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(A)prova

A Escola Portuguesa de Macau faz 20 anos. Pais e alunos entrevistados pelo PLATAFORMA consideram que continuará a ter um lugar em Macau, mas há espaço para melhorar.

Antecipou-se à RAEM e abriu portas em 1998, um ano antes de o exercício da soberania de Macau passar de Portugal para a República Popular da China e de o território se tornar na Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). A Escola Portuguesa de Macau (EPM), no centro da cidade, tem assistido de perto à mudança do território. Resistiu, mas teve de se adaptar. Ainda nasceu na era da administração portuguesa, mas cresceu com e na China. Um sinal dos tempos é o ensino do mandarim que passou a ser incontornável. Passados 20 anos, continua a ter um lugar na cidade, ainda no centro, e a ser a opção de pais e alunos. Mas há quem espere mais daquela que é um dos principais veículos da cultura e língua portuguesas.

Catarina Cortesão Terra tem os dois filhos a estudar na Escola Portuguesa de Macau, mas confessa que não foi a primeira escolha e não está satisfeita. “Quando se pensa no PIB per capita por aluno da EPM – que é muito elevado – no nível económico dos pais, e na estabilidade que pais e professores gozam em Macau, verifica-se que a escola portuguesa faz muito pouco e tem muito mais dinheiro”, critica.

Preocupada em dar uma “educação inclusiva” aos filhos, começou por inscrever o Leonardo na pré-primária luso-chinesa Jardim da Flora e depois na escola piloto trilingue Zheng Guanying. “Na altura era só ele e mais um português. A comunidade portuguesa bastante tradicional, conservadora, hesitante e medrosa. O que compreendo porque, de facto, era um desafio”, recorda.

Foi só no quinto ano que Leonardo foi estudar para a escola portuguesa porque os pais começaram a notar que estava com dificuldades ao nível da escrita na língua materna.

Com a Laura foi diferente. Também começou no Jardim da Flora, mas tendo em conta as turmas numerosas, os pais entenderam mudá-la para o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, de matriz portuguesa. Teria seguido as pisadas do irmão, não fosse a condicionante de misturar os idiomas. Foi por sugestão da terapeuta da fala –  que desaconselhou a introdução de mais uma língua além do português e inglês que já falava – que não passou pela Zheng Guanying.

“Queria muito que aprendesse chinês e foi com alguma tristeza que decidi inscrevê-la na escola portuguesa”, lamenta.

A falta de concorrência por ser a única com o currículo português e, consequente, falta de competitividade é um dos obstáculos ao desenvolvimento da EPM para Catarina Cortesão. “É por isso que não desenvolve projetos nem resolve certos problemas para melhorar e ser a escola de referência que quer ser, mas ainda não é”, afirma.

Já Chan Chi Iao acredita que a EPM é uma boa aposta. Foi a pensar no futuro que pôs Kimberly na escola. Espera que a filha, agora no 3º ano, conclua o secundário na EPM, continue os estudos em Portugal e que a passagem pela escola se torne uma vantagem competitiva” quando entrar no mercado de trabalho.

Não foi a pensar no emprego que Manuel Fan se mudou para a escola portuguesa, mas a decisão acabou por lhe traçar o futuro. Hoje estuda Direito, na Universidade Católica em Portugal. Estava na Escola Pui Ching e decidiu mudar pelo interesse na cultura portuguesa. “O que me marcou mais foi o tempo que passei com os amigos. É uma escola que não se concentra, exclusivamente nos estudos, mas também no desenvolvimento físico e da mentalidade dos alunos. O ambiente é muito adequado, os professores ajudaram-me muito na adaptação e como o método pedagógico aplicado é de turmas relativamente pequenas, os professores assumem um papel diferenciador.”

Prós e contras

Manuel Fan deixou a escola no ano passado, depois de ter completado o secundário. “Foi difícil quando saí da escola onde tinha estudado durante grande parte da vida, mas agora acho que foi uma decisão, embora ousada, bem-feita porque alterou a minha visão do mundo e fez-me sair da zona de conforto”, realça.

Os quatros anos na EPM e os anteriores numa escola chinesa fazem-no acreditar que não há um sistema perfeito. O chinês, diz, é um ensino que se foca mais na aprendizagem de conhecimentos. “Beneficiarás imenso se conseguires acompanhar”. Já o português e internacional, acrescenta, são ensinos que dão mais liberdade aos estudantes. “Isto não é nada negativo porque se dá mais espaço aos alunos.”

