naom_591f1201ad44c

Xanana Gusmão, a voz mais ausente no debate político

A voz mais ausente do debate político que desde as eleições legislativas de julho domina Timor-Leste pertence a quem, agora como no passado, parece voltar a ter na mão a chave para decidir o que vai ocorrer no país nos próximos anos.

Xanana Gusmão, líder histórico timorense e presidente do segundo partido mais votado, o Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT), saiu de Timor-Leste a 11 de setembro num périplo enorme, que o levou aos Estados Unidos, Europa, Ásia e Austrália, e ainda não tem data marcada para o regresso. Já por duas vezes os jornalistas se concentraram no aeroporto à espera da sua chegada; delegações do partido já viajaram para Bali para encontros, e há referências a contactos telefónicos e até videoconferências. Pontualmente surge uma mensagem em vídeo ou uma resposta a perguntas de jornalistas, mas declarações alargadas que ajudem a clarificar as complicadas águas da política nacional timorense continuam a escassear.

A data do regresso já se tornou alvo de piadas em Timor-Leste, com alguns a dizerem mesmo que Xanana Gusmão pode só regressar ao país em meados de dezembro ou até mesmo no próximo ano. 

Na agenda do líder timorense tem estado, em particular, a negociação sobre a fronteira marítima com a Austrália e a discussão com as petrolíferas sobre o poço Greater Sunrise, contactos com investidores e Governos, bem como ‘lobby’ para o futuro desenvolvimento do país.

Com Xanana Gusmão ausente, resta tentar interpretar o pouco que o líder timorense vai dizendo. Publicamente, os seus maiores discursos foram na Conferência Nacional do partido, em agosto, quando se demitiu e quando o CNRT aprovou uma resolução a reiterar o compromisso de ser oposição.

Essa postura foi repetida publicamente nas negociações com a Fretilin para a formação de Governo e confirmadas ao Presidente da República, Francisco Guterres Lu-Olo, numa reunião a três, onde estiveram Xanana Gusmão e o secretário-geral da Fretilin, e atual primeiro-ministro, Mari Alkatiri.

As poucas mensagens que vão chegando desde aí reiteram a postura que Xanana Gusmão mantém desde a campanha eleitoral: se o CNRT não conseguisse maioria absoluta (perdeu por escassos 1100 votos para a Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente, a Fretilin) o partido ficaria na oposição.

Um discurso em que garantiu que Timor-Leste tinha mudado desde 2007 e que o CNRT não faria o que fez então: em alternativa à Fretilin, também mais votada nas eleições desse ano, Xanana Gusmão liderou uma Aliança de Maioria Parlamentar (AMP).

O líder histórico timorense foi taxativo, afirmando que “o partido não aceitará propostas, de ninguém, nem convidará nenhum partido para formar coligações, porque não pretende participar no governo”.

Quer a demissão de Xanana Gusmão quer a resolução sobre a oposição foram agora revogadas. Numa curta 2.ª Conferência Nacional, no domingo passado, o partido devolveu os plenos poderes a Xanana – estava sem plenos poderes à espera da sua demissão ser avaliada num Congresso Extraordinário – e revogou a decisão que o impedir, aparentemente, de poder ser Governo.

Acordo a três

A mesa da conferência, que assina o comunicado difundido pelo CNRT no domingo, confirma ainda ter autorizado a Comissão Política Nacional, liderada por Xanana Gusmão, a “negociar, celebrar e assinar um acordo político para a formação de uma aliança de maioria parlamentar que respeite os princípios políticos que constam da plataforma política” já celebrada com o Partido de Libertação Popular (PLP, terceira força mais votada, com oito deputados eleitos) e o partido Kmanek Haburas Unidade Nasional Timor Oan (KHUNTO, quinto mais votado com cinco eleitos). 

Com o curto comunicado de duas páginas – saído de um encontro onde foram convidados e discursaram quer o presidente do PLP, Taur Matan Ruak, quer o líder do KHUNTO, José dos Santos Naimori – o CNRT resolve alguma das críticas que têm sido dirigidas ao partido.

Por um lado, restaura os plenos poderes de presidente a Xanana Gusmão – numa altura em que alguns já questionam o estado da relação do líder com o partido –, ao mesmo tempo elimina a resolução que para alguns impedia o CNRT de liderar a nova AMP e, ao mesmo tempo, abre a porta à formalização desse acordo a três.

Ainda há dias, em Perth, o primeiro-ministro Mari Alkatiri insistia que “constitucional e legalmente, a AMP não existe”, já que, sustentou “qualquer coligação político-partidária envolve lideranças político-partidárias” e, no caso do CNRT, a participação nessa coligação implica “voltar à sua Conferência Nacional para fazer uma decisão contrária daquela que fez” depois das eleições. 

