OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Um destino de férias improvável, ou talvez não

A primeira vez que o português Walter Figueiredo aterrou em Bissau foi em 2008. A visita a um familiar impunha-se, apesar de a Guiné-Bissau pouco lhe dizer. Uma antiga colónia portuguesa, atormentada por uma instabilidade cíclica e um dos países mais pobres do mundo.

“As expetativas eram muito baixas e tinha uma má imagem da Guiné-Bissau”, recordou Walter Figueiredo, um português que já viajou por mais de 50 países. Mas a imagem mudou logo de imediato. E regressou ao país em 2009 e em 2010.

“A Guiné-Bissau é completamente diferente daquilo que imaginava e é dos poucos países onde tenho sempre vontade de regressar”, salientou. Dos 80 mil passageiros que passam por ano no aeroporto de Bissau, capital da Guiné-Bissau, metade são turistas.

Um número reduzido, que as autoridades guineenses pretendem aumentar com a promoção do país como destino de ecoturismo centrado no arquipélago dos Bijagós. “A imagem da Guiné-Bissau exterior era muito má associada, portanto, a um contexto político e era preciso desassociarmos o turismo da política”, explica o ministro do Turismo guineense, Fernando Vaz.

Para o ministro, a medida já começou a dar frutos e hoje chegam todos os dias turistas à Guiné-Bissau de vários locais da Europa, principalmente de Portugal, França, Alemanha e Itália. E há os reincidentes – Walter Figueiredo regressa em junho.

“A Guiné-Bissau é diferente. É um amor. Vivi momentos de grande felicidade, fui sempre bem recebido e nunca me desiludiu”, explica. Para continuar a não desiludir, o Governo guineense focou para já a sua atenção em resolver “minimamente” alguns problemas, nomeadamente as condições no aeroporto, a obtenção e concessão de vistos, a ligação com o arquipélago dos Bijagós e a segurança dos turistas.

Mas afinal o que tem a Guiné-Bissau? O que leva 40 mil pessoas a viajarem anualmente para fazer férias no país? “Os Bijagós, uma natureza em estado puro, muitos segredos por descobrir, as ostras e os guineenses”, responde, prontamente, Walter Figueiredo.

Os guineenses são talvez o maior segredo para descobrir. Simpáticos, afáveis, solidários e hospitaleiros, estão sempre prontos para convidar os turistas para partilharem uma refeição. “Quem vem à Guiné vem com uma ideia e depois sai com uma ideia completamente diferente”, diz o ministro. Mas, acrescenta, politicamente, os sucessivos golpes de Estado projetaram uma imagem negativa.

O que acontece é que quando as pessoas chegam à Guiné-Bissau a realidade é outra. “Não tem nada de perigoso. Tem uma segurança natural que as próprias pessoas transmitem. Andava à noite e nunca me senti inseguro, nem nunca tive qualquer problema”, conta Walter Figueiredo.

Segundo as autoridades guineenses, a Guiné-Bissau em termos de pequena criminalidade é um dos países mais seguros do mundo. “Não há quase policiamento noturno, não há criminalidade, não há raptos, assassínios e não há violações. Vê-se frequentemente as jovens a sair da discoteca à noite e a ir para casa a pé”, diz o ministro.

Fernando Vaz lembra que mesmo quando houve golpes de Estado não foram registadas pilhagens, e os golpistas, que nunca se apoderaram do poder, garantiam tanto a segurança dos bancos, como dos bens. “Penso que é uma fase que está a acabar e a imagem que se irá projetar vai mudar, e isso terá benefícios a curto prazo bastante grandes para a Guiné-Bissau”, afirmou.

No processo de promoção da Guiné-Bissau como destino turístico, o Governo optou por destacar o arquipélago dos Bijagós, e já há em Portugal, melhor local para se chegar a Bissau, agências de turismo a vender pacotes para as ilhas. Os Bijagós são um conjunto de cerca de 88 ilhas e estão classificadas pela UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura] desde 1996 como reserva da biosfera.

Tartarugas marinhas, hipopótamos de água salgada, crocodilos, aves pernaltas, lontras, macacos são alguma da fauna existente no arquipélago, onde as autoridades criaram dois parques nacionais: o Parque Nacional João Vieira, ilha de Poilão, e o Parque Nacional de Orango. Existe também uma área protegida comunitária nas ilhas de Formosa, Nago e Tchedia.

São mais de dois mil quilómetros quadrados de beleza selvagem com apenas 30 mil habitantes, que dedicam pelo menos 100 dias por ano a rituais religiosos numa simbiose perfeita entre natureza e humanos.

