asas para lisboa

Asas até Lisboa

A Capital Airlines fez história ao abrir a primeira ligação direta entre Pequim e Lisboa. Quase 20 anos depois do fim do voo da TAP para Macau, será esta uma boa opção para quem vive na região ou faz negócios no sul da China?

O português João Pedro Góis não esconde o entusiasmo. “Facilita a deslocação e o acesso até Lisboa, portanto para residentes de Macau é muito conveniente e, sobretudo na perspetiva menos pessoal, acho que é muito interessante porque, de alguma forma, vai aproximar e dinamizar a relação económica entre Portugal e a China, o que é muito útil para o nosso país”. 

Para o jurista residente em Macau, a grande vantagem é o tempo que se ganha ainda antes de começar a voar. “Quando vamos para Portugal estamos habituados a voar a partir de Hong Kong e há uma série de facilidades, como por exemplo, o barco direto até ao aeroporto, mas acaba por ser um pouco incómodo, porque não é imediato”, afirmou. A mesma poupança de horas é elogiada no regresso: “É muito cómodo aterrar em Macau e em 20 minutos estar em casa”. Pelo conforto, João Pedro Góis está disposto a despender um pouco mais no bilhete de avião: “Se for dentro da mesma ordem de preços, mais mil ou duas mil patacas, compensa”.

Já no caso dos empresários, vários fatores são ponderados, aponta a antiga secretária-geral adjunta do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau), Rita Santos. 

Habituada a lidar com quem atravessa continentes para fazer negócios, a atual representante de uma plataforma que agrega empresas brasileiras que procuram firmar parcerias com congéneres de Macau e do interior da China considera que a nova rota só vai agarrar o interesse dos empresários do território e do sul China “se houver uma tarifa única que seja inferior” ao atualmente praticado pelas companhias aéreas que voam para a Europa a partir da antiga colónia britânica. “Se for mais caro, eu penso que eles acabam por ir por Hong Kong. (…) O que conta é a economia para os comerciantes. Sobretudo quando se vai pela primeira vez tentar oportunidades de negócio, é preciso fazer bem as contas”, salienta. 

Outro fator decisivo para o sucesso da rota entre os empresários é, segundo Rita Santos, o tempo de escala. “Não convém esperarem muito tempo em Pequim, senão acabam por escolher outro voo”, afirmou.

“Em todo o caso, é uma boa vitória, e é de elogiar, porque o voo direto de Pequim para Lisboa é muito mais rápido para os chineses do que ir (para Portugal) através de outras companhias”, acrescentou. Para Rita Santos, o facto de Lisboa se tornar “um destino direto” a partir da China facilita os investimentos. Por isso defende também voos sem paragens a partir de outros pontos do sul do país, mais perto de Macau, como Cantão ou Shenzhen.

O antigo diretor dos Serviços de Turismo da região João Costa Antunes partilha a mesma opinião, defendendo que “não se pode ignorar a força económica de Cantão, que é muito poderosa”. 

Para Costa Antunes, o ideal era um voo da TAP para Macau, mas com “um plano de negócios bem pensado e avião adequado” para garantir a sustentabilidade da operação. “Há todo um conjunto de circunstâncias que a nós, portugueses residentes em Macau e ligados ao turismo, nos entristeceram, mas isso é passado. (…) Espero que, se realmente a TAP tiver condições, se estude um modelo razoável que poderia beneficiar Macau, porque muitos turistas da China pretendem ir à Europa e também não se importavam de fazer uma passagem por Macau caso se estabelecesse um modelo técnico devidamente ajustado”, afirma. Para Costa Antunes, se não for possível transformar este sonho em realidade, Macau beneficiaria com “um voo a partir de Cantão, para o mercado chinês”.

“Eu não estou a exagerar a pedir uma rota de Macau, mas por exemplo, se for criada uma rota a partir de Cantão, com as ligações por comboio de alta velocidade, o tempo será reduzido e será conveniente”, argumentou, invocando também a possibilidade de ligações marítimas de Macau ao aeroporto de Cantão. “Há todo um conjunto quando se fala na Grande Baía do Rio das Pérolas e, vendo a globalidade e importância desta região, penso que no futuro isso [um voo direto] faz algum sentido”, acrescenta.

