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“Quanto ao mandarim, havemos de lá chegar”

Em entrevista ao PLATAFORMA, o presidente da direção da Escola Portuguesa de Macau acredita que será possível formar alunos fluentes em português e mandarim. Manuel Machado diz que essa é a grande ambição.

Era professor de Biologia quando a Escola Portuguesa de Macau (EPM) foi criada em 1998, herdeira de três instituições de língua portuguesa – Escola Primária Oficial, Escola Comercial e Liceu de Macau, numa parceria entre o Estado Português, a Fundação Oriente e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses. Agora, é o presidente da direção da instituição que completa 20 anos dia 18. Manuel Machado diz que o número de alunos vai continuar a crescer – prevê 600 no próximo ano letivo – e deixa uma garantia: haverá reforço do mandarim e do multilinguismo.

- Que balanço faz dos 20 anos da EPM?

Manuel Machado - Nos primeiros anos, a escola debateu-se com um grande problema de diminuição de alunos. Inicia as suas funções ainda durante a administração portuguesa com cerca de 1100 alunos e após a transferência de soberania de Macau para a administração chinesa, na sequência da saída de muitas famílias para Portugal, o número de alunos foi diminuindo significativamente nos primeiros 12 anos. Houve um esvaziamento da escola. De há seis anos para cá, o número de alunos tem vindo a crescer. Mas a população de alunos é bem diferente. No início, a escola era, preferencialmente frequentada por portugueses, muitos deles nascidos em Portugal. Hoje é, obviamente frequentada por portugueses, mas também por alunos de muitas outras nacionalidades. São 24 nacionalidades e no que diz respeito aos portugueses, a maioria já nasceu em Macau. A comunidade educativa é bem diferente. Houve adaptações que tiveram de ser feitas.

- Que adaptações foram essas?

M.M. – Foram tomadas medidas no sentido de o currículo se adaptar à realidade, por exemplo com a introdução do estudo da história e geografia de Macau. Tivemos de responder a um número cada vez maior de alunos, ao aumento dos estudantes que não têm o português como língua primeira. De acordo com os boletins de inscrição do primeiro ciclo deste ano letivo, 50 por cento dos alunos não fala português em casa. É uma tendência que se tem vindo a verificar há muitos anos. A escola teve de encontrar resposta, quer com a criação do ano preparatório, em 2009/2010, quer com uma série de apoios.

- Que papel tem a EPM hoje?

M.M. – O projeto educativo da escola foi-se afirmando. É reconhecida e tem vindo a ser procurada por um número cada vez maior de encarregados de educação de nacionalidade não portuguesa. Julgo que se deve ao conhecimento de que há um sistema educativo capaz de responder ao que os encarregados de educação pretendem.

- É uma instituição com um valor simbólico.

M.M. –  A escola portuguesa não é só uma instituição de ensino. É uma representação cultural portuguesa em Macau. Tem a responsabilidade de transmitir e defender a cultura portuguesa, e os nossos valores. Somos a insituição em Macau que concentra mais portugueses no dia-a-dia.

- Como é que perspetiva a evolução da escola?

M.M. – Temos vindo a aumentar o número de alunos, de turmas e, por consequência, a admitir mais professores. Perspetivo um continuar do crescimento. Tudo me leva a crer que vamos crescer no próximo ano letivo, pelos dados que tenho relativos ao número dos alunos que frequentam os principais infantários de onde vêm grande parte dos nossos alunos, como o D. José da Costa Nunes e o Jardim da Flora. O número de turmas nos anos terminais leva-me a crer que haverá aumento de mais uma turma no primeiro ciclo. Também perspetivo um aumento da diversidade cultural que, quanto a mim, é, extremamente enriquecedora para os jovens, mas que exige uma reflexão constante sobre as respostas para acompanhar estes alunos.

- Um dos grandes problemas da escola é a falta de espaço. Já há uma solução?

M.M. – Há uma projeção do que será o crescimento da escola nos próximos anos. Há já um projeto gizado. Claro que gostava que já estivesse pronto. Estamos a debater-nos com a falta de espaço. Não tenho ideia para quando será, mas não será para breve.

- O custo per capita por aluno foi de 90.913 patacas, segundo dados referentes a 2014/2015. Na lista de 500 escolas elaborada pelo jornal Expresso e pela SIC, com base em dados do Ministério da Educação, a EPM surge em 237º lugar, uma queda de 175 posições em relação ao 62º lugar de 2014.

