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Cultura com limites

A primeira edição do “Encontro em Macau – festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa” termina no domingo. No fim de semana passado, também teve lugar a primeira edição do Fórum Cultural entre a China e os Países de Língua Portuguesa. O objetivo é que se tornem eventos anuais e façam de Macau um ponto de encontro entre os territórios também ao nível cultural. O PLATAFORMA falou com artistas e personalidades ligadas ao setor sobre a iniciativa. Todos defendem que Macau não pode ser uma plataforma cultural. Pelo menos, por enquanto. 

A-     O que tem de ter uma plataforma entre a China e os países de língua portuguesa?

B-     O que falta a Macau para ser essa plataforma?

C-     É um objetivo realista?

James Chu

Presidente da Associação dos Designers de Macau

A. Tem de ser um verdadeiro ponto de encontro de ideias e culturas, onde não parem de surgir novas formas de pensar. O que mais quero é que haja mais desenvolvimentos ligados à arte e design que transformem a cidade – tanto na aparência como na mentalidade. 

B. Falta talento e visão, visão que tenha em conta o panorama global. 

C. É definitivamente uma ideia realista. 

Filipe Dores

Pintor

A. O espaço lusófono não é um único lugar físico. Inclui América Latina, África e a Ásia. Neste espaço, já existem várias culturas e valores diversos. E a estes juntam-se ainda os da cultura chinesa. Se tal cidade existir, deverá ser imensamente rica. O que a cidade mais precisa é de espaço físico.

B. Em termos de estrutura demográfica, se Macau atraísse mais cerca de 30 por cento de portugueses a cidade mudaria completamente.

C. É um conceito. Macau continuará a apostar na intenção original: ser uma plataforma comercial. Negócios são negócios. O que poderá acontecer é essa componente cultural surgir a partir da comercial. No que diz respeito ao desenvolvimento da cultura lusófona, é melhor deixar isso com a Companhia de Jesus. Já têm grande experiência na área, tendo em conta que grande parte do território lusófono é católico. 

Nathalie Chan

Professora de Pintura e pintora

A. Seria um local onde haveria uma verdadeira combinação entre as culturas ocidental e chinesa. Macau poderá melhorar a relação com a comunidade de países lusófonos. O ideal seria claramente desenvolver uma relação pacífica, amigável, compreensiva e harmoniosa entre as duas culturas. 

B. Depois da transferência de soberania, muitos portugueses deixaram a cidade. Neste momento, representando apenas 0,6 por cento da população de Macau. Mesmo sendo o português uma das línguas oficiais, existem poucos habitantes bilingues. O bilinguismo e as trocas culturais entre os dois lados não são suficientemente incentivados. Muitos dos habitantes de Macau conhecem muito pouco da língua, cultura, conhecimento e tradições dos países lusófonos. 

C. Acredito que é um projeto exequível. No final de contas, a Iniciativa chinesa “Uma Faixa, Uma Rota” já chegou a países lusófonos e à Europa, incentivando até vários habitantes de Macau a estudar português. Nas próximas décadas, acredito que poderá haver um grande número de habitantes bilingues. Desde que estudem, arduamente, irá haver frutos. Macau oferece apoio financeiro aos locais que queiram estudar português, o que é um ótimo começo.

Yang Sio Maan

Ilustradora

A. paços ganham um ambiente e vida fantásticos, implicando grandes eventos e pequenas atividades que promovam trocas culturais entre associações e residentes.

B. Na minha opinião, ainda falta o papel de intermediário: pessoas que compreendam a cultura chinesa e ao mesmo tempo estejam familiarizadas com as culturas dos países lusófonos. Alguém que possa indicar qual o caminho a seguir e que faça a ligação entre os dois lados. As relações existentes ainda são muito superficiais. Macau continua presa à imagem de fusão entre Ocidente e Oriente sem tomar medidas no sentido de ter um novo significado para os dois blocos. E é por isso que não há resultados.

C. Com base na situação atual, acredito que será algo difícil de concretizar. Isto porque quem neste momento está a promover esta ideia não o faz por realmente querer ver Macau como plataforma cultural, mas sim para depois poder usar esse estatuto na promoção de Macau como destino turístico. Assim, como pode Macau transformar-se numa plataforma cultural entre a China e países lusófonos?

Esther Lim

Presidente da Star Rise Cultural 

and Creative Association

A. Seria com certeza um lugar com arquitetura, alimentação e línguas chineses e de países lusófonos. Um lugar onde pessoas de várias origens se relacionam e misturam, casam e têm filhos mestiços. Na cidade seria organizado um ou dois eventos anuais sobre a integração destas várias culturas. Seria um lugar onde ver uma criança mestiça é algo normal. 

B. Atualmente muito poucas pessoas entendem português. Também acredito que algumas das pessoas que promovem a ideia desta nova mistura de culturas na verdade não possuem nenhum carinho verdadeiro, não compreendem ou valorizam as culturas dos países lusófonos.

