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FALTA saúde

Mais de 1300 pacientes foram tratados fora de Macau, no ano passado. A falta de recursos e especialistas obrigam os Serviços de Saúde a recorrer ao exterior. Em 2014, o Governo gastou 400 milhões de patacas.*

O filho de Nuno Martins foi tratado em Hong Kong apesar de residir em Macau. É um dos muitos casos que acabam por ser transferidos para a região vizinha por limitações dos serviços de saúde locais.

Já depois de lhe ter sido diagnosticado o Síndrome de Duane numa clínica privada em Portugal, Nuno Martins recorreu ao Hospital Conde de São Januário. “O médico em Macau procurou acompanhá-lo, mas ciente que mais teria de ser feito”, explica. 

O caso foi a Junta Médica, a pedido do pai, que deu o aval para ser tratado na região vizinha. Foi operado duas vezes no Chinese University of Hong Kong Eye Centre e agora volta uma vez por ano para ser acompanhado. 

“Decidiram mandá-lo para Hong Kong uma vez que este problema é muito específico e mais raro. Em Hong Kong, realizou as intervenções e acompanhamento periódico com tudo pago até hoje”, acrescenta Nuno Martins.

Leung, que prefere não ser identificada pelo primeiro nome, também teria preferido que o pai fosse tratado na região vizinha. A gravidade da doença impediu que a família recorresse a Hong Kong, como já tinha feito antes. 

Foi quando o pai começou a cuspir sangue que decidiram ir ao médico. A primeira opção foi o privado Kiang Wu. “Partimos do princípio que nos hospitais privados não temos de esperar. Pensamos que, como pagamos, vamos ter um tratamento mais rápido. Acho que é o principal motivo que leva as pessoas a optarem pelo privado”, considera.

Depois de dois dias hospitalizado, os médicos perceberam que o pai tinha hemorragias internas e foi transferido para o hospital público Conde de São Januário. Esteve internado um mês. Leung refere que foi bem tratado, mas reitera que teria recorrido a Hong Kong se a condição do pai o permitisse. “Acho que em Hong Kong são mais profissionais. Temos uma expressão em chinês sobre os hospitais Kiang Wu e Conde de São Januário que diz: ‘Um custa-te uma fortuna, o outro custa-te a vida’. Os residentes não confiam muito no sistema de saúde em Macau”, defende.

Wong Kit Cheng, enfermeira até ser eleita deputada, confirma. “Sinto que ainda há falta de confiança. Há residentes que não confiam em algumas entidades de saúde e optam por tratamentos no exterior.”

Para a deputada há dois motivos para a preferência: terem mais opções fora e a falta de experiência dos médicos locais. “Não há situações suficientes para haver casos de estudo. É a realidade”, salienta. 

Os números

Em resposta ao PLATAFORMA, os Serviços de Saúde referem que Hong Kong é o principal destino dos pacientes locais quando têm de ser acompanhados fora. 

Em 2017, foram reencaminhados 1310 doentes para a região vizinha (VER TABELA). Doenças oncológicas, vasculares, transplantes de órgãos e medula óssea, eletroterapia e “tratamento de casos complexos” são as principais patologias que levam Macau a recorrer ao exterior.

“Há a possibilidade de os utentes dos Serviços de Saúde serem autorizados a recorrer a cuidados de saúde fora do território por conta deste, quando por falta de meios técnicos ou humanos tais cuidados não possam ser prestados no mesmo”, realçam os Serviços de Saúde.

O PLATAFORMA também quis saber quanto gastou o Governo com os tratamentos no exterior, mas os Serviços de Saúde dizem não ter dados relativos aos últimos anos. 

Uma nota de imprensa emitida pelo Governo – em maio de 2015 – refere, no entanto, que “as despesas efetuadas para a aquisição dos serviços médicos no exterior aumentaram cerca de 11 vezes” se se considerar que “no ano 2000 foram gastos cerca de 30 milhões de patacas e, em 2014, foram gastos 400 milhões”.