Costa Antunes recordou as palavras do embaixador português em Pequim, Jorge Torres-Pereira, que na abertura da ligação direta a Lisboa da Capital Airlines, disse não haver dúvida que Portugal entrou “no radar do investimento chinês” e que “o céu é o limite” . “Foi dito pelo senhor embaixador que não estava posta de parte a abertura de outras rotas, e isso tocou-me fundo. Eu disse ‘cá está uma pessoa de visão’, porque é preciso avançar, é preciso provar, e das três frequências semanais passar a voos diários”, defende, sustentando essa medida como “um grande salto de qualidade” para o homem de negócios.  “Se for voo diário deixa-se de se fazer contas à partida, já se sabe com o que se conta, e isso, parecendo que não, tem um grande impacto na qualidade do serviço e na atratividade”, adianta. 

Macau-Pequim-Lisboa: Como ir

Inaugurada a 26 de julho, a nova rota da Capital Airlines abriu com três frequências semanais – à quarta-feira, sexta-feira e domingo – entre a cidade de Hangzhou, na costa leste da China, e Lisboa, com paragem em Pequim, e permite conexão a partir do aeroporto de Macau. Numa simulação feita pela agência Lusa com duas semanas de antecedência para uma viagem em agosto – tanto num motor de busca como através de uma agência de viagens –, era possível comprar um bilhete de ida e volta por menos de 6,500 patacas e fazer a viagem em menos de 22 horas.

A mesma ligação à partida de Macau pode, em teoria, ser feita através da Air Macau, que tem três voos diários para Pequim e um acordo geral com a Capital Airlines, subsidiária do grupo chinês HNA, que por sua vez é acionista da TAP, através do consórcio Atlantic Gateway e da companhia brasileira Azul. Em teoria, porque, apesar da parceria entre a Capital Airlines e a Air Macau existir desde o início da rota Pequim-Lisboa, à data não é possível ao cliente final comprar online um bilhete combinado Air Macau/Capital Airlines, nem muitas agências de viagens têm conhecimento do produto.

“[Alguns] agentes de viagens têm o produto e podem vender. Isto já é possível com o ‘master agreement’, mas a tarifa é bastante mais cara. Assim que assinarmos o ‘Special-Pro-Rate-Agreement’ o preço vai ser mais realista para o mercado”, disse à agência Lusa Winston Ma, gerente-geral da Air Macau para o Sul da China.

“Do ponto de vista do consumidor, não acho que seja ainda competitivo o suficiente, por isso é que temos de aprofundar o acordo de ‘Special-Pro-Rate-Agreement’”, sublinhou.

Não há ainda uma data para a assinatura do novo acordo. “Pode demorar cerca de quatro semanas, depende da negociação entre as partes. Há uma série de ajustamentos que é preciso fazer e discutir entre as companhias, incluindo disponibilidade de lugares”, observa. 

O acordo em causa não se aplica, contudo, ao cliente final. Na prática, vai continuar a ser impossível para o passageiro procurar e marcar uma viagem combinada Air Macau/Capital Airlines através de um motor de busca, mas a ideia é  esta vir a estar disponível em agências, esclareceu Winston Ma.

 

Potencial do mercado

Desde 26 de julho, a Air Macau é simultaneamente parceira e concorrente da Capital Airlines à partida de Macau. Antes, a companhia de bandeira Macau já tinha em vigor um ‘code-share’ com a Air China, com possibilidade de chegar a Lisboa após duas escalas. “Estamos a quebrar o gelo. (…) Agora podem partir de Macau, via Pequim, através das nossas companhias parceiras e isso traz maior conveniência”, afirma Winston Ma.

O responsável da Air Macau destaca o leque de possibilidades das duas operações: “A Capital Airlines oferece um destino (Lisboa) no qual talvez este mercado esteja interessado, mas a Air China tem destinos globais, por exemplo, para as Américas e para a Europa, e também tem parcerias com as companhias aéreas portuguesas”, afirmou, destacando que com escala em Madrid, por exemplo, se pode “chegar a Lisboa”.

Até ao início de agosto, a Air Macau não registou qualquer venda de bilhetes combinados com a Capital Airlines. Winston Ma diz que a empresa vai tentar impulsionar as vendas pelas duas transportadoras parceiras e que “tudo depende da capacidade do mercado e das escolhas dos consumidores”.

“Ainda estamos a olhar para a dimensão do mercado de Portugal”, diz, citando um estudo segundo o qual “toda a área do sul da China, incluindo Hong Kong, corresponde a cerca de duas mil viagens de ida e volta por mês destes destinos para Portugal”.

“Neste momento não temos nenhum objetivo definido, mas estamos a monitorizar. Não só estamos a olhar para os passageiros que partem de Macau, como também para os passageiros que podemos trazer de Portugal para Macau”.

Fátima Valente-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

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