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Rumo ao Centro

Profissionais e representantes do Governo do Camboja deslocaram-se ao território para participarem numa formação. Esta sessão marca o arranque do trabalho conjunto com a Organização Mundial de Turismo, que antecede o estabelecimento em Macau de um Centro Global para a formação em turismo.

Um grupo de 20 guias turísticos Cambojanos e quatro funcionários da APSARA — autoridade Cambojana responsável pela gestão do parque arqueológico de Angkor Wat —participaram numa sessão no Instituto de Formação Turística (IFT), entre 13 e 21 de Junho, com vista a aumentar as suas competências no acolhimento de visitantes internacionais. A formação antecede o arranque do Centro Global para a formação em turismo, uma instituição que resulta de um acordo entre o Governo de Macau e a Organização Mundial de Turismo (OMT).

A 12 de Outubro de 2015, a OMT e o Governo de Macau assinaram um memorando de entendimento, com vista ao estabelecimento de um Centro Global para a formação em turismo. Depois de estabelecido, o Centro deverá colaborar com a OMT para implementar projetos de formação e educação, levando a cabo programas de investigação conjunta, garantindo oportunidades de estágio e assegurando postos de trabalho técnico. O IFT será responsável pela gestão do Centro. Ainda que não haja uma data certa para o seu arranque, IFT declara numa nota de imprensa que “deverá ser estabelecido em breve”.

Numa entrevista ao PLATAFORMA publicada a 11 de Março, a vice-presidente do IFT referia que o Centro “deverá ser estabelecido algures este ano”. Florence Ian indicava ainda que o Centro terá cursos e programas de turismo, além de investigação e oportunidades de estágio. “O centro irá atrair representantes seniores a Macau e isto é uma boa oportunidade que venham a conhecer mais Macau. Queremos convidar mais pessoas a vir, através do Centro. Além disso, queremos mandar os nossos estudantes para fora”, dizia.

A 30 de Maio de 2016, o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, e o secretário de Estado do Turismo Cambojano assinaram um memorando de entendimento durante a visita de uma delegação de Macau ao país do Sudeste Asiático. O acordo define a cooperação para a promoção do desenvolvimento de turismo sustentável, através do reforço do capital humano, e estabelecendo parcerias entre os dois territórios na formação e educação. A cerimónia foi presidida pelo anterior Chefe do Executivo, Edmund Ho, e pelo atual ministro do Turismo do Camboja, Thong Khon.

Na sequência desse memorando, um grupo de 20 guias turísticos Cambojanos e quatro funcionários da APSARA — autoridade cambojana responsável pela gestão do parque arqueológico de Angkor Wat — participaram num programa de nove dias de formação, entre 13 e 21 de Junho, facultado em colaboração com a OMT. Com o objetivo de aumentar as competências dos guias turísticas no acolhimento dos visitantes internacionais ao parque de Angkor Wat, o programa de formação incluiu seminários, formações práticas, além de visitas aos diferentes monumentos do território considerados Património da Humanidade pela UNESCO.

O futuro

No mesmo dia da assinatura do memorando de entendimento entre a OMT e o Governo de Macau, o IFT inaugurou o seu novo campus na Taipa, nas anteriores instalações da Universidade de Macau (UM). O IFT recebeu três edifícios — incluindo a anterior biblioteca da UM, a sede dos funcionários e o East Asia Hall — e dois laboratórios da Faculdade de Ciências e Tecnologia. “As novas instalações permitem que o IFT garanta um ambiente de ensino melhor e mais vasto. Mais programas e cursos profissionais podem ser planeados de forma a responder às necessidades da indústria e às mudanças da indústria”, diz o IFT em nota enviada à imprensa. Além disso, com mais espaço para formação, as novas instalações “servem o objetivo último de melhorar a educação no turismo e a formação em Macau, de forma a criar profissionais competentes e lideres que possam ajudar a levar adiante a transformação de Macau num centro mundial para o turismo e lazer”.

