respeito ao Porto de Sines, mas em tudo que está a volta. Estou a falar de logística, de processamento industrial, de transformação. Já imaginou se tivéssemos, por exemplo, uma outra unidade de montagem automóvel, um Geely ou Shangai Automobile, já imaginou o que isso representava para a região? 

- Toca num ponto que tem sido salientado pelas autoridades portuguesas na abordagem ao investimento chinês, que é um enfoque no setor produtivo, que se traduza na criação de empregos.

F.I. – Sim, outra área em que somos competitivos e que pode ter interesse para a China é o cluster da aeronáutica. Temos aquele polo entre Beja e Évora, temos empresas de aeronáutica, onde temos o aeroporto de Beja, praticamente inativo. Por que não desenvolver um projeto coordenado de desenvolvimento? 

Ao nível da economia do oceano, há muito para explorar naqueles mares entre Portugal, Madeira e Açores. Vamos ter muitas oportunidades na exploração da biodiversidade marinha, quer também ao nível da segurança dos oceanos. 

José Carlos Matias  08.06.2018

Artigos relacionados

 
 

“Tecnologia blockchain irá mudar a indústria local nos próximos três anos”

O diretor Interino do Instituto de Inovação Colaborativa da Universidade de Macau antecipa que a tecnologia blockchain vá provocar mudanças na indústria financeira, turística e de serviços de entrega de Macau. Jerome Yen diz que já há casinos locais que começaram a avaliar o uso da tecnologia nos últimos dois anos. O académico alerta para

“Espero que a visita promova plataforma de serviços financeiros entre China e Portugal”

Serviços financeiros, apoio a PME e promoção do empreendedorismo jovem estão no centro da agenda da visita de Lionel Leong a Portugal e ao Brasil. O Secretário para Economia inicia na próxima semana visitas a Portugal e ao Brasil  entre 19 e 26 de junho, nas quais vai procurar elevar o papel de Macau como

Macau continua a ver crescer o mercado de hotéis low cost

Num contexto marcado pela indústria do jogo, a indústria hoteleira em Macau sempre foi constituída, principalmente por hotéis de 4 e 5 estrelas. Dados oficiais mostram também que o número de quartos para esta categoria de hotéis aumentou 135 por cento na última década. No entanto, alguns investidores locais estão agora a apostar em hotéis

Disputas na OMC atingem máximo histórico

Até ao início de junho, a organização recebeu 15 novas queixas – quase tantas como no total do ano passado. Há processos suspensos por falta de meios.  As iniciativas unilaterais sobre tarifas dos últimos meses parecem sugerir o contrário, mas as estatísticas da Organização Mundial do Comércio mostram que o fórum multilateral instituído em 1995

Das boas intenções aos passos concretos

Restam poucas dúvidas sobre o significado histórico da cimeira entre Donald Trump e Kim Jong-un, mas  persistem incertezas sobre os compromissos assumidos.   “Uma longa viagem começa com um primeiro passo”, assim versa o ditado chinês que se pode aplicar ao que se passou na cimeira histórica em que estiveram frente-afrente o presidente dos Estados Unidos e da Coreia do Norte. Há todo um historial de

Piratas da Amazónia, o crime no rio mais extenso do mundo

Centenas de quilómetros de rios e afluentes dentro da maior floresta do mundo, a Amazónia, são a principal via de transporte no norte do Brasil onde estradas de terra são raras dadas as características geográficas da região. Nos últimos anos, porém, tripulantes e passageiros que antes viajavam tranquilos nos barcos tornaram-se vítimas de grupos criminosos