Na prática, a AMP 2 já tinha sido oficialmente anunciada. Primeiro numa carta que os 35 deputados dos três partidos assinam, em papel timbrado do Parlamento Nacional, e remetem ao Presidente da República, e depois numa cerimónia a 12 de outubro.

Nesse dia, os chefes das bancadas dos três partidos – Arão Noé Amaral (CNRT), Fidelis Magalhães (PLP) e Luís Roberto da Silva (KHUNTO) – assinaram uma “plataforma política de Aliança de Maioria Parlamentar” (AMP), documento que deveria ter como testemunhas os líderes máximos dos partidos, dos quais apenas o responsável do KHUNTO esteve presente.

“Na situação atual, o Governo não tem o apoio da maioria parlamentar, o que cria dificuldades na implementação do programa sem adequada força política, o que deixa em causa o desenvolvimento do país”, referia o texto desse documento a três.

Na semana seguinte, Mari Alkatiri e o seu elenco governativo levam ao Parlamento Nacional o Programa do Governo que acaba por ser alvo de uma moção de rejeição. Uma segunda implica a queda do Governo.

E é aqui que a situação atual se encontra. O Governo ainda não confirmou exatamente quando vai levar ao Parlamento o segundo texto do programa. A oposição continua a insistir que está preparada para ser alternativa de Governo e que o Executivo não tem o apoio de que necessita para fazer vingar as suas políticas durante cinco anos de legislatura.

De um lado está o CNRT, que garante que a posição vincada inicialmente pela bancada – e agora confirmada pela Conferência Nacional – tem o aval de Xanana Gusmão. Do outro, Mari Alkatiri, que garante que Xanana Gusmão já aceitou ser líder de uma nova Alta Autoridade para o desenvolvimento da costa sul, anunciada pelo atual Executivo. Deixando ao mesmo tempo que um dos seus homens mais próximos, Agio Pereira – que foi o seu braço direito durante longos anos no Governo e no último ano nas negociações com a Austrália – integre o Executivo liderado por Alkatiri. 

António Sampaio-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

Artigos relacionados

 
 

“A China já não é um mercado de dinheiro fácil”

Nos calcanhares dos EUA, a China é um dos mercados mais dinâmicos para as empresas de tecnologia à procura de investidores. Bessie Lee, da Witihinlink, falou na Web Summit sobre o melhor caminho para lá chegar. Bessie Lee, diretora executiva da incubadora e investidora chinesa Withinlink, foi uma das oradoras da Web Summit, em Lisboa,

“Quando decidi assumir esta posição, sabia que tinha de ser mais cautelosa”

Sabe que vai estar debaixo de olho do Governo e de Pequim agora que lidera a Novo Macau. Kam Sut Leng diz não ter medo das consequências que possam surgir por ser a nova presidente da principal organização democrata de Macau.  Kam Sut Leng é a primeira mulher a assumir a liderança da maior associação

LAG 2018 sem surpresas

O Chefe do Executivo apresentou esta semana na Assembleia Legislativa as Linhas de Ação Governativa (LAG) para 2018. O documento não despertou grande entusiasmo, seguindo a linha do esperado. Deputados deixaram críticas a Chui Sai On sobretudo por anunciar iniciativas sem fixar prazos. Os efeitos do Hato ainda se fazem sentir no debate político. “No documento

Novo impulso à gastronomia com reconhecimento da UNESCO

Foi no passado dia 1 de novembro, que Macau voltou a fazer história. Era já madrugada na região quando a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, anunciou a designação de “Macau, China” como nova cidade membro da Rede de Cidades Criativas da UNESCO (UNESCO Creative Cities Network – UCCN) na área da Gastronomia.  Essa nova designação

Lusofonia com menos um piloto

O português Tiago Monteiro (Honda Civic) vai falhar a etapa de Macau do campeonato do mundo de carros de turismo (WTCC), no qual é quarto classificado, na sequência do acidente que sofreu há dois meses em Barcelona. A participação lusófona fica assim reduzida a cinco pilotos. Depois de já não ter marcado presença nas últimas duas

A crise e o risco de uma paralização na ciência brasileira

A dualidade do ideograma “crise” no chinês tradicional – “risco” e “oportunidade” – é muitas vezes citada no Brasil, país cujo cenário começa a estabilizar-se depois de dois anos conturbados na gestão política e económica, como um símbolo de motivação. No entanto, para cientistas brasileiros “crise” tem-se traduzido apenas em “risco” de paralização dos seus