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“O Governo resolve tudo com dinheiro. É um erro que comete sucessivamente”

O artista local Pat Lam critica a política dos subsídios e patrocínios e defende que há outras medidas a tomar para desenvolver o setor da cultura e despertar a população para a arte.

  

O artista local diz que falta iniciativa à cidade e foi por isso que organizou o Outloud. O festival de arte de rua juntou dezenas de artistas – locais e internacionais – e fez da Praça Ponte e Horta uma galeria ao ar livre durante o fim de semana, com grafiteiros e DJ. Pat Lam considera urgente investir em educação e mudar mentalidades para que a cultura ganhe importância em Macau. O dinheiro, alerta, não resolve tudo. P.I.G.B., sigla para “Pat is bombing graffiti”, é dos grafiteiros locais mais conhecidos, tendo já colaborado com marcas como Moschino, Nike, Vans e Red Bull.

 

– Como é que surgiu a ideia de organizar o Festival Outloud?

Pat Lam – A cidade está a tornar-se aborrecida. Não há arte de rua. Todos os territórios vizinhos – Hong Kong, Taipé, Singapura, Tailândia – têm cultura de arte de rua, que no meu entender reflete muito a energia de um sítio. Em Macau, isso não existe. As pessoas são muito preguiçosas. Quisemos organizar o Outloud para chamar a atenção da população e incentivar mais gente a fazer arte de rua, que para mim é um ato de partilha. É das poucas formas de arte que não implica ir a uma galeria ou estar num espaço físico fechado.

– O que é que diferencia a arte de rua das outras?

P.L. – É a forma de arte com mais poder para mudar mentalidades. Algumas pessoas continuam a ter uma visão conservadora do que é arte e limitam-na ao que está em galerias. Os espaços físicos criam barreiras e a arte de rua quebra-as. Toda a gente pode apreciar e pode, inclusivamente, assistir ao processo artístico. Nas vertentes artísticas mais convencionais é preciso haver uma intenção para vermos a peça de arte. A arte de rua quase que nos força a aceitá-la, porque somos confrontados com ela por onde andamos.

– Como vê a ação do Governo para dinamizar os setores cultural e artístico?

P.L. – O Governo já faz bastante. Organiza muitos eventos. É bom na promoção e no apoio aos artistas, mas sobretudo de artes convencionais ou socialmente aceites. Também há o problema da audiência. As pessoas não se interessam, nem têm curiosidade especial pela arte de rua. É por isso que temos de a tornar mais visível e acessível, e foi por isso que quisemos organizar o Outloud no seio da comunidade. Está onde as pessoas vivem e trabalham. Não é um evento que obedece ao formato convencional, com um palco e realizado nas zonas habituais da cidade, como a Avenida Almeida Ribeiro. Escolhemos este sítio [Praça Ponte e Horta] porque há muita gente que vive, trabalha e passa por aqui. Gostem ou não, as pessoas fazem parte do evento apenas por estarem na rua. A arte de rua pertence à comunidade; todas as pessoas podem partilhar do processo artístico e apreciar a obra depois.

– Porque acredita que há desinteresse da população no que diz respeito à cultura e à arte?

P.L. – Macau é uma cidade pequena, onde é fácil arranjar emprego. As pessoas só se preocupam em arranjar um trabalho que lhes garanta um bom salário. Noutros sítios, têm de explorar e aproveitar todas as qualidades e valências que tenham para conseguir vingar. Se és bom a desenhar, tens de te esforçar e dedicar-te a isso, porque pode ser o que te garanta um emprego. Aqui há tantas oportunidades que as pessoas sentem que não precisam de se esforçar. Não têm de explorar qualquer tipo de talento ou vocação para se diferenciarem e conseguirem um emprego. As pessoas de Macau só têm duas preocupações: o que vão jantar e qual será a viagem que vão fazer no próximo mês. É preciso criar uma cultura e recordar que o desenhar, por exemplo, é uma coisa que faz parte de nós. Quando somos miúdos, estamos sempre a desenhar. Depois crescemos, começamos a preocupar-nos com o dinheiro e o emprego, e esquecemo-nos de que temos capacidades. Achamos que pintar é um talento exclusivo de alguns.