Quando o Centro estiver criado, o objetivo é que haja um trabalho conjunto entre o Governo de Macau e a OMT de forma a “melhorar a qualidade do capital humano e aumentar a competitividade dos destinos turísticos — em particular na região da Ásia-Pacífico —, alcançando o desenvolvimento sustentável do turismo, a longo prazo”. Com as novas instalações, o IFT acredita “que o projeto irá alcançar os resultados desejados”.

O IFT garante atualmente seis programas diurnos de Licenciatura em Gestão de Artes Culinárias, Gestão de Património, Gestão Hoteleira, Gestão Empresarial de Turismo, Gestão de Eventos Turísticos, Turismo de Retalho e Gestão de Marketing. Do portfólio da instituição de ensino superior constam ainda os programas nocturnos de Licenciatura em Gestão Hoteleira e Gestão de Eventos Turísticos. Para o ano letivo de 2016/2017, há ainda um programa nocturno de Licenciatura em Turismo de Retalho e Gestão de Marketing. “Queremos poder garantir programas de pós-graduação, assim que a nova lei do ensino superior seja aprovada. Sentimos que é preciso que o IFT vá além do atual portfólio de programas de Licenciatura.”

Estabelecido em 1995, o IFT colabora com 97 universidades e organizações de turismo internacionais, e tem acordos com 500 associações de turismo e hospitalidade, de forma a garantir oportunidades de estágio aos seus alunos.

No ano letivo de 2014/2015, o IFT tinha 1.532 estudantes nos seus programas de licenciatura e 20.227 em programas de formação profissional.

O alargamento de horizontes

Profissionais do turismo do Camboja e membros do Governo procuram saber mais em Macau sobre o acolhimento de visitantes internacionais.

Foi a primeira sessão de trabalhos conjuntos entre a Organização Mundial de Turismo (OMT) e o Governo de Macau, e antecede a criação do Centro Global para a formação em turismo. Depois de receber 20 guias turísticos do Camboja e quatro funcionários do APSARA —  autoridade Cambojana responsável pela gestão do parque arqueológico de Angkor Wat —, o professor do Instituto de Formação Turística (IFT), John Ap, afirma ao PLATAFORMA que estes queriam sobretudo ganhar competências na prestação de serviços.

A sessão de formação teve lugar entre 13 e 21 de Junho e do programa constavam vários tópicos. Entre os principais temas aflorados, incluem-se a importância de serviços de qualidade para turistas em monumentos históricos, a compreensão do turismo internacional, a oferta de um serviço de guias de qualidade aos visitantes, a apresentação de um monumento histórico e o trabalho com as comunidades locais.

Assim, realçaram-se os elementos-chave que podem ter impacto na experiência dos turistas, ao mesmo tempo em que se demonstrou, numa visita ao centro histórico do território inscrito na UNESCO, como um guia turístico pode influenciar a experiência de um visitante a um monumento.

A formação explorou ainda os recentes desenvolvimentos e tendências internacionais no que toca ao turismo internacional, bem como as características importantes que um bom guia deverá possuir quando exercendo o seu trabalho num monumento histórico. A sessão no território incluiu ainda a apresentação das técnicas de interpretação temática, o trabalho que deve ser feito com as comunidades locais e os princípios e estratégias a desenvolver para fazer uma boa gestão de turistas. No fim do programa, os formandos dividiram-se em pequenos grupos para desenvolver estratégias que garantam uma melhoria da qualidade das experiências dos visitantes de Angkor Wat.

Com uma componente fortemente prática, a formação incluiu visitas ao centro histórico do território que consta da lista de património mundial definida pela UNESCO, de forma a que os formandos possam aprender como um guia turístico pode influencia a experiência de um turista.

Entre os principais monumentos por onde os formandos passaram, contam-se as Ruínas de São Paulo, a Fortaleza do Monte, o Templo de Na Tcha, a Igreja de São Domingos, o Largo do Senado, o edifício do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, a Santa Casa da Misericórdia, o Teatro D. Pedro V, a Capela do Seminário de S. José, o Templo de A-Ma e a Colina da Penha. Houve ainda uma oficina sobre o desenvolvimento de estratégias para garantir uma experiência de qualidade aos turistas que visitem Angkor Wat, que culminou com as apresentações dos formandos.

