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Em busca de grandes MICE

A indústria das reuniões, incentivos, convenções e exposições (MICE, na sigla inglesa) continua a crescer a um ritmo relativamente pequeno com o apoio do Governo, persistindo dificuldades nas acessibilidades ao território e na contratação de mão de obra, referem os analistas contatados pelo PLATAFORMA.

As perspetivas de crescimento do setor MICE em Macau são boas, de acordo com o Governo, estando prevista a realização de eventos de grande envergadura no decurso deste ano. Mas os analistas contatados pelo PLATAFORMA referem que persistem alguns obstáculos, como as dificuldades no acesso ao território e na contratação de mão de obra.

De acordo com a Direção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), no segundo trimestre deste ano, registaram-se 318 atividades, dos quais 292 foram convenções e reuniões, enquanto houve 18 exposições e oito eventos de incentivo. No mesmo período do ano transato, houve 320 eventos, dos quais 304 foram reuniões. Além disso, segundo a DSEC, na primeira metade do ano, o número de convenções e reuniões subiu para 10 e houve mais 13,8 por cento participantes. Na primeira metade de 2016, realizou-se um número total de 628 eventos MICE, que atraíram 588.000 participantes.

O presidente da Associação de Convenções e Exposições de Macau, Alan Ho Hoi Ming, afirma que, depois de um “arranque rápido em 2007”, a indústria está agora “numa fase de desenvolvimento estável”.

Citando as Linhas de Ação Governativa (LAG) de 2016 — documento que estabelece anualmente a estratégia do Governo — que mencionam que a indústria MICE deve apostar, em primeiro lugar, nas convenções, o dirigente esclarece: “Macau possui espaços e infra-estruturas de classe mundial que podem acomodar eventos MICE de larga escala”, refere, salientando a existência de 37.000 quartos de hotéis no território. Assim, destaca a organização ainda este ano de eventos como o 11º Congresso Mundial da Seguradora Chinese Life Insurance e o International Dragon Awards, além da reunião magna da Mary Kay China.

Ainda assim, o crescimento não é tão rápido quanto seria expectável, por vários factores. “A falta de voos internacionais diretos, dificuldades alfandegárias, os recursos humanos e programas de formação em MICE associados aos custos operacionais — tais como as rendas, transportes e salários — de organização de um evento e que é caro, quando comparado com as cidades vizinhas”, declara. Além disso, continua o dirigente associativo, o território precisa de “apostar em mais exposições de marca com o seu próprio cunho”.

Aliás, neste momento Macau é mais parceiro das cidades da região da Ásia-Pacífico do que concorrente. “Precisamos de desenvolver uma estratégia com os vizinhos para complementar-nos criando sinergias para transformar esta situação num ganho para todas as partes”, sugere.

Ainda assim, Alan Ho Hoi Ming está “otimista” no progresso do setor quando determinadas infra-estruturas estiverem concluídas, especialmente a ponte que liga Hong Kong, Zhuhai e Macau, por encurtar o tempo de viagem até ao território. “Nessa altura, Hong Kong, Zhuhai e Macau deverão complementar-se”, realça. Não se sabe ainda a data de conclusão da obra, que já devia ter sido concluída em 2016, segundo os prazos inicialmente apontados.

De acordo com o relatório sobre o setor das feiras profissionais da Ásia relativo a 2015, divulgado pelo Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), espera-se que a indústria MICE em Macau continue a crescer acima da média regional nos próximos anos. Em 2015, a indústria das feiras profissionais registou um crescimento anual de 5,9 por cento no que toca à área de exposição total comercializada, e esta taxa foi superior à média regional, fixada em 5,6 por cento.

Passo a passo

Para o diretor executivo da empresa smallWorldExperience e secretário da direção da recém-criada Associação de Reuniões, Incentivos e Eventos Especiais, Bruno Simões, o setor tem crescido, mas podia tê-lo feito a um ritmo mais acelerado. “Podia ter crescido mais se as infra-estruturas tivessem acompanhado os privados — o sistema de metro ligeiro, o  terminal marítimo [de Pac On, cuja conclusão está prevista para os próximos seis a oito meses]”, diz, acrescentando: “Para o setor MICE, o fator número um é a acessibilidade.”

Ainda assim, considera que o território “já está na primeira linha das cidades da Ásia”, funcionando como concorrente. “Por exemplo, em Banguecoque, muitas vezes há instabilidade política e Macau acaba por beneficiar desses incidentes”, afirma, esclarecendo: “Somos uma alternativa.”

Além das acessibilidades, falham outras coisas, como a existência de alternativas aos grandes hotéis para organização de eventos, diz Bruno Simões. “Além dos hotéis, não temos espaços. Um grupo de mais de 200 pessoas dificilmente sai dos resorts para um restaurante; outras cidades têm essa oferta montada”, diz, dando alguns exemplos: “Falta ter acesso a espaços como as casas-museu da Taipa, a vila de Coloane, o lago Nam Van.” Não parecendo tratar-se este de um objetivo do Governo, Bruno Simões defende que devia ser. “É só criar regulamentação para isso.”

Bruno Simões aponta ainda outras dificuldades transversais aos vários setores económicos da cidade e não exclusivos deste setor. “A grande dificuldade é sempre a mão-de-obra — não só no que toca ao nosso pessoal, mas também para os fornecedores; torna a qualidade menor e os preços mais altos; esse é o principal fator que afeta o dia-a-dia de todos — desde o grande hotel até ao freelancer”, declara. “Com isto, também há falta de brio em muitas profissões em Macau”, acrescenta, referindo-se a classes como os condutores de autocarros e operadores turísticos. “O nível de qualidade do serviço é muito inferior a Hong Kong.”

A empresa smallWorldExperience aposta na área dos eventos empresariais, conferências e reuniões, que é, na opinião do diretor executivo, o segmento com maior potencial no território. “Não acredito nas feiras; o próprio Governo deixou de apostar nessa área — outra vez o problema das acessibilidades, não se consegue chegar facilmente a Macau, mas também por falta de base de massa crítica empresarial, há apenas dois ou três setores fortes”, esclarece.

Os subsídios do Governo

Dado o “contínuo apoio do Governo”, o setor cresce, refere o economista Henry Chun Kwok Lei. “Por exemplo, no caso das conferências e exposições, o número de eventos e participantes tem vindo a crescer e Macau pode atrair mais visitantes de qualidades”, diz. Porém, o peso do setor no Produto Interno Bruto é “pequeno” e o setor continua a “receber apoios pesados do Governo”, sendo, por isso, ainda “demasiado cedo” para se dizer que “é bem sucedido”.

Recorde-se que, enquanto agência governamental orientada para o sector, o IPIM tem vindo a desenvolver programas de apoio para estimular a realização de convenções e feiras de negócios, ajudando associações locais a concorrer à organização de conferências internacionais. Os novos programas destinam-se a reuniões de dois dias com um mínimo de 100 pessoas, mais meio dia de atividade corporativa, ou feiras com mais de mil metros quadrados. Os incentivos incluem a cobertura do custo de alojamento e alimentação à promoção e marketing.

No que toca às dificuldades enfrentadas pelo setor, além das acessibilidades, o economista menciona ainda os recursos humanos. “Alguns eventos internacionais são organizados por equipas estrangeiros, em que a participação local é muito limitada”, diz, acrescentando: “Macau está também a enfrentar a concorrência de Hong Kong e Cantão, e o ambiente é, no geral, muito competitivo.” E estas condições “podem não mudar no futuro próximo”.

Sobre o papel que o setor MICE pode ter na prossecução do objetivo de diversificação económica, o analista refere que “é uma direção, ainda que não sejam esperados grandes progressos a curto prazo”. Recorde-se que a economia do território depende sobretudo do jogo e que as receitas deste setor fecharam 2015 com uma quebra de 35 por cento.

Luciana Leitão

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