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Braço de ferro

Membros do Conselho do Património explicam ao PLATAFORMA porque a maioria decidiu que a zona dos Estaleiros Navais de Lai Chi Vun não deve integrar a lista de bens imóveis classificados. Defendem a conservação, mas não nos moldes que quer a população. 

Dos 17 membros do Conselho do Património Cultural presentes na votação sobre o futuro dos Estaleiros de Lei Chi Vun, 14 votaram contra a conservação como património cultural. O Instituto Cultural (IC) recusou-se a divulgar a posição dos responsáveis ao PLATAFORMA, mas o jornal falou com grande parte dos membros que explicam porque estão contra à classificação dos estaleiros navais em Coloane.

O arquiteto Carlos Marreiros é a exceção. Faltou à reunião porque estava doente, mas se tivesse presente teria votado a favor da classificação. “Não há nenhuma razão para não ser conservado. A legislação foi feita para preservar o património”, defende.

Mais de 80 por cento dos membros do conselho votou contra a classificação como bem imóvel dos estaleiros por receio de que implique obstáculos à intervenção na zona, tendo em conta que passam a estar protegidos e sob as regras da Lei da Salvaguarda do Património Cultural. “É a primeira vez que ouço esse argumento. A lei foi criada para proteger o património e agora cria constrangimentos. Há aqui um paradoxo que não entendo”, critica Marreiros.

Aquando da reunião, a presidente do IC referiu que a votação tinha sido à porta fechada para evitar que os membros do conselho fossem alvo de “preconceitos” e para que debatessem sem preocupações. O IC referiu ainda que os custos para restaurar de acordo com a aparência original foi mais um motivo que levou a maioria a votar contra a classificação.

O historiador Cheang Kok Keong invoca o princípio de confidencialidade do Conselho de Património – “Não é conveniente revelar o sentido do meu voto ou dos restantes membros” -, mas acaba por revelar que a maioria do organismo concorda com a posição do Executivo. “O Governo já disse que quer revitalizar Lai Chi Vun. Mas também explicou que considerá-lo património cultural não é a melhor maneira de preservar porque os estaleiros estão num estado muito instável.”

O geólogo Li Jiazeng também não revela como votou, mas opina. “Considerar os estaleiros património cultural pode levantar problemas no futuro ao nível da revitalização. Não vamos preservar os estaleiros apenas porque os queremos ter, mas porque queremos que mantenham a essência e contem a história da indústria naval aos residentes e futuras gerações”, realça.

Em abril do ano passado, numa das reuniões do conselho, Li propunha que se fizesse um museu sobre a longa história da construção naval da região e defendia a possibilidade de uma candidatura a 

às boas práticas do Património da Humanidade da UNESCO. Hoje entende que, caso sejam considerados património, será difícil desenvolver projetos de revitalização como, por exemplo, fazer o tal museu.

O jornalista Lei Ip Fei também se recusa a divulgar o sentido do voto. “Se revelasse, estaria a violar as regras do conselho”, justifica-se.

Mas, e à semelhança dos restantes, faz questão de partilhar o que pensa. “Não estamos a dizer que a infraestrutura não é património porque não os classificarmos como tal. Algumas pessoas acham erradamente que é isso que estamos a fazer. É claro que os estaleiros são património.”

E, ressalva: “A questão chave é como os vamos revitalizar. Se passam a ser património cultural podem ser reparados mas será difícil revitalizá-los. Não estou a dizer que é impossível, mas é difícil.”

Ben Leong também se recusa a divulgar o voto. “Se me perguntar como devemos preservar Lai Chi Vun, posso partilhar a minha opinião, mas não é conveniente responder à pergunta de como votámos.”

E avança: “Considerar as infraestruturas património cultural não é a única maneira de as preservar”. 

Ip Tat é direto. “Certamente não concordei em colocá-los na lista de património porque iria restringir o desenvolvimento futuro.”

O objetivo do Governo, garante, é revitalizar os estaleiros. “Alguns residentes assumiram de forma errada que excluir os estaleiros da lista de património significa que vão ser demolidos.”

