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Um ar impróprio para consumo

A OMS recomenda que a concentração de micropartículas PM 2.5 no ar — um dos poluentes considerados mais lesivos para a saúde — não se situe acima dos 25 microgramas por metro cúbico, em média, por dia. Macau estipula um limite três vezes superior. A discrepância tem um motivo: caso se adotasse o parâmetro recomendado internacionalmente, a população não poderia sair à rua. 

Fong (nome fictício), 15 anos, tem asma alérgica e sentiu-se mal, depois de uma aula de educação física ao ar livre. “Tem sempre crises em duas épocas do ano e esta é uma delas”, diz a mãe ao PLATAFORMA. “Agora e depois em Setembro/Outubro”, acrescenta. “Ficou com as vias respiratórias muito obstruídas e depois sentiu dificuldade em respirar.” Coincidência ou não, nessa semana, foram dados alertas para uma concentração média diária de PM 2.5 acima dos limites recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em Macau, a monitorização da qualidade do ar é feita com base na análise de seis poluentes. As partículas inaláveis suspensas (conhecidas por PM) com o diâmetro igual ou menor a 10 micrómetros (PM10) e as partículas finas suspensas com diâmetro igual ou menor a 2,5 micrómetros (PM2,5), além do  monóxido de carbono, dióxido de azoto, dióxido de enxofre e o ozono.

No dia 10 de Maio, os jornais divulgavam que Macau e Hong Kong registavam níveis de poluição atmosférica considerados perigosos para a saúde. Segundo o meteorologista dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG), Benson Wong Chan Seng, no período que se situa entre 6 e 11 de Maio, só no primeiro dia em análise é que “o valor de PM 2.5 excedeu o nível definido pela OMS”, levando a que a página da Internet dos SMG alertasse para a qualidade do ar “insalubre”. Nessa situação, “aconselha-se a que pessoas com doenças respiratórias e cardíacas [ou crianças e idosos] reduzam o exercício físico e as atividades no exterior”.

Entre os fatores por detrás do aumento deste índice, está a “baixa” velocidade do vento, que resulta “numa dissipação mais lenta dos poluentes, causando acumulação dos poluentes no território” e uma “degradação da qualidade do ar nesses dias”.

A OMS recomenda que a concentração de PM 2.5 não se situe acima dos 25 microgramas por metro cúbico, ao passo que os SMG estipulam esse limite nos 75 microgramas por metro cúbico. “Se Macau usasse o nível inferior, era preciso suspender o funcionamento do território”, diz o meteorologista. “Estamos primeiro a tentar definir um objetivo e depois iremos, passo a passo, reduzir”, refere.

De qualquer maneira, acrescenta, se a concentração se situar acima dos 25 microgramas por metro cúbico “produz alguns efeitos [para a saúde], mas não são severos; mesmo acima dos 75, só os grupos de risco [pessoas com doenças respiratórias e cardiovasculares, além de idosos e crianças] têm de se preocupar”.

No geral, Benson Wong Chan Seng defende que “não há motivos para alarme”, por a qualidade do ar “não ser má”, estando a assistir-se, ao longo dos anos, a uma descida da concentração dos poluentes. Por exemplo, no ano passado, “mais de 95 por cento da qualidade do ar foi entre normal a boa”, realça, tendo por base as medições feitas pelos SMG.

Os poluentes que mais afetam a qualidade do ar da região são o ozono e as PM 2.5. Sobre a origem da poluição, o técnico aponta a China continental e as fontes locais (transportes, sobretudo). “Os níveis de ozono vêm de fora de Macau — implica que haja uma reação química de alguns poluentes, transformando-os em ozono”, explica. Ainda assim, são baixos, quando comparados com a região. “O ozono no Delta do Rio das Pérolas está a aumentar; em Macau, não”, diz.