Na mesma nota, os Serviços de Saúde sublinhavam que o “mecanismo tem por objetivo principal proteger a saúde dos pacientes, dando pouca importância à despesa e à localidade”.

Consulta externa

O pedido de tratamento externo, explica o organismo em resposta ao jornal, é avaliado pela Junta para Serviços Médico no Exterior.

O caso é proposto pelo médico do doente à Junta, que autoriza o pedido – “quando o Centro Hospitalar Conde de São Januário ou o Hospital Kiang Wu careçam de capacidade e tecnologia para prestar a assistência médica”.

Os casos de pacientes que são enviados para outros destinos – tendencialmente Hong Kong, Taiwan e Portugal – são depois acompanhados pela junta, formada por especialistas escolhidos, anualmente, pelo diretor do hospital público. 

“Sempre foi um sistema eficaz”, garantem os Serviços de Saúde.

As viagens para Hong Kong são normalmente de barco e para o Interior da China por terra, “com vista a assegurar tratamentos mais seguros e adequados aos pacientes, evitando agravar a situação do paciente”.

As despesas, acrescentam os serviços, são pagas pelo Governo. 

Já o Hospital Kiang Wu diz nunca recorrer ao exterior, como explica ao PLATAFORMA o departamento de relações públicas. “Alguns dos nossos pacientes podem optar por essa via, mas é por decisão deles.”

O PLATAFORMA procurou ainda saber – junto dos Serviços de Saúde de Macau e das autoridades de Hong Kong – quais entidades de saúde, públicas e privadas, recebem pacientes locais mas sem sucesso. A escolha, repetiram os serviços de Macau, depende da patologia.

Imagem distorcida

Questionados sobre como respondem à imagem negativa que há da saúde local, os Serviços de Saúde recusaram comentar.

O médico José Peres de Sousa defende que a rede de cuidados primários e centros de saúde funciona bem. O problema é o resto. “As pessoas queixam-se quando são necessários outros cuidados como internamentos, exames mais especializados e quando é preciso tomar decisões terapêuticas, que faz parte do hospital”, afirma.

Para o médico, a par de outros, Macau tem um problema de diferenciação de profissionais que faz com que recorrer ao exterior seja incontornável. 

 “Se não há os recursos, têm de se enviar os doentes para outro lado”, frisa. 

Peres de Sousa esteve na direção do hospital público durante um ano e foi responsável por reorganizar o serviço de otorrinolaringologia entre 1993 e 1999. Voltou a Portugal e, em 2007, volta a regressar a Macau. Esteve na Clínica Maló, e agora tem um consultório privado e dá consultas no Hospital Yinkui.

Dos anos que já leva no território, garante que faz mais sentido procurar apoio fora em vez de investir localmente, tendo em conta o reduzido número de pacientes. 

“É mais prático enviar os pacientes e haver acordos, até porque está tudo integrado e cada vez mais vai ser assim. Não há necessidade de termos certos tratamentos, como de radioterapia, que implicam eliminação de detritos e transporte, e que levantam problemas de saúde pública”, exemplifica.

Rui Furtado, que também fez parte da direção do hospital público, realça que as lacunas da saúde existem ainda por ser “extremamente difícil” recrutar médicos com experiência. 

“É sempre complicado mudar de vida aos 50 anos. E este é o motivo principal porque Macau é deficitário em determinadas especialidades. Sugeri durante muito tempo que se fossem buscar médicos reformados. O problema é que, tanto em Hong Kong como na China, continuam a trabalhar fora dos hospitais e ganham muito mais dinheiro.”

Perez de Sousa reitera: “Em Pequim, por exemplo, há serviços muito diferenciados, mas não vêm para cá porque os salários não têm comparação.”

Ainda que reconheça as limitações locais, Rui Furtado recorda: “Há os que vão para fora porque não têm confiança nos Serviços de Saúde e os que vão por snobismo”.