M.M. – São dados já um pouco desatualizados porque, entretanto, a escola subiu nos rankings. Posso atualizar, mas devo dizer o seguinte. Os rankings têm o valor que têm. São múltiplos os fatores que influenciam o resultado num exame. O que me interessa é que os nossos alunos tenham sucesso e se olharmos para a avaliação interna, as taxas de sucesso são enormes. O abandono escolar não existe e as taxas de insucesso são muito pequenas.

- Insistindo na questão dos rankings, a EPM foi a escola portuguesa mais bem posicionada fora de Portugal, mas com uma média de apenas 11,88 valores. Acha satisfatório?

M.M. – Obviamente que quanto maior for a média, melhor. Mas as médias da EPM acompanham as médias nacionais. O que se mede num ranking é o que o aluno faz numa hora e não o que faz durante um ano, dois ou três. É por isso que, mesmo quando são favoráveis, gosto de falar deles com cuidado.

- Como é o financiamento da escola e que apoios recebem do Governo?

M.M. – A escola portuguesa pertence à Fundação Escola Portuguesa de Macau. O financiamento é, em parte, de dinheiros da fundação, das propinas e dos subsídios dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) – que visam o desenvolvimento educativo, projetos que são apresentados, anualmente, pela escola para a renovação e reparação das instalações, e aquisição de material. A DSEJ participa ainda, pagando o vencimento na totalidade de cinco técnicos especializados a tempo inteiro – um de gestão de laboratórios, outro de atividades extracurriculares, mais um de leitura, de informática e outro de enfermagem. Os professores de ensino especial e os psicólogos também são, totalmente, pagos pela DSEJ. Há ainda as propinas dos alunos que são subsidiadas pela DSEJ na ordem dos 70 por cento. Atualmente, a fundação da escola recebe ainda um apoio da Fundação Macau que é significativo.

- Qual foi o montante do apoio da DSEJ para este ano?

M.M. – Vai apoiar a escola em cerca de quatro milhões de patacas. O dinheiro vai para projetos que têm a ver com apoios aos alunos, aquisição de material, manutenção e reparação do edifício, e o vencimento de todos os técnicos especializados. São estas as grandes áreas.

- O que tem a dizer sobre as críticas apontadas pelo relatório da Inspeção Geral de Educação e Ciência de Portugal, divulgadas pelo Jornal Ponto Final?

M.M. – Concretamente sobre o quê?

- A auditoria pedida pelo então Ministro da Educação Nuno Crato que refere falhas como a inexistência de documentação dos movimentos e contas, e práticas inadequadas de assinatura de cheques em branco do presidente da fundação.

M.M. - Isso tem a ver com a fundação. Preferia não comentar.

-  A EPM é acusada de exercer pressão sobre os alunos por causa dos rankings. Sente que a exigência é exagerada?

M.M. - Não sinto isso. Não são os professores que pressionam os alunos, são os alunos que sentem essa pressão porque sabem que podem não entrar onde querem por uma décima. É o próprio sistema que cria essa pressão.

- Como tem evoluído a aposta no ensino do mandarim?

M.M. – Em 2009, foram criadas duas vias de ensino: a Via A, que oferece a possibilidade do aluno estudar mandarim do primeiro ao 12º ano; e a Via B, na qual não há essa oferta. O ensino do mandarim tem as suas dificuldades, sobretudo na nossa escola. Não podemos aumentar demasiado o número de horas semanais porque o nosso currículo já é relativamente pesado. Se quiséssemos, não podíamos aumentar o ensino do mandarim para 10 horas semanais. O que podemos oferecer – que são os três a quatro tempos letivos por semana de forma a não sobrecarregar a carga horária – exige um grande trabalho nas aulas, mas também fora. O que acontece é que, muitas vezes, os alunos não têm contacto com o mandarim fora das aulas. Este ano implementámos uma nova estratégia no primeiro e segundo anos que passa por aplicar dois níveis de mandarim, ou seja, criar turmas de mandarim que têm contacto com o chinês e turmas que não têm. O balanço é positivo. É uma nova abordagem que vamos estender aos anos subsequentes.

