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Cidades do futuro

O estúdio luso-brasileiro de intervenções urbanas e culturais, Sobreurbana, foi convidado para ser membro da Guangzhou Public Artist Association. A ideia é ajudar a reformar o espaço público de Cantão com a intervenção da comunidade. Macau vai ser o intermediário.

Estiveram na Semana de Arte Urbana e no Fórum de Imagem e Design da Cidade de Guangzhou por um misto de “sorte e oportunidade”. A Guangzhou Public Artist Association (GPAA), organizadora, procurava projetos que juntassem urbanismo, arte e comunidade. O Conselho Internacional dos Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP) – entidade parceira da GPAA – procurou exemplos no mundo lusófono e sugeriu o projeto Casa Fora de Casa, do estúdio de intervenções urbanas e culturais Sobreurbana. 

“O convite da GPAA e da CIALP teve por base o interesse manifestado pelo Governo de Cantão em trabalhar mecanismos que promovam uma relação mais estreita entre os habitantes e os espaços públicos da cidade”, explica André Gonçalves, à frente do projeto.   Na apresentação que fez em Cantão do projeto Casa Fora de Casa, estiveram presentes membros do Governo local, designadamente o presidente da Câmara da cidade e o chefe do departamento de urbanismo. A ideia conquistou profissionais e políticos. “O feedback foi excelente, já que, aparentemente este tipo de prática não é conhecido no território. No dia em que fiz a apresentação fui convidado para ser membro da GPAA.”  

A GPAA – uma rede internacional e interdisciplinar de pessoas e entidades que usam a arte para melhorar os espaços públicos -, o CIALP – cujo trabalho também passa por promover a cooperação de ideias e projetos entre o Continente, Macau e os países de língua portuguesa – e o estúdio vão agora definir como se vai desenhar a parceria. Ainda sem estar claro de que forma, a ideia passa por ter Macau como intermediário. 

O objetivo é articular uma rede de artistas, arquitetos, urbanistas, designers, geógrafos, biólogos, empreendedores, académicos e decisores políticos para melhorar a qualidade de vida das cidades. O trabalho conjunto vai incluir a ativação e revitalização de espaços públicos, preservação do património e herança cultural, proteção ambiental e sustentabilidade. 

André Gonçalves diz ter sentido haver uma verdadeira vontade política de Cantão, capital da província de Guangdong, em “humanizar a cidade” e “melhorar a experiência do quotidiano”. “Há potencial para se experimentarem novos projetos que envolvam mais as comunidades na construção dos lugares”, afirma. 

O português e a brasileira Carol Farias, fundadores do estúdio Sobreurbana, são a cara do Casa Fora de Casa. O projeto procura envolver a comunidade na construção dos espaços públicos das cidades que, como realça André Gonçalves, “são de todos e por isso deveriam ser pensados para e por todos”. Gonçalves explica que o nome representa a visão que o comunicador e a arquiteta procuram passar de que a cidade é uma “continuação da casa”. “Por isso temos o direito e a obrigação de os cuidar”, defende.

A ideia surgiu por sentirem que as pessoas se desresponsabilizam perante o espaço público, e que a construção dos lugares comuns está muitas vezes entregue a especialistas “fechados num escritório, sem conhecimento pleno das culturas e comunidades” que os ocupam. “Acreditamos que as pessoas cuidam mais do que conhecem e com o qual se identificam. Caso contrário, limitam-se a queixar-se e a ficar à espera de que o poder público resolva os problemas”, afirma.

A primeira edição do projeto foi realizada em Goiânia, capital do Estado de Goiás, no Brasil, e recebeu o prémio de Melhor Ação Urbana Participativa, no I Encontro de Urbanismo Colaborativo, realizado no ano passado em Curitiba, também no Brasil. Agora está na mostra da Bienal de Arquitetura de São Paulo, a decorrer até janeiro do próximo ano.

Alterar a ordem

O processo de reconstrução do espaço público implica várias fases, tendo sempre a comunidade como protagonista já que, e “apesar de leiga” em matéria de urbanismo e arquitetura, é quem conhece e sente os problemas. “Procuramos fazer a ligação entre o poder público, que é quem decide, e a população, que é quem usa”, resume André Gonçalves.

Ainda que haja pilares que são indissociáveis do projeto – como a colaboração e inclusão de diferentes vozes -, há abertura para que se adaptem ferramentas e metodologias às características de cada local, comunidades, recursos disponíveis e objetivos. É por isso que André Gonçalves acredita que o conceito se pode vingar nesta parte do mundo. 

O oriente não lhe é estranho. Viveu em Macau dois anos, quando tinha 14. Diz que foi na cidade e na Ásia que desenvolveu uma nova forma de olhar e viver o espaço. 

“Macau, por ser um ponto de encontro das mais diversas culturas, proporcionou e ainda proporciona essa experiência de eterna descoberta, que é o que torna a vida na cidade fascinante”, realça. 

Agora, e pelo ofício, repara e acrescenta outros detalhes. “É uma cidade particularmente fascinante porque muita da sua vida acontece na rua e nas praças. Talvez devido ao preço da habitação, o espaço público é a sala de estar de muita gente. As zonas pedestres de algumas ruas, o ‘wi-fi’ gratuito, a existência de bancos, casas de banho e caixotes de lixo, facilitam a permanência das pessoas no espaço público”, nota. 

O comunicador sente, no entanto, que há aspetos a corrigir. A falta de esplanadas, o trânsito “antipático” aos peões, as “gaiolas” que revestem muitos prédios – “e que transmitem insegurança” – foram alguns traços que incomodaram André Gonçalves na passagem por Macau. “Alguns são temas fraturantes e difíceis de resolver. Necessitam de uma forte participação popular, mas devidamente informada e capacitada para construir”, considera.

Por isso, os projetos que hoje desenvolvem juntam urbanismo, cultura e comunicação, sempre partindo da aproximação entre a comunidade e o poder político. “A comunicação com o Governo começa desde o primeiro minuto. Sem o seu aval, todo o esforço é em vão. É positivo que as autoridades também queiram fazer parte do processo e que tenham abertura para pensar fora da caixa”, realça.

Carol Farias e André Gonçalves voltam a Macau no segundo semestre do próximo ano, e quem sabe já para começar a trabalhar. “Confesso que já tinha iniciado um plano audacioso de viver e trabalhar entre Portugal e o Brasil. Agora fiquei muito tentado em juntar Macau e a China continental à equação”, revela.

Ao contrário da colega e companheira Carol Farias, formada em arquitetura e urbanismo, André Gonçalves vem das artes e comunicação. “O meu interesse pela área surgiu quando me apercebi que posso fazer a diferença. Mesmo sem formação técnica, ou talvez por ausência dessa formação, consigo desenvolver uma perspetiva diferente”, entende.

Afinal de contas, frisa, conceber e repensar o espaço são coisas que fazemos desde pequenos. “Todos fazemos a cidade, embora por vezes não tenhamos consciência disso. Quem é mais especialista, o cidadão que vive o espaço quotidianamente ou o técnico que o conhece através de uma planta?” 

Sou Hei Lam

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