Alternativas

O engenheiro Lee Hay Ip explica: “O título de património acaba por prejudicar a conservação da estrutura porque nos vai impedir de intervir quando quisermos. A lei do património tem muitas restrições.”

Cheang Kong Cheong considera que nem todas as partes de Li Chi Vun devem ser conservadas tendo em conta o mau estado. “Macau não tem experiência suficiente na área da preservação de património industrial nem predisposição para o fazer”, defende.

O arquiteto Carlos Marreiros discorda: “Já há tecnologia para recuperar estruturas como estas e pessoas capazes de o fazer. E se não há aqui, vai-se buscar fora”.

Já Ip Tat reitera: “Talvez alguns residentes não tenham percebido que se passam a ser considerados património cultural, os estaleiros têm de ser preservados na totalidade. Quatro ou cinco estão danificados. Sem dúvida que devemos reparar e manter os que estão em bom estado e, ao mesmo tempo, fazer dos restantes museus ou outros espaços”.

E insiste: “Esta opção de revitalização será mais útil do que impor restrições ao desenvolvimento da zona. Porque é que serem património pode causar problemas? É impossível aumentar ou reconstruir mesmo que seja só uma parte”.

O arquiteto Ben Leong explica que os bens imóveis classificados – que, segundo a legislação local, se dividem em monumentos, edifícios de interesse arquitetónico, conjuntos e sítios – obedecem às mesmas regras. O que, para o arquitecto, devia ser alterado. 

“Em Hong Kong, os edifícios históricos são classificados por graus. Os que estão incluídos no Grau I não podem ser alterados, mas os de Grau III já podem. Em Macau, não se pode alterar qualquer edificío ou espaço que seja considerado património.”

O arquiteto reforça que a classificação pode ser prejudicial já que há alguns estaleiros em mau estado. “Concordo que é um espaço único que transporta a nossa memória coletiva. E também acho que a zona deve ser preservada. Mas atrevo-me a dizer, como referiu o Executivo, que ser considerado património pode levantar problemas à conservação da estrutura e corre-se o risco de não conseguirmos preservar a sua unicidade”.

Declaração de intenções

O Governo, defende Cheang Kok Keong, tem de apresentar uma proposta completa sobre o desenvolvimento da zona. “A decisão do Conselho não significa o fim de Lai Chi Vun”.

Já Li Jiazeng reforça que não incluir os estaleiros na lista de património não significa que vão ser destruídos. “O Conselho preocupa-se verdadeiramente com a preservação e a revitalização de Lai Chi Vun”.

É preciso intervir já, alerta Lee Hay Ip. “É possível que não resistam à época de tufões. Vamos parar de perder tempo.”

Carlos Marreiros, o único dos membros do conselho com quem falámos que disse que votaria a favor, recorda que listar os estaleiros como património também é importante para uma das metas delineadas pelo Governo central: criar a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau e fazer dela uma região metropolitana de nível mundial. Tornar-se um “centro mundial de turismo e lazer”, uma “plataforma entre a China e os países de língua portuguesa” e uma “base de cooperação e diálogo” são as funções de Macau.

 “Quando se fala dos projetos da Grande Baía, estes estaleiros têm uma relação com as indústrias similares dessa zona.”

O PLATAFORMA contactou todos os membros do Conselho do Património. Os que não são referidos no texto recusaram-se a prestar declarações. 

Estaleiros Lai Chi Vun

Os estaleiros Lai Chi Vun começaram a ser construídos em 1950. São o maior grupo de estaleiros navais de Macau e um dos maiores legados de património industrial da construção naval da região do Sul da China. São um marco da construção do século XX, e refletem a organização e modo de vida da comunidade da vila de Lai Chi Vun, em Coloane. A construção naval foi uma das grandes indústrias tradicionais de Macau, determinante para a economia local. Em 1952, havia cerca de dois mil barcos de pesca e mais de 20 estaleiros ainda em funcionamento. Em 90, eram 40 e empregavam perto de 800 funcionários. Resistem 16 estaleiros em Lai Chi Vun. 

Catarina Brites Soares *  06.07.2018

* com Davis Ip

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