Cada um dos formadores deu ênfase a pontos diferentes. “A minha apresentação centrou-se na boa prestação de serviços, bem como na forma como o planeamento se conjuga com esta”, afirmou ao PLATAFORMA o coordenador do programa, John Ap.

Também se deu ênfase à interpretação da gestão do património bem como à atividade de guia turístico. No fim do programa, todos os participantes tiveram de aplicar na prática os ensinamentos. “O importante era perceber como poderiam usar o que aprenderam no Camboja e, por isso, tiveram alguns dias para trabalhar nisso”, salienta.

As dúvidas

Na apresentação que preparou para mostrar aos formandos, John Ap começou por nomear os seus objetivos: rever algumas características do turismo, examinar o papel do planeamento para as atrações, avaliar as seis chaves para o sucesso bem como o papel e importância de garantir serviço de qualidade consistente, além de examinar as expetativas ocidentais. Dando particular ênfase ao serviço, o académico realçou ainda, no seu documento de apresentação, que “o turismo visa proporcionar uma experiência agradável e memorável, para que as pessoas queiram regressar e recomendar aos seus familiares e amigos.”

Em conversa com o PLATAFORMA, John Ap diz que procurou demonstrar a “importância da atenção aos detalhes” e como isso pode “realçar um serviço e um turismo de qualidade”, de forma a “alargar os horizontes” dos formandos. Além disso, o professor do IFT procurou demonstrar a “importância da experiência de viagem na sua totalidade”, salientando que os guias turísticas são apenas “uma das partes do sistema”, e que tudo se interliga com outros pontos, como o transporte ou o alojamento. “Procurei mostrar como é importante criar experiências memoráveis para os visitantes — e que não pensem que o vosso trabalho é apenas ser guia turística e relatar as atrações no interior do complexo de Angkor Wat”, diz.

Finalmente, John Ap procurou também demonstrar a importância de pensar nos problemas, recorrendo a uma perspetiva proativa. “Normalmente, os Asiáticos tendem a adotar uma postura reativa ao invés de tomar a iniciativa e de serem proativos. Uma abordagem ocidental procura antecipar os potenciais problemas e resolvê-los na fase do planeamento”, realça.

Assim, John AP partilhou com os alunos a perspetiva ocidental e o que os turistas internacionais procuram. “Sou um Chinês nascido na Austrália e penso de forma mais ocidental [do que oriental]. Procurei, por isso, mostrar-lhes as expetativas dos turistas ocidentais em oposição às expetativas dos típicos turistas Asiáticos, para que saibam lidar com estes visitantes”, afirma.

Além disso, o professor centrou-se no planeamento turístico, já que isto foi “era novo para a equipa do Camboja”. Afinal, em muitos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, “o turismo acaba por ser um fenómeno que emerge e que as pessoas não planeiam”. Na opinião do docente do IFT, grande parte das atitudes negativas dos locais em relação ao turismo é quando “não há controlo no rumo” que está a tomar a indústria. “As pessoas da indústria apoiam muito o turismo e o seu desenvolvimento dados os benefícios económicos que traz, mas é preciso monitorizar de forma a minimizar o impacto negativo, que pode então resultar em percepções negativas da comunidade”, declara.

Deu-se também particular importância ao papel da interpretação e da narração de histórias, ao desempenhar a função de guia turístico. “Muitas vezes, os guias são treinados para passar os factos e a informação, mas os factos e a informação podem não estar necessariamente relacionados, quando olhamos para um ponto particular”, diz, acrescentando: “Podes descrever o que estás a ver, mas se não ofereceres qualquer contextualização, podes não perceber como uma atração específica no interior de um complexo é particularmente importante.”

