Entrevista-

Região de marca para as novas rotas da seda

papel de Macau na concretização da iniciativa Uma Faixa, Uma Rota é modesto, mas a região pode potenciar a sua posição na educação e em alguns serviços especializados.

Conforme o ponto de vista, Macau pode retirar vantagens da sua ligação aos países de língua portuguesa para conseguir um maior envolvimento nos negócios movidos pela iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, ou melhorar a sua posição nas chamadas novas rotas da seda por estar integrada na China e ser a vizinha mais próxima de Hong Kong, intermediadora tradicional das relações entre empresas chinesas e o exterior.

As perspectivas podem divergir, mas encontram-se no essencial – qualquer papel que Macau possa desempenhar no desenho da nova grande estratégia de investimento externo chinesa presume que atue como uma parte da região em que está inserida, o Delta do Rio das Pérolas, explorando complementaridades com Hong Kong e com a província de Guangdong.

Francisco Leandro, professor da Universidade de São José e perito em relações internacionais, entende que o mais valioso capital de Macau na exploração de oportunidades com a expansão das redes comerciais financiada por Pequim é a marca histórica que associa a região aos países de expressão portuguesa e a uma geografia económica importante, o Atlântico Sul, onde estão Brasil e importantes comunidades regionais africanas.

“Nenhuma das regiões administrativas especiais tem dimensão para por si própria se auto-determinar relativamente a uma política desta dimensão. Hão-de ter uma fórmula na qual operam. Claramente, Hong Kong com um papel na área económica, na área dos serviços, na área do banking, na área das instituições, na área do Direito. Macau colabora no branding, no soft power, na promoção da cultura, e também com alguns outros instrumentos”, defende o académico que tem vindo a produzir investigação sobre a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota sob o ângulo geopolítico. “Não há investimento aleatório. Há uma lógica e a lógica tem exatamente a ver a com a expansão [chinesa] em áreas críticas”, diz.

Para o especialista em relações internacionais, a criação do Fórum de Macau por iniciativa chinesa em 2003 insere-se nesta grade estratégia, uma que Francisco Leandro entende visar em última análise o deslocamento de um eixo imaginário do motor da globalização – de Ocidente para Oriente. O que a ‘marca’ Macau permite, à boleia de uma língua comum que aproxima os diferentes países do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, é o crescimento da influência em novas regiões, defende.

“Os países de expressão portuguesa aparecem naquilo a que chamo de ‘South African Belt’, com os pontos de apoio de Portugal e Timor – não estão neste ‘African Belt’, mas têm uma função. A cimeira do Fórum tem esta lógica, uma lógica que procura a presença no Atlântico Sul”, defende Leandro.

“Não há um papel específico para Macau. Macau dá ‘leverage’, dá sentido, dá força a um papel que é regional, que é de integração, e que conta com Hong Kong e com a província de Guangdong. Mas Macau está mais próxima, é como se fosse a locomotiva – vai à frente a abrir caminho mas não transporta passageiros”, acrescenta.

O que não significa que a região não possa colher vantagens para o seu próprio desenvolvimento, fruto da localização integrada no Grande Delta do Rio das Pérolas, da especialização alcançada em sectores como o Direito ou educação, do facto de ser uma zona franca em termos fiscais, e ainda de ter em desenvolvimento uma indústria de convenções e exposições. O problema, diz, Francisco Leandro, é que falta concretizar muito do que Macau pode fazer no relacionamento sino-lusófono.

“Faltam coisas concretas. É tudo muito abstracto”, admite. A exemplo, a região pode afirmar-se na resolução alternativa de conflitos comerciais, entende, e as instituições educativas podem facilitar contactos prolongados entre indivíduos e profissionais de ambos os lado da relação. “Coisas muito pontuais não funcionam. Há que criar alguma estabilidade nas relações”, defende.

“Qual é o papel de Macau na OBOR? É um facilitador. Por si, Macau pode fazer pouca coisa, ainda que importante. Mas se olharmos para o Rio das Pérolas, o que vemos é uma permanente sinergia regional onde há diversos papéis”, considera.

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Thomas Chan, presidente da Associação da Rota Marítima da Seda de Macau e diretor do China Business Center da Universidade Politécnica de Hong Kong, concorda com a ideia de haver uma visão regional integrada onde Macau deve procurar cooperar com Hong Kong para tomar partido de eventuais oportunidades surgidas no contexto da iniciativa Uma Faixa, Uma Rota.

“Deve haver um esforço conjunto para iniciar sinergias económicas através de uma melhor cooperação e divisão do trabalho entre as duas economias. Para o facilitar, os governos das duas regiões devem negociar o reconhecimento mútuo de qualificações profissionais e harmonizar serviços e regimes regulatórios”, defende.

A educação é uma das áreas assinaladas como tendo mais potencial. “Macau tem poucas vantagens perante os países incluídos na iniciativa Uma Faixa, Uma Rota. Pode potenciar o seu papel no domínio do ensino superior, oferecendo bolsas e outros mecanismos de intercâmbio para promover-se como centro educativo em relação a estes países [de língua portuguesa]”, diz o académico.

Mas, ambas as regiões devem, por seu turno, enquadrar-se num maior contexto regional. “A região do Delta do Rio das Pérolas fornece produtos industriais, em especial equipamentos eléctricos e bens de consumo aos países da iniciativa Uma Faixa, Uma Rota através das ligações marítimas e ferroviárias. Tem o potencial para reanimar o serviço histórico de centro de trocas entre a China e estes países”, afirma Chan, para quem o relacionamento histórico da região com o universo de expressão portuguesa não surge como a alavanca mais determinante nas oportunidades que esta queira aproveitar.

“Os laços sociais e económicos entre Macau e Portugal afrouxaram”, entende o presidente da Associação da Rota Marítima da Seda de Macau. “O primeiro passo para reanimar as relações é a negociação de um acordo de parceria económica e outros acordos nas áreas educativa e social”, defende.

Maria Caetano

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