João Caetano, de 28 anos, não se cruzou com Manuel Fan, de 18. Foi dos que estreou as instalações que fazem agora – dia 18 de abril – 20 anos. Também o músico guarda boas memórias. “O ambiente na escola foi sempre muito saudável, principalmente pela parte da educação física e das atividades extracurriculares, que eram fatores completamente diferenciadores face às outras escolas. Criaram uma noção de respeito entre colegas e professores que é realmente extraordinário”, recorda.

Inglaterra foi o destino que se seguiu a Macau quando terminou o secundário, há 10 anos. Não lamenta a escolha dos pais e sentiu que a EPM o preparou durante o tempo que lá esteve, do 4º ao 12º ano.

O ensino da EPM – que mantém “o estilo de educação de Portugal, que enfatiza a criatividade e o desenvolvimento do raciocínio crítico” – é um dos fatores que a presidente da Associação de Pais acha que levam, ainda hoje, os encarregados de educação a optarem pela escola. A esse, Valéria Koob acrescenta a facilidade de acesso, em qualquer momento, ao ensino em Portugal já que segue o currículo oficial do Ministério de Educação português. Mas há mais. “É uma escola de elevado nível de ensino com uma raiz portuguesa, defendendo os valores em que Portugal e a Europa acreditam, prepara os jovens para respeitarem outras culturas, aborda todos os temas de forma aberta, sem tabus nem outros objetivos que não sejam a riqueza intelectual”, defende.

Depois de uma queda pós-1999, o número de alunos voltou a subir (Ver tabela), também porque pais de outras nacionalidades, sobretudo chinesa, começaram a optar pela EPM. Chan Chi Iao explica porque escolheu a escola portuguesa em detrimento de uma chinesa. “Os professores são mais benevolentes e pacientes. E fazem com que as crianças cresçam cheios de confiança.”

Para Catarina Cortesão Terra a EPM acaba por ser muitas vezes a opção por ser a única no território que leciona em português e com o currículo de Portugal. Reconhece mais-valias à escola – como a liberdade e a interação dos alunos – mas são mais as críticas que os elogios que faz à instituição. “A escola portuguesa só pensa em ser produtiva e nos numerus clausus para que os alunos se possam integrar no ensino em Portugal. Mas depois não se preocupa com a integração e socialização dos miúdos com a comunidade, e com a consciência do lugar em que estão.”

A ausência de estágios, voluntariado, proximidade com associações e instituições locais – como diz que acontecia na Zheng Guanying – de um projeto escola relacionado com áreas como ambiente e ciência – “que fosse uma mais-valia para a cidade e uma referência para as outras escolas” – e a escassa aposta em áreas como as artes e ciências são falhas que considera “lamentáveis”. “Depois têm o grande problema do mandarim”, aponta.

As línguas

A introdução do mandarim foi uma das grandes apostas da escola nos últimos anos (Ver entrevista, pág.10), a par do ensino do inglês e francês como línguas estrangeiras. Desde o primeiro ciclo, há a Via A – que insere no plano de estudos o mandarim e a Via B, sem mandarim. A presidente da Associação de Pais considera que o ensino da também língua oficial do território está no caminho certo e relativiza as críticas.

“Para conseguir bons resultados no chinês, a EPM precisa, provavelmente de impor um regime de várias horas diárias às crianças, o que é complexo dada a necessidade de se trabalharem outras matérias. Como se não bastasse, em Macau fala-se cantonês e escreve-se chinês tradicional, dois detalhes que em nada ajudam a que os nossos filhos fora da escola possam ir exercitando o mandarim”, afirma.

Ainda assim, Valéria Koob ressalva: “Atendendo ao número crescente de alunos cuja língua materna não é o português e filhos de pais que falam chinês esse não parece ser um problema.”

Para Chan Chi Iao não foi. Sobre a qualidade do ensino do mandarim, diz não estar preocupada porque “os alunos aprendem o chinês simplificado e por isso seguem a norma internacional”.

A variedade de idiomas que se ensina e se fala na EPM é uma das características que Manuel Fan valoriza, ainda que muitas vezes em prejuízo daquela que é a língua nobre da instituição. “A característica mais destacada da escola será o seu multiculturalismo. Era normal comunicarmos em inglês e era interessante aprender português, ouvindo diferentes expressões e sotaques”, lembra.

Catarina Cortesão Terra insiste: “Se não sabem chinês, o que é que vão fazer em Macau daqui a uns anos?”

Para a mãe de Leonardo e Laura, a escola portuguesa tem de investir no mandarim e no cantonês se quer continuar a ter lugar na cidade. “Não percebo como é que a escola portuguesa não entendeu que tem de criar essa mais-valia linguística nos portugueses. Tem de perceber que também é essa a sua vocação. Esta questão de “Um País, Dois Sistemas” funciona para os dois lados. Os chineses estão a fazer o seu trabalho”, avisa, referindo-se às escolas bilingues e trilingues que apostam no português além das restantes línguas oficiais.

