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“Macau pode fazer mais e melhor”

O presidente do Instituto Politécnico de Macau defende que a região tem de saber tirar maior proveito do que a faz singular: a cultura e língua portuguesas. A presença do português foi uma das batalhas de Lei Heong Iok enquanto liderou a instituição que deixa no próximo mês.

Sai do Instituto Politécnico de Macau (IPM) depois de 19 anos como presidente. Lei Heong Iok reforma-se com a certeza de que o futuro do instituto e do português estão assegurados se não houver “políticas erradas”. Em entrevista ao PLATAFORMA lamenta nunca ter conseguido fazer do IPM uma universidade e assume sentir que há cada vez “mais interferência” no ensino. Com 65 anos, Lei diz que é tempo de tomar conta dos netos. Descarta a possibilidade de assumir funções governativas. Diz que sempre foi um académico e é assim que quer continuar.  

- Como veio para Macau?

Lei Heong Iok – Cheguei em 1975. Concluí o curso superior de língua e cultura inglesas, no então Liceu de Estudos Estrangeiros de Pequim, agora universidade. Depois, vim para Macau como bolseiro para aprender português com o professor Júlio Pereira Dinis, no Liceu de Macau. Aprendi com um grupo de cinco estudantes do Continente num ambiente muito familiar. 

- E como chega a presidente do IPM?

L.H.I. - Depois de três anos a aprender português, voltei a Pequim. Tornei-me professor porque havia grande necessidade de docentes de português. Lecionei durante seis anos. Mais tarde, houve necessidade de contratar intérpretes para a negociação de transferência de soberania. Foi contratada a Nam Kwong para organizar o processo e fui contactado pela empresa para ajudar na área de tradução e interpretação durante as negociações. Estive quase nove anos a trabalhar neste processo. Depois da assinatura da Declaração Conjunta, entrei nos Serviços de Educação e Juventude como assessor da então diretora, a professora Edith Silva. Entretanto, a Escola de Tradução precisou de um sub-diretor e foi assim que entrei no IPM. Em 1997, fui promovido para o cargo de vice-presidente durante quase dois anos. Nas vésperas da transferência, a 1 de setembro de 1999, comecei a desempenhar funções de presidente.

- Assumiu uma posição de destaque numa altura que ainda não era comum alguém do Continente assumir. 

L.H.I. - Foi um período de incerteza e agitação. Senti bastantes dificuldades. Ao mesmo tempo, durante o período de transição, que durou quase dez anos, foram feitos grandes esforços para garantir que tudo fosse feito, e realmente foi, sem sobressaltos. Prepararam-se muitos quadros bilingues, resolveram o chamado problema da língua, investiu-se na formação de talentos jurídicos. Apesar das incertezas e receios, não houve revoluções como sucedeu por exemplo quando Portugal deixou as colónias, onde houve guerras. Aqui foi pacífico. 

- Teve em cargos de responsabilidade nas Administrações portuguesa e chinesa. Sentiu diferença?

L.H.I. – Gostei do desafio, em particular ao nível do ensino do português. Já tinha muito afeto para com a língua e cultura portuguesas. Mas, em 82, fui bolseiro da Fundação Gulbenkian que me permitiu frequentar um curso na Faculdade de Letras. Aperfeiçoei o português, mas também conheci grandes personalidades, como o professor Malaca Casteleiro, de quem sou grande amigo, e grandes escritores como Prado Coelho, pai e filho. Além do português, aprendi muito com eles. Tinha um sentimento de dívida. Sentia que tinha de contribuir para o ensino e divulgação da língua e cultura portuguesas em Macau e em toda a China. Foi assim que comecei a dedicar-me ao ensino do português apesar das incertezas e dificuldades. 

- Foram tempos difíceis para a língua portuguesa.

L.H.I. – Em 2000, logo após a transferência, o número de candidatos ao nosso curso de português caiu abruptamente. Só tínhamos cerca de dez alunos. Não chegava para a abrir uma turma, mas decidimos avançar para não parar o ensino do português no IPM. Nessa altura já havia cursos de português no Continente, mas com poucos recursos. Apenas havia um curso em Pequim e outro em Xangai. Fomos a Xangai e convidámos a turma que existia para vir para Macau durante um ano. Assim, criámos uma cooperação e resolvemos o problema da falta de alunos. No ano seguinte, fomos a Pequim e fizemos o mesmo. Em 2003, o Governo central toma a decisão de criar o Fórum entre a China e os Países de Língua Portuguesa em Macau, que criou boas oportunidades para o ensino do português. Foi assim que o número de alunos começou a aumentar. Além disso, também começámos a trabalhar para estabelecer cooperações com instituições do ensino superior em Portugal. 

- Sente que teve responsabilidade no interesse de Pequim no português?

L.H.I. – Realmente sim. Hoje há 38 universidades com cursos de português na China e continua a haver falta de materiais, os professores são muito jovens e inexperientes. Quando fui nomeado presidente, senti essa responsabilidade.

- Sente que a China fez mais pelo português do que Portugal?

L.H.I. – Faço parte da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês. Todos os anos participo na Assembleia Popular Nacional, onde se discute a política nacional. Sempre fui uma voz na defesa do ensino da língua e cultura portuguesas. Senti que era a minha responsabilidade, o meu dever. Macau tem uma singularidade que a distingue entre os milhares de  cidades chinesas, e que tem como símbolo máximo a língua e a cultura portuguesas. Esta mistura luso-chinesa é a parte mais especial. Macau tem esta singularidade que deve manter e cultivar ainda mais. Há um valor educativo, económico e até diplomático. Através dessa língua e cultura, Macau está a mostrar a importância e papel que tem ao mundo. 

- De que maneira encaixa o ensino no projeto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, e que papel pode ter o IPM?

L.H.I. – Temos 11 cidades aqui ao lado às quais Macau pode servir de plataforma com os países lusófonos. Além de uma plataforma, temos também as comunidades macaense e portuguesa que fazem a diferença. A plataforma não é só para chineses. Tem de ser bilateral. Têm de ser criadas condições para mais portugueses virem para Macau e fazerem a sua vida aqui: serem docentes, advogados, técnicos, etc. E depois, através de Macau, entrarem na China. Em Macau, podem aprender a língua. Foi por isso que o IPM também criou mais cursos de chinês como língua estrangeira.

- Sente que a aposta do Continente no português acabará por prejudicar Macau?

L.H.I. – Se pensarmos a curto prazo, sim, pode acontecer. Se tivermos mais ambição, não. A China está e vai continuar a importar mais produtos de Portugal, África, Brasil. Nas áreas de engenharia, transportes, entre outras, também vai haver mais trocas. Podem criar-se milhares de empregos. Não tem de haver preocupação com o desemprego. A união faz a força e tem de haver cooperação. Os líderes de instituições do ensino superior têm de ter esta visão para ajudar o Governo a abrir mais os olhos ao mundo lusófono. É preciso conjugar esforços para levar as empresas lusófonas e chinesas a criarem mais oportunidades para os jovens graduados. Não pode ser só ao nível dos Governos. É preciso trabalhar. Teoria não chega. Consensos não bastam.

- Quando é que percebeu que a aproximação à lusofonia e a aposta no português eram cruciais? 

L.H.I. – Foi com a criação do Fórum. Senti que havia uma oportunidade. Senti-me encorajado também por muitos colegas, como os professores Luciano de Almeida, Carlos André e Malaca Casteleiro. Não se cansaram de viajar para me apoiar. Quando houve falta de alunos, apareceu-me aqui o professor Luciano de Almeida quase como um milagre. Bateu-me à porta e disse-me que queria uma cooperação com o IPM e que queria criar um curso de tradução e interpretação de português-chinês em Leiria. O IPM aceitou imediatamente. Primeiro ajudámos Leiria a criar o curso e depois apostámos na vinda dos alunos. A cooperação tornou-se triangular, e passou a incluir Pequim. Hoje em dia, temos cooperação com quase todos os politécnicos de Portugal. A nossa turma de alunos chineses, por exemplo, está em Castelo Branco. 

- Mas e se tivesse de aconselhar o seu filho, dir-lhe-ia para escolher Macau ou o Continente para estudar português?

L.H.I. - Realmente Macau pode fazer mais e melhor. Não podemos andar sempre a falar do passado. Temos características que as restantes cidades chinesas não têm. Temos meios de comunicação em português, temos uma comunidade portuguesa, que para mim é o fator mais importante. São peritos, académicos, especialistas que o Governo deve aproveitar muito bem e assim pode fazer muito melhor. É este o meu ponto de vista.

- Há 19 anos que está à frente do IPM. Não é demasiado tempo à frente duma instituição sobretudo pública?

L.H.I. - Às vezes sinto que sim, mas quem corre por gosto não cansa.

- Mas do ponto de vista institucional, não acha que é muito?

L.H.I. – De facto devo deixar a liderança às novas gerações. Preparámos os sucessores e hoje já os temos. A professora Han Lili, que concluiu a tese de Doutoramento na Universidade de Lisboa, está muito bem preparada. É bilingue. Vai ocupar o lugar do professor Luciano de Almeida quando deixar a direção da Escola Superior de Línguas e Tradução. Para o cargo do professor Carlos André temos mais um bilingue muito bom [Gaspar Zhang]. Sempre nos esforçámos no sentido de formar docentes e dirigentes para não deixar cair este prédio quando a velha geração sair.

- Sai ao mesmo tempo que saem outros nomes importantes no ensino e formação do bilinguismo, como o professor Carlos André. Acha que a instituição se vai ressentir?

L.H.I. – Terá impato, em particular no ensino do português. Mas eu, os professores Carlos André e Luciano de Almeida começámos a preparar o futuro há mais de cinco anos. Dos bons, escolhemos os melhores.

- Já há um sucessor para o professor?

L.H.I. – Não me compete escolher o meu sucessor.

- Mas sugeriu um nome?

L.H.I. – Propus um nome. Depende da tutela decidir e anunciar.

- Sente que se for esse o escolhido, a instituição fica bem entregue?

L.H.I. – Penso que sim. Há poucos dias, o secretário Alexis Tam não revelou o nome, mas realçou que era um conhecedor do IPM. Posso acrescentar que é um conhecedor da plataforma e até de Portugal. Quando comecei a preparar a nova geração, comecei a enviá-la para Portugal com regularidade para criar raízes e relações. A singularidade de Macau é a língua e cultura portuguesas. A China precisa. Macau pode fazer mais e melhor com esta língua e cultura. O IPM está no centro. É preciso uma geração boa e preparada. Portugal é a fonte de onde bebemos. Não podemos esquecer. O IPM é o baluarte.

- Lamenta sair do IPM sem ter conseguido o estatuto de universidade?

L.H.I. – Às vezes sim. Não fui o primeiro a levantar essa questão, mas era parte do meu sonho. Antes da transferência, havia um estudo sobre o futuro do IPM que mencionava que devia mudar para universidade. Comecei a trabalhar nesse sentido. E sabe porquê? Na cultura chinesa tende a valorizar-se as universidades e a desvalorizar os politécnicos. O IPM escolhe os melhores de Macau, China, Portugal, entre outros países. O IPM, no que diz respeito à qualidade, não é inferior. Os nossos programas são internacionalmente reconhecidos. O IPM nunca conseguiu mudar para universidade. Há pessoas que não gostam. 

- Mas porque nunca lhe foi atribuído esse estatuto?

L.H.I. - É muito estranho. Não sei explicar e não quero especular.

- O IPM e a Universidade de Macau são as entidades universitárias mais conhecidas e que mais têm apostado no português. Como é a relação entre ambas?

L.H.I. - Deve haver uma relação de complementaridade. Apesar de poderem e terem de cooperar, devemos competir porque é a competição que nos faz progredir. A universidade e o instituto devem andar de mãos dadas, sobretudo no ensino do português. Mas devem competir. Sinto orgulho ao revelar que o nosso corpo docente é o maior de Macau. Temos 16 bilingues chineses com bom domínio do português, e portugueses são 31. É o maior corpo docente de português. Ao todo, são 47, muito maior do que o corpo docente da universidade para não falar de outras instituições. Penso que o futuro do IPM e do português estão garantidos se não houver políticas erradas. 

-Sente que a liberdade académica tem diminuído?

L.H.I. – É preciso separar as águas. Primeiro, uma instituição de ensino superior deve respeitar a lei. Mas, a primeira coisa e a mais importante é a liberdade académica. Não só tem de ser respeitada e mantida, como deve ser desenvolvida. Só com liberdade é que os professores conseguem pensar, criticar e criar. Toda gente fala de inovação e criatividade. Sem liberdade não há inovação ou criatividade, os estudantes não podem criticar livremente. É preciso criar com base na crítica. Aqui não deve haver limites. Por um lado, deve respeitar-se os docentes, por outro os alunos devem desafiá-los. Só assim se constrói uma geração melhor que a anterior. 

- Sente que essa liberdade está em risco?

L.H.I. – Em certo sentido sim. Como presidente, sinto interferência de vários lados, departamentos do Governo. Além dos processos burocráticos, sinto interferência mesmo.

- Acha que o Segundo Sistema está em risco?

L.H.I. - Não aceito esta ideia. Existe uma relação entre o primeiro e o segundo sistemas. Os dois funcionam no mesmo território, através do mesmo Governo. Dependem de outros fatores, internos e externos. E esse também é um desafio aos governantes de Macau.

- O que vai fazer depois de deixar o IPM?

L.H.I. – Quero ajudar a minha filha na educação dos meus netos. São o meu grande amor. Quero levá-los e ir buscá-los à escola. Mas o IPM é parte da minha vida. São mais de 20 anos de dedicação. A parte da gestão não me interessa, mas o ensino do português sim. Se o IPM precisar de mim, gostava de continuar. 

- Mas para ensinar?

L.H.I. – Para investigação. 

- Tendo em conta a experiência que tem, sobretudo na área da educação, imagina-se com responsabilidades governativas?

L.H.I. – A História não vive de imaginação.

- Mas gostava?

L.H.I. – Não. Gosto de ser académico. É assim que me sinto cómodo.

Catarina Brites Soares 13.07.2018

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