- E como funciona com os alunos que vêm para a escola sem contacto com o português?

M.M. – O ano preparatório tem por objetivo ensinar o português de forma intensiva aos alunos cuja língua materna não é o português. Têm 14 horas de aulas por semana de português e, simultaneamente, estão integrados numa turma para poderem aprender outras disciplinas – como educação física e musical – que não exigem tanto a língua. Atualmente, temos o ano preparatório só para os alunos do primeiro ano. Houve uma altura em que foi aplicado em diferentes anos. Agora, estão a ingressar muitos alunos de língua materna chinesa no primeiro ano e abrimos o ano preparatório para eles.  Acontece muitas vezes não ser suficiente e nesses casos temos o apoio para irem superando as dificuldades. O objetivo é que o português não os afugente da escola.

- Sente que um aluno que sai da escola está preparado para estudar e trabalhar em português e mandarim?

M.M. - Neste momento, diria que é um aluno preparado para estudar e trabalhar em português. Ainda não em mandarim. Mas agora, por exemplo, 12 alunos do secundário vão fazer o exame HSK, em Zhuhai, cujos resultados são reconhecidos pela República Popular da China. Em seis níveis, os nossos alunos vão fazer o nível 3 que já permite falar com fluência.

- Mas tem essa ambição?

M.M. – Gostava muito. Se falarmos em planos estratégicos de futuro, um dos aspetos mais importantes é o reforço do multilinguismo, traduzido pelo conhecimento correto do português, do chinês e do inglês. Não pondo de lado o cantonês, que está a ser feito numa base extracurricular, e do francês. Quanto ao português e inglês, os resultados têm sido muito satisfatórios. Quanto ao mandarim, estamos a evoluir. Havemos de lá chegar.

- Com o aparecimento de novas iniciativas, como as turmas e escolas trilingues, qual é a mais-valia da EPM?

M.M. – O ambiente, a forma como se ensina. A nossa escola permite ingressar em qualquer universidade portuguesa, mas também nas universidades de Macau, da China, da Austrália, Suíça, entre outros destinos. É uma escola portuguesa cujos alunos podem ingressar em universidades de todo o mundo.

- Sente que a EPM faz um esforço para estar integrada na comunidade?

M.M. - Cada vez mais é uma escola solicitada para eventos fora da escola, recebe muitas visitas de individualidades de fora. Dez por cento dos nossos alunos já ficam em Macau e prosseguem os estudos aqui. O que tem significado. Se a opção é continuar em Macau, é possível. Se a opção é seguir para Portugal, é possível. Se a opção é ir para Inglaterra, também é possível. Os resultados têm sido bons nas universidades que frequentam e já temos muitos alunos na vida ativa.

- A EPM é conhecida pela qualidade do ensino especial. A que se deve?

M.M. – O número de alunos com necessidades especiais tem vindo a crescer. Temos duas psicólogas a tempo inteiro, três professores de ensino especial e no terceiro período vamos ter um quarto professor. Neste momento, os nossos serviços de psicologia e orientação acompanham cerca de 114 alunos. Destes, 52 apresentam necessidades educativas especiais e atravessam todos os anos de escolaridade. Temos feito o melhor acompanhamento possível e muitos deles têm sucesso, e concluem o ensino secundário.

- Em termos gerais, tem ideia de quantos professores vai precisar?

M.M. – A confirmar-se o aumento que prevejo, vai ser necessário mais um professor para o 1º ciclo. Como temos vindo a crescer, obviamente que o corpo docente vai ter de crescer. Ainda não tenho ideia de quantos professores vou precisar.

- Como é feito o recrutamento?

M.M. – Recebemos uma série de currículos. São feitas entrevistas e é assim que selecionamos.

- Quais são os objetivos para os próximos anos?

M.M. - Que a escola mantenha o ambiente agradável. Temos de continuar a apostar no ensino da língua portuguesa, mas também da língua chinesa, do multilinguismo, na melhor comunicação possível com a comunidade educativa. Tendo em conta a heterogeneidade dos alunos, temos de continuar a diversificar os apoios. A escola é um dossier sempre aberto. Há uma sociedade lá fora que se vai modificado e a escola tem de ter capacidade de se adaptar. O que desejo é que vá conseguindo dar resposta, mantendo a qualidade.

Catarina Brites Soares  13.04.2018

 

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