O cirurgião defende que em Macau, como noutros sítios, há bons e maus serviços, e profissionais. “Mas há uma coisa que é constante em todas as partes do mundo: as pessoas que são de fora são tratadas de maneira diferente. E não são mais bem tratadas. Em Hong Kong, onde há um certo grau de xenofobia, que não é assim tão pequeno, são tratadas, não é bem ao pontapé, mas não anda muito longe. E sei por histórias de pacientes”, alerta Furtado, que também foi presidente da Associação de Médicos de Língua Portuguesa.

O PLATAFORMA também procurou falar com o pneumologista Alvis Lo, em tempos presidente da Associação dos Médicos Hospitalares da Função Pública, que se recusou a avaliar a qualidade dos serviços de saúde locais por motivos pessoais.

Défice de confiança 

Miguel Santos, gestor na seguradora AIA que também vende seguros de saúde, fala com base na experiência pessoal e profissional. 

“As pessoas sentem que no hospital público os profissionais se limitam a cumprir. Só fazem o necessário para não haver queixas”, afirma.

Os planos da seguradora incluem hospitais públicos e privados em Macau, e noutras regiões. Os preços anuais variam entre as quatro mil e as 20 mil patacas, em função da idade. Os clientes, adianta, tendem a preferir os privados de fora.  

“Em Hong Kong oferecem melhor alojamento, alimentação, tratamento e os médicos são muito mais experientes e têm mais formação. É por isso que os residentes tendem a preferir Hong Kong e Tailândia”, refere.

Miguel Santos diz que, em Macau, se cresce a ouvir que a saúde é má e que os profissionais no público se limitam a cumprir. “Mas é verdade que Hong Kong e outros territórios oferecem melhores serviços porque investem mais. Nos rankings, Tailândia, Japão e Hong Kong estão no topo”, sublinha.

O tempo de espera, sobretudo no hospital público, é a eterna queixa, mas esse não é o principal problema para Miguel Santos. “O problema é o nível dos médicos, que decresceu. Muitos formam-se em universidades da China, como Zhuhai. Provavelmente, a formação é igual a outros locais, mas depois não têm experiência.”

Enquanto paciente, diz não ter críticas ao serviço público, mas admite que quando foi operado preferiu os cuidados no privado da Universidade de Ciência e Tecnologia. “Têm melhores serviços e profissionais, e os médicos são mais experientes. São uma entidade privada e por isso podem contratar médicos melhores porque pagam melhor”, acredita.

Rui Furtado confirma que há áreas problemáticas pela dimensão do território. “Os serviços muito específicos têm um problema: não há um número de casos suficientes para manter os especialistas. Cirurgia geral há muitos casos e por isso as pessoas mantêm o seu nível de treino e exercício, mas mesmo assim há áreas em que há poucos casos. E aí já é muito complicado.”

Em 2017, havia cerca de 1730 médicos e 2397 enfermeiros. Destes, perto de 500 médicos e 1200 enfermeiros trabalhavam nos Serviços de Saúde.

Questionados sobre onde são formados os profissionais que exercem no público, os Serviços de Saúde optaram por não dar a informação. Justificam que é difícil já que médicos ou enfermeiros têm vários fases de formação, além da licenciatura.

Já o Kiang Wu tem cerca de 300 médicos e perto de 900 enfermeiros. A maioria formados no Continente. “Como não há uma faculdade de medicina em Macau, a maioria dos nossos médicos formou-se na China. Os enfermeiros vêm sobretudo do Instituto Politécnico de Macau e da Escola de Enfermagem do Kiang Wu, mas também contratamos alguns do Continente”, refere a relações públicas ao jornal. 

Soluções

O Hospital das Ilhas, ainda em construção, é uma das apostas para aumentar a capacidade de resposta do território. O segundo hospital público só deve abrir no próximo ano – ainda durante o mandato do atual Chefe do Executivo – depois de adiamentos e derrapagens orçamentais sucessivos. Inicialmente, a inauguração chegou a estar prevista para 2014. Até agora, já se gastou cerca de dois mil milhões de patacas no projeto delineado há quase dez anos. 