Futuro

A ausência do domínio das línguas que mais se falam em Macau, o ambiente maioritariamente português e com alunos portugueses fazem com que Catarina Cortesão Terra receie que os filhos cresçam numa “bolha” e à margem da comunidade. A mãe tenta compensar com viagens pela China e atividades extracurriculares que ponham os filhos em contacto com outras culturas e alunos. “A escola fecha-se”, lamenta.

João Caetano difere. “O papel da escola, enquanto estudei lá, foi de inclusão da minha veia musical e de conseguir incluir os alunos em atividades com alunos de outras escolas. O intercâmbio entre escolas e alunos é muito importante para percebermos que o mundo é multicultural, que é pela troca de ideias que coisas novas acontecem. Acho que a escola me preparou para isso”, sublinha.

Recorda iniciativas que ajudou a criar com colegas e professores como A Banda da Escola e o projeto Sepium, que chegou a ir tocar à China Continental. Hoje, com uma carreira internacional aos 28 anos, João Caetano garante que é a “pessoa que é e vive em Londres” muito por causa da EPM.

Manuel Fan não é tão categórico, mas tem uma certeza: “Não sei ainda se terei êxito por ter estudado na EPM, mas de certeza que o caminho já não é igual ao que teria seguido se tivesse ficado na escola anterior, e considero essa mudança necessária para minha vida.”

Ambos concordam que a escola continuará a ter lugar na cidade, sobretudo se tiver cuidado com questões que consideram determinantes.

João Caetano enfatiza a importância de todas as áreas. “São os anos mais importantes na vida de uma pessoa. Se há um acompanhamento e atividades que conseguem promover as diferentes valências dos alunos – sendo no desporto, na música ou nas artes – e se há pessoas com essa sensibilidade, é preciso promover e ter atenção. Não são só a Matemática, a Filosofia e a Físico-Química que são importantes. É preciso perceber que há pessoas com outras vocações. As escolas precisam deste tipo de sensibilidade por parte dos professores e colegas”, alerta.

Já Manuel Fan considera que a EPM pode ser mais uma protagonista no plano traçado para Macau de ser um intermediário entre a China, Portugal e os países de língua portuguesa. “Além de poder garantir uma educação portuguesa, também funciona como se fosse uma plataforma menor desta plataforma que é Macau, promovendo o funcionamento da mesma.”

A líder da associação de pais considera que o papel da EPM tem de ser o dos últimos 20 anos: um dos núcleos de encontro mais importantes da comunidade portuguesa em Macau. “Mas com mais responsabilidade pelo sucesso, já que se trata de uma opção de ensino que tem concorrentes fortes, como por exemplo as várias escolas internacionais e chinesas bem reputadas”, refere.

O balanço das duas décadas é positivo para Valéria Koob. “A EPM tem sabido impor-se neste registo competitivo e a provar isto está não só o número crescente de alunos, mas também a classificação obtida entre as escolas de ensino português.”

Catarina Cortesão Terra defende que as prioridades devem mudar se a EPM quer continuar a ser uma opção de ensino em Macau. “Parece que a vocação da escola portuguesa se centra em preparar portugueses para irem estudar para Portugal. Não é prepará-los para poderem continuar a sua vida e terem sucesso profissional aqui. Não está a cumprir a sua vocação de defensora da aplicabilidade da língua portuguesa num contexto de inclusão com a cultura de Macau.”

DSEJ deu mais de nove milhões à EPM

A Escola Portuguesa de Macau (EPM) recebeu um total de 9.2 milhões de patacas dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ), para o ano letivo em curso. Em resposta ao PLATAFORMA, a DSEJ refere que o Governo tem aumentado de forma consistente os recursos para a educação através de diversos subsídios que financiam as instituições de ensino não terciário e que assegura aos alunos o direito à educação. De forma a melhorar a qualidade educativa, realçam os serviços, o Executivo atribui subsídios com base no rácio turma-professor e do Fundo de Desenvolvimento de Actividades Extracurriculares. Paralelamente, o Governo participa ainda nas propinas dos estudantes da EPM. Em 2017/2018, a DSEJ diz ter subsidiado 536 alunos, correspondendo a um montante de 5.8 milhões de patacas. No mesmo ano letivo, a DSEJ atribuiu ainda um milhão e meio de patacas para material escolar que abrange 549 alunos. O organismo acrescenta que 20 alunos da escola portuguesa receberam bolsas e beneficiaram de iniciativas que visam apoiar estudantes que querem prosseguir os estudos superiores.

Catarina Brites Soares  13.04.2018

 

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