O último relatório do estado do ambiente de Macau, disponível na página da Internet da Direção dos Serviços de Proteção Ambiental (DSPA), confirma que em 2015 os principais fatores que afetaram os índices da qualidade do ar de Macau foram os valores das PM 2.5 e de ozono. No caso de outros poluentes, como o dióxido de enxofre, o dióxido de azoto e o monóxido de carbono, “registaram uma diminuição comparativamente a 2014”, devido a algumas medidas como “a imposição de padrões de controlo mais rigorosos respeitantes à qualidade dos produtos derivados do petróleo”. No geral, entre as principais fontes de poluição estão “os transportes terrestres, os transportes aéreos, o comércio, o consumo doméstico e serviços, a construção e a incineração de resíduos”.

Os resultados da monitorização da qualidade do ar mostram que, em 2015, o ar foi “bom” ou “moderado” em aproximadamente 90 por cento do número total de dias.

A relação causa-efeito

A investigadora do Instituto para a Ciência e Ambiente da Universidade de São José, Ágata Alveirinho Dias, diz que a população deve observar “diretamente a concentração dos vários poluentes” para conseguir saber os cuidados a ter.

Assim, diz, sempre que o nível de PM 2.5 “está acima dos 25 microgramas por metro cúbico [média diária]” convém ter cuidado. “O Governo não tem como limites os aconselhados pela OMS para qualidade do ar saudável e usa, em vez dos 25 microgramas por metro cúbico, os 75, o que não quer dizer que não esteja também de acordo com a OMS”, refere, explicando: “Em regiões onde a poluição é muito elevada ou onde já se estão a tomar medidas para ver se a poluição melhora, podem usar-se outros níveis, mas sabendo-se que esses níveis são perigosos para a saúde — aumentam a probabilidade de morte prematura, cancro e outros.”

Os principais poluentes em Macau são as PM 2.5, mas também o ozono, normalmente menos falado. “As PM 2.5 não devem ultrapassar os 25 microgramas e as PM 10 os 50, mas, no ozono, contabiliza-se uma média de oito horas”, explica, citando os dados da OMS. “Mas quando se chega acima dos 300 microgramas por metro cúbico, mede-se numa hora — ou seja, não convém nunca respirar mais do que uma hora 300 microgramas por metro cubico de ozono”, refere, salientando que, entre 5 e 6 de Maio, chegou-se a este nível de concentração no território.

“No geral, no inverno, o problema em Macau são as partículas, enquanto no verão é o ozono — o ozono forma-se quando há uma radiação solar elevada, quando o sol está forte e reage com óxidos normalmente de azoto e produz mais ozono (mau) porque existe o ozono bom que está cima da atmosfera”, esclarece.

Sobre a origem da poluição, a investigadora afirma que, ainda que grande parte venha da China continental, “podem fazer-se coisas localmente”, referindo, a título de exemplo, a promoção de mais reciclagem. “Não há necessidade de haver tanta incineração, se houver reciclagem. Não há necessidade de haver tantos transportes de alta cilindrada, podemos ser um exemplo de um sítio com carros elétricos”, defende.

Além disso, salienta, devia haver mais avisos à população, que se encontra pouco consciente dos riscos.

O impacto para a saúde

Entre as partículas inaláveis, as PM 2.5 são consideradas as mais lesivas para a saúde, dada a sua dimensão mais reduzida, apontando-se efeitos respeitantes “predominantemente aos sistemas cardiovasculares e respiratórios”, conforme refere a OMS nas suas linhas orientadoras para a qualidade do ar, publicadas em 2005.

Os limites estabelecidos pela OMS como aconselháveis variam entre os 25 microgramas por metro cúbico, numa média diária, e os 75 microgramas por metro cúbico. Mas, caso os índices de PM 2.5 atinjam ou superem este teto superior, “há um aumento de cinco por cento de mortalidade, a curto prazo”, em relação ao limite mínimo.

No caso do ozono, a OMS aconselha os diferentes países e regiões a fixarem o limite de concentração nos 100 microgramas por metro cúbico, numa média de oito horas, ainda que considere a possibilidade de se chegar aos 160 ou 240 microgramas.

Macau adotou o teto de 160 microgramas por metro cúbico, que é 1,6 vezes superior ao determinado pela OMS. A exposição a este nível de concentração de ozono está associada a “efeitos fisiológicos e inflamatórios nos pulmões