C. Acho que será relativamente difícil. Quando Portugal governava Macau, várias pessoas estudavam português para trabalhar na função pública. Como é que atualmente não há nem uma única série televisiva luso-chinesa? A verdade é que a língua portuguesa nunca foi popular em Macau. Além disso, a cidade está bastante distante de qualquer país lusófono. Acho que quem está a promover esta ideia ainda não fez uma análise e pesquisa completas. Parece-me que ainda não têm um plano concreto.

Mathew Lam

Fundador do Estúdio Musical 3AM

A. Teria com certeza vários locais com um ambiente semelhante a alguns países lusófonos, como por exemplo uma rua de bares ou outros pontos atrativos com elementos culturais e com uma arquitetura com características lusófonas. Haveria músicos de rua das várias partes, assim como música dos países lusófonos em lojas e outros locais. 

B. Falta principalmente um ambiente cultural. Mesmo que se peça a Macau para promover a cultura lusófona e tornar-se uma plataforma entre a China e os países de língua portuguesa, não há uma motivação verdadeira para o fazer. Na verdade, já estamos rodeados pela cultura luso-chinesa, por exemplo na arquitetura, e não é por isso que interagimos diretamente com essas culturas ou que fazem parte da nossa vida diária. 

C. É importante ter um slogan, mas um slogan não chega para atingir um objetivo como este. É possível, mas depende do empenho dos responsáveis.

Paul Pang

Escritor de livros para crianças

A. Seria como Macau, naturalmente existem macaenses na cidade!

B. Colegas meus dizem que falta espaço de estacionamento. Eu acho que existe falta de confiança cultural. Os habitantes de Macau não compreendem, verdadeiramente a história e cultura de Macau, e não gostam de produtos macaenses (exceto os  da produtora Manner Production).

C. É como uma linha ferroviária, é viável, mas difícil de concluir.

Terri Lui

Diretora do espaço cultural 

Old House Studio

A. Se o objetivo for, simultaneamente ter um local com elementos culturais chineses e de vários países lusófonos, não será tão simples como uma comunicação e interação entre dois locais diferentes. O conceito de mundo lusófono é muito alargado. Geograficamente falando, abrange a Europa, África, Ásia e a América Latina, e tal como acontece na China, as culturas existentes dentro deste espaço são variadas. Muito dificilmente imagino uma cidade, especialmente uma tão pequena como Macau, a assumir um papel tão importante como espaço de troca cultural. Trocas culturais como estas são, maioritariamente, desenvolvidas de forma lenta devido a fatores contextuais e históricos. Dificilmente se concretizam devido à vontade do Governo ou da população.

B. É necessário tempo para desenvolver uma sociedade. Neste momento existem cada vez mais oportunidades de trocas culturais. Por exemplo, todos os anos existem várias atividades ligadas à lusofonia, vários estrangeiros visitam Macau, e cada vez mais habitantes de Macau têm oportunidades de visitar o estrangeiro. No entanto, ainda não assistimos à concretização de relações culturais a um nível mais profundo.

C. Ainda é demasiado cedo para saber, não sou capaz de fazer previsões. É necessário ver a forma como a sociedade de Macau vai atuar. Para conseguir alcançar algum sucesso será preciso criar um ambiente social de curiosidade e abertura para com outras culturas, podendo o Governo investir em recursos para criar esse ambiente social.

Derrick Tam

Presidente da Associação para a Reinvenção de Estudos do Património Cultural de Macau

A. Um lugar repleto de fatores culturais chineses e lusófonos iria, provavelmente, levar ao aparecimento de uma nova mistura linguística, tanto oral como escrita. Macau, como ponte entre a China e Portugal, já possui a estrutura e ambiente necessários. Se a este “hardware” adicionarmos um ambiente linguístico (software) também mais variado, acredito que os chineses em Macau comecem a introduzir ao cantonês algum vocabulário português, tal como fazem com o inglês.

B. Macau precisa neste momento de habitantes locais que dominem ambas as línguas. Não necessariamente “talentos”, mas locais que consigam no dia-a-dia utilizar as duas línguas. É um problema deixado pela história, que precisa de ser resolvido por esta nova geração. 

C. Acredito que Macau poderá transformar-se numa plataforma entre a China e o mundo lusófono, mas os esforços precisam de ser maiores. O Governo precisa de mostrar mais determinação, por exemplo, com medidas de alteração no sistema educativo que mudem a atitude dos habitantes de Macau e faça com que se deixe de valorizar o inglês mais do que o português. Por vezes, o conhecimento da língua portuguesa oferece uma melhor visão sobre o mundo. É muito semelhante ao espanhol. Ambas as línguas são usadas por grande parte da população mundial que não fala inglês. Alguém que domine o chinês, o português e o inglês terá muito mais capacidade para desenvolver o seu potencial.

Davis Ip 13.07.2018

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