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Mar de apostas

O plano para introduzir corridas de cavalos e apostas desportivas em Hainão coloca pressão sobre Macau no longo-prazo. Contudo, a cidade deverá ter tempo para se preparar para o desafio, afirmam observadores ao PLATAFORMA. 

Talvez esteja escrito nas estrelas. O Hawaii da China – como é conhecida a ilha de Hainão – poderá vir a ter casinos no futuro, mas, para já, o plano anunciado pelo Governo Central aponta para a introdução de corridas de cavalos e apostas desportivas, algo que ainda assim terá algum impacto, quer em Macau, quer em Hong Kong, embora seja cedo para fazer uma estimativa. 

A existência de salas de jogo clandestino na ilha, sobretudo em zonas rurais, tem sido alvo de atenção das autoridades que, nos últimos anos, apertaram o cerco no contexto da campanha anticorrupção. O alarme soou, em 2009, quando cerca de 1000 residentes se envolveram numa cena de pancadaria relacionada com jogo ilegal que resultou em pelo menos um morto e vários feridos. Chris Cottrell – editor norte-americano do portal South China Sea Magazine, a residir no Sul da China há cerca de 15 anos – não chegou a entrar em nenhum desses casinos clandestinos, nas dezenas de visitas que fez a Hainão ao longo dos últimos 12 anos, mas lembra-se bem de encontrar slot machines em pequenos estabelecimentos familiares em zonas rurais. “Por volta de 2012 joguei em pequenas slot machines nessas lojas. Era comum encontrá-las em zonas rurais ou pequenas cidades”, conta ao PLATAFORMA. Para Cottrell “tratava-se de algo inofensivo, uma vez que apenas havia uma ou duas máquinas e os ganhos não excediam seis yuans de cada vez”. 

A viragem por Xi

Certo é que nos últimos anos deixou de dar de caras com as pequenas máquinas que se encontravam numa situação ilegal. Ao ouvir o anúncio recente do plano de desenvolvimento do turismo e entretenimento para Hainão, Cottrell, que chegou a viver na ilha durante quase um ano, entre 2011 e 2012, afirma que estes são “tempos excitantes”, mas considera que ainda é cedo para perceber o que de facto vai acontecer. O ponto de viragem aconteceu quando Xi Jinping, numa visita que assinalava o 30° aniversário da criação da província de Hainão, deu a conhecer, em meados de abril, planos para tornar a ilha numa das novas áreas avançadas de reformas económicas, ao tornar-se futuramente numa Zona de Comércio Livre. Na mesma altura, foi revelado que o Governo Central apoiava planos para permitir corridas de cavalos e novos tipos de apostas desportivas, como parte de um projeto para dar um novo impulso a Hainão como destino turístico de nível mundial. 

A faísca por acender 

Ben Lee, analista de jogo da consultora IGamix, salienta que os novos planos foram anunciados apenas quatro meses após uma decisão judicial que absolveu quatro pessoas ligadas às operações de um espaço em que, apesar de se assemelhar a um casino, não implicava ganhar ou perder dinheiro, mas sim em créditos que poderiam ser convertidos em serviços nos resorts onde se localizavam. Lee tem base em Macau, mas conhece bem o mercado do jogo no Sudeste Asiático. Num primeiro olhar sobre o impacto que este tipo de salas de jogo, apostas desportivas e corridas de cavalo poderão ter em Macau, considera que, “no curto-prazo deverá trazer vantagens uma vez que gerará uma nova linha de jogadores que poderá também beneficiar Macau”.

Cottrell concorda que este desenvolvimento será complementar para Macau. “Não acredito que Hainão venha a ter jogos como baccarat legalizados ou outros jogos de cartas de fortuna e azar”, afirma.  Ben Lee contempla a possibilidade de num prazo de 10 a 15 anos, Hainão vir a ter casinos de pleno direito. “As autoridades acreditam que o setor do jogo poderia ser a faísca que transformaria a atividade económica como aconteceu em Macau”. 

Desafios além-jogo 

O desafio que se perspetiva para Macau é mais abrangente na medida em que o plano para Hainão passa por uma aposta na atração de investimento direto externo e desenvolvimento de turismo de saúde e de permitir a estada por um período de 30 dias sem necessidade de visto a visitantes de 59 países. 

“Não é por acaso que Pequim e o Governo de Macau têm colocado os operadores de jogo sob pressão para desenvolverem o sector não-jogo ao nível de equipamentos de turismo”, sublinha Lee, acrescentando que o objetivo no longo-prazo é “minimizar o impacto potencial” do desenvolvimento do turismo e entretenimento em Hainão.

No entender de Chris Cottrell, o desenvolvimento de Hainão e o futuro de Macau não devem ser entendidos como um jogo de soma zero. “Podem perfeitamente trabalhar em conjunto” uma vez que há espaço para pacotes turísticos que se conjugam, desde logo através de uma história e património marítimo que se interliga. 

“Cada lado (Macau e Hainão) complementa o pacote de serviços de turismo e lazer que a China oferece, tal como Xangai e Hong Kong se complementam em termos de serviços financeiros”, assinala, rematando que cada destino tem “circunstâncias históricas e jurídicas diferentes a que se associam as suas vantagens e méritos”.  

José Carlos Matias  11.05.2018

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