No fim da formação, o coordenador revela que os participantes oriundos do Camboja estavam particularmente satisfeitos com as ferramentas que lhes foram transmitidas. “Acharam a formação útil e educativa. Procurámos ajudá-los a alargar os horizontes e o conhecimento no que toca à prestação de serviços enquanto guias turísticos — em particular, recorrendo a uma abordagem mais holística”, declara.

Sobre eventuais ações complementares a esta, John Ap diz que nada está descartado, tendo-se apercebido do interesse por parte do grupo do Camboja. “Um dos funcionários do APSARA disse ter vontade de outras ações, mas isso cabe negociar com o IFT”, diz.

As próximas ações

Estão já a ser preparadas ações de formação direcionadas a profissionais ou funcionários do Governo de outros países — a próxima terá lugar em Novembro.

Entre as próximas ações de formação a ter lugar no Instituto de Formação Turística (IFT), no âmbito do protocolo estabelecido entre o Governo de Macau e a Organização Mundial de Turismo (OMT), estão já a ser preparadas duas que se destinam a equipas da Mongólia e do Afeganistão.

Segundo o professor do IFT, John Ap, a ação que teve lugar entre 13 e 21 de Junho, e que contou com 20 guias turísticos do Camboja e quatro funcionários do APSARA — autoridade Cambojana responsável pela gestão do parque arqueológico de Angkor Wat —, foi a primeira a decorrer no âmbito da cooperação com a OMT. Mas outras estão já a ser preparadas, nomeadamente com países como o Afeganistão e a Mongólia. “Os projetos a ser tratados, através da OMT e do seu escritório asiático”, diz, acrescentando: “Neste momento, estamos a tentar identificar, através da OMT, as necessidades de cada um destes países, de forma a poder criar um programa que seja uma mais-valia e usá-lo, ao invés de sermos nós a determinar o que cada um dos países precisa.”

O Governo do Camboja “foi muito específico a definir o que queria e como queria melhorar a qualidade dos guias turísticas”, daí ter sido esse mesmo o ênfase da ação de formação.

Em Novembro, deverá decorrer a ação de formação destinada a profissionais da Mongólia. “Ainda não está tudo finalizado. Tudo passa por canais governamentais. Já pedimos à OMT para inquirir junto do Governo respetivo quais são as necessidades específicas. Já nos deram algumas indicações, mas são vagas”, diz, esclarecendo que muito está ligado aquilo que Pequim designou de Novas Rotas da Seda. Recorde-se que uma das grandes prioridades da política externa da China Continental passa por criar extensas redes de transporte, conexões e infra-estruturas que partam da China e, por via terrestre e marítima, cheguem à Europa, até 2025. “É ver como alguns destes países, que passam por esta Rota da Seda, podem beneficiar desta iniciativa. É preciso perceber como podemos colaborar e cooperar, de formar a assegurar vantagens”, revela.

Os preparativos

Para John Ap, em ações futuras, determinados parâmetros devem ser incluídos. “Temos de dar uma introdução ao planeamento turístico”, diz, esclarecendo que “muitas pessoas da indústria não têm esta experiência, já que a maior parte está envolvida nas operações ou são elementos do Governo encarregues da parte administrativa”.

Na sua opinião, esta área do planeamento é de grande importância, já que, ao longo da sua carreira, ao participar em várias sessões de formação, muitas pessoas demonstraram interesse nesse campo. Além disso, deverão também fazer parte das sessões outros temas como a excelência na prestação de serviços, assuntos ligados à liderança ou estratégias a usar nos recursos humanos.

No que toca às ações direcionadas à Mongólia e ao Afeganistão, John Ap revela que a maior parte dos interessados deverá vir do Governo. “No caso do Camboja, havia necessidades específicas para melhorar a qualidade dos guias turísticos e esse foi o nosso ênfase”, diz. Já quanto à Mongólia e do Afeganistão, deverá haver uma perspetiva mais macro, de forma a assegurar “um maior conhecimento e diferentes abordagens a estes funcionários do Governo”.

‭ ‬Luciana Leitão

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