“Vai ser um projeto sustentado onde vamos preservar toda a sua biodiversidade, até porque é a maior atração. É o melhor que temos nos Bijagós”, diz o ministro, explicando que as unidades hoteleiras que é previsto construir são sempre de média e pequena dimensão e têm de cumprir preceitos ambientais.

Mas a Guiné-Bissau é também a sua parte continental com o Parque Natural das Lagoas de Cufada e os parques nacionais de Cantanhez, Boé, Dulombi e dos Tarrafes de Cacheu. Ao todo, as áreas protegidas do país representam 15 por cento do território nacional.

Depois há a gastronomia local onde não pode faltar a malagueta e a lima. “Associámos os nossos hábitos gastronómicos africanos aos dos portugueses e a nossa gastronomia é excecional”, afirma Fernando Vaz. Com um potencial enorme para promover vários tipos de turismo, a Guiné-Bissau é hoje um destino ao qual é cada vez mais fácil aceder. Recentemente o Governo relançou a possibilidade de os turistas obterem vistos de curta duração (15 dias) online através do sítio de Internet www.rgb-visa.com.

Num futuro próximo, os vistos de 15 dias vão passar mesmo a ser gratuitos. Tudo para promover um destino e o turismo, que pode contribuir para o desenvolvimento económico do país, mas também para combater a pobreza, através da criação de postos de trabalho.

Para o ministro Fernando Vaz é simples: “o turismo pode contribuir positivamente para alterar a imagem externa da Guiné-Bissau, a imagem negativa, valorizando o património natural e cultural do país, contribuindo para o combate à pobreza e desemprego, para o desenvolvimento sustentável económico e social e para promover a coesão social e a identidade nacional”.

Haja vontade dos atores políticos guineenses e a Guiné-Bissau poderá tornar-se num destino turístico mais do que provável. “A Guiné-Bissau é diferente. O povo, apesar de tudo, tem sempre um sorriso na cara”, conclui Walter Figueiredo.

Isabel Marisa Serafim-Exclusivo Lusa/Plataforma

Artigos relacionados

 
 

“Não podemos estar 14 anos à espera que alguma coisa seja feita”

Carmen Amado Mendes, especialista em Relações Internacionais da Universidade de Coimbra, defende que o posicionamento de Macau enquanto mediador internacional dos negócios chineses para a Nova Rota da Seda exige mais rapidez e investimento de recursos. - Pequim impõe mais uma vez a Macau o desígnio político de fazer a mediação para o espaço de

Mistério dos quadros desaparecidos em academia fantasma

Era suposto ter sido uma academia de talentos artísticos, mas acabou extinta em poucos anos, sem conhecimento das autoridades que em Macau supervisionam a formação. A história desponta com o desaparecimento de nove quadros do artista Denis Murrell e desemboca em empresas offshore, nas Ilhas Virgens Britânicas. Nove quadros de Denis Murrell, que o artista

Iniciado desmantelamento de Central Térmica de Macau

Quatro anos depois de ter completado a sua última operação, a Central Térmica de Macau  está desde maio a ser desmantelada, num processo que deverá estar concluído no terceiro trimestre de 2018. No seu lugar, irá erguer-se um complexo de habitação social composto por perto de mil frações, atualmente em fase de planeamento. Quem passar

Gás natural: sorte grande ou mais problemas?

Começou a contagem decrescente para Moçambique exportar gás natural da Bacia do Rovuma, ao largo da costa norte do país, sete anos após a descoberta daquelas que estão entre as maiores reservas do mundo. É uma boa notícia, mas com um alerta: a riqueza que vai fluir a partir de 2022 é tanta que se

Excluídas quatro candidaturas a sufrágio direto por irregularidades

A Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL) validou 27 de 31 pedidos de reconhecimento de comissões de candidatura, cujo prazo de entrega terminou terça-feira, aguardando que as restantes quatro supram insuficiências. Dos 31 pedidos de reconhecimento de comissões de candidatura, 25 dizem respeito ao sufrágio direto, das quais 21 foram validadas e quatro apresentam

Acusações de bilionário a líderes da China atingem acionista chinês da TAP

As acusações de corrupção de um bilionário chinês, exilado nos EUA, a altos quadros de Pequim, atingiram o grupo HNA, acionista da TAP através do consórcio Atlantic Gateway e da companhia brasileira Azul. Guo Wengui, que vive num apartamento de 68 milhões de dólares em Manhattan, deixou de ser visto em público em 2014, mas