O hospital vai ter 1100 camas, mais dos que as cerca de 630 inicialmente previstas. Macau ficará assim com uma média de 3,4 camas por cada mil residentes. A estrutura integra também o Instituto de Enfermagem.

Há quem defenda que, além da formação de enfermeiros, Macau devia investir numa Faculdade de Medicina para colmatar a carência de médicos. Rui Furtado discorda: “As universidades vivem de pós-graduações e não temos condições para as ter. Não temos número de casos, não temos patologias, suficientemente diferenciadas para fazer isso”.

A considerar-se, argumenta, teria de ser em colaboração com o exterior. “Daqui a uns anos, quando as fronteiras forem abolidas, talvez seja mais fácil fazer isso. Criar uma universidade ou escola médica demora tanto tempo que, entretanto, vai cair quase em 2050”, alerta Furtado, referindo-se à data do fim da Declaração Conjunta, instrumento que garante “os atuais sistemas social e económico”, as “leis vigentes” e a “maneira de viver de Macau” até 2049.

Peres de Sousa reforça que não faz sentido ter uma faculdade de medicina. “Justifica-se ter bons acordos. Já temos boas universidades aqui ao lado, em Hong Kong e em Taiwan.”

Wong Kit Cheng reitera: “Macau é tão pequeno. Teríamos alunos? Os estudantes escolheriam uma universidade nova?”

O PLATAFORMA sabe que a Universidade de Ciência e Tecnologia (MUST, na sigla inglesa) apresentou uma proposta ao Gabinete de Apoio ao Ensino Superior para abrir uma licenciatura de Medicina. Trata-se de uma proposta inicial que por enquanto está sem resposta.

Wong Kit Cheng retoma a questão da formação e insiste que o Executivo deve investir num instituto onde os médicos, depois de terminada a licenciatura, possam formar-se. “É muito mais urgente apostar na especialização do que em formação base”, defende.  

É isso que pretende o Governo com a Academia de Ciências Médicas de Macau – cuja abertura chegou a estar agendada para o ano passado – que terá como objetivos a formação contínua dos médicos e de especialistas.

Tanto Peres de Sousa como Furtado concordam que se devia manter o modelo de colaboração com o exterior, ainda que com alterações. 

“Se um paciente quer ir para Portugal ou para a China, não tem de ser obrigado a ir para Hong Kong. O tratamento é, seguramente mais barato e o doente vai para onde quer. Quando se contraria a opção de uma pessoa de ser tratada num determinado sítio, está-se-lhe a tirar 20 por cento da qualidade do tratamento. O doente vai à partida desconfiado”, alerta.

Já a deputada Wong Kit Cheng entende que é fulcral apostar em duas frentes para melhorar a resposta: criar um sistema de partilha de informação entre as duas principais unidades hospitalares – hospitais Kiang Wu e Conde de São Januário -, e ter noção de quantos médicos e especialistas necessita Macau. 

Uma estimativa que os Serviços de Saúde dizem não ter, em resposta ao PLATAFORMA.

Wong acrescenta ainda que o Executivo devia apoiar mais o privado. “O Governo diz, repetidamente, que o sistema de saúde de Macau inclui entidades públicas e privadas, mas o apoio que dão aos privados não é suficiente. Não devia focar-se apenas no hospital público e nos seus profissionais”, insiste. 

Apesar das críticas, Furtado garante que não há motivos para desconfiar da saúde local. “O que fazem, fazem bem feito. Quando não fazem é porque não têm capacidade técnica, mas esses doentes estão salvaguardados, pelo menos nos hospitais públicos.”  

*O PLATAFORMA pediu uma entrevista ao diretor dos Serviços de Saúde, Lei Chin Ion, que recusou.

Catarina Brites Soares  08.06.2018

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