– A arte e a cultura têm sido áreas em que o Governo tem apostado para diversificar a economia. O que mais pode fazer para apoiar os artistas e o setor?

P.L. – O Governo resolve tudo com dinheiro. É um erro que comete sucessivamente. Nem todos concordamos com a política dos subsídios e patrocínios. Em vez de insistir neste modelo de atribuir dinheiro, o Executivo devia pensar em formas de tornar a arte parte da vida da cidade e das pessoas. É importante que se mude a mentalidade e que se mude a perceção de que a arte é para intelectuais ou pessoas de estratos sociais elevados. Muita gente continua a achar que a arte não é para eles, que são apenas pessoas comuns. No que diz respeito à arte de rua, ainda há um grande preconceito. Está conotada como algo de errado. Tenho discussões porque muita gente critica a arte de rua, mas muitos deles nem sabem explicar por que estão contra. Apenas repetem uma ideia que está interiorizada.

– Ainda no âmbito da diversificação económica, um dos caminhos do Governo tem sido as indústrias culturais e criativas. Os artistas têm beneficiado desses apoios?

P.L. – Há artistas que sim. Mas a maioria não. Muitos têm talento, trabalham bastante, mas não são famosos e não conseguem promover-se ou chegar ao financiamento do Governo. Em Macau, um artista conhecido tem facilidade em tornar-se cada vez mais famoso. Já um artista que não tenha uma boa rede de contactos tem dificuldade em promover-se e acaba por ficar esquecido. O Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais faz muito pela cultura e apoia bastante as pessoas da área. Mas é preciso integrar outros organismos públicos e haver mais cooperação entre departamentos.

– Um dos grandes dramas dos artistas em geral é a falta de dinheiro. Aqui não há esse problema. Os artistas têm sabido aproveitar todo o apoio e ferramentas que o Governo lhes faculta?

P.L. – Não. Mas há condicionantes. Por exemplo, para podermos recorrer a um subsídio ou financiamento temos de criar uma associação. Os artistas que são independentes estão limitados. O Governo podia ter políticas especiais para quem trabalha de forma independente e individual. Também devia ser muito mais vigilante com as associações artísticas e culturais. Muitas dessas entidades atribuem-se esse rótulo para conseguir dinheiro, mas não fazem nada. No Outloud, não quisemos financiamento público, mas fizemos questão de comunicar ao Governo informações sobre o evento. Elogiaram o nosso trabalho e perguntaram-nos se precisávamos de dinheiro. Recusámos e dissemos que só queríamos apoio para tratar de questões práticas, como autorizações para bloquear as ruas. Nem tudo se resolve com dinheiro. O que importa é que haja iniciativa. Não temos, nem precisamos de estar sempre à espera do dinheiro do Governo. Há formas de procurar apoios. O problema é a falta de iniciativa. Neste caso, tivemos o apoio do Hotel Sun Sun, entre outras entidades privadas, que pagaram os voos dos artistas convidados, ofereceram os quartos e as tintas. Todos os artistas, mesmo os mais conhecidos internacionalmente, aceitaram colaborar sem cobrar. Convidámos cerca de 20, locais e internacionais, como o português Vhils.

– Referiu que a ausência de mercado é um dos problemas de Macau. Como é que se pode superar essa limitação?

P.L. – Tem de se investir mais na educação das novas gerações e tomar medidas para mudar mentalidades. Os adolescentes são capazes de gastar muito dinheiro em roupa, tecnologia e afins, mas acham que a arte deve ser gratuita. Acham que não há que pagar por um designer ou um fotógrafo. Há muita gente que me pede trabalhos e tenta que o faça gratuitamente ou que lhe faça um desconto. Aqui não há a noção de valor no que diz respeito ao trabalho artístico e à peça de arte. Sentem que é um desperdício gastar dinheiro em arte.

– Que outras iniciativas estão na calha além do Festival Outloud?

P.L. – Gostava de organizar uma exposição que junte graffiti e 3D. Também gostava de criar um espaço aberto e partilhado, um género de estúdio de rua, sem rendas, onde vários artistas se pudessem juntar e trabalhar em conjunto. Além destes projetos, vou ter uma exposição no Japão no próximo ano. 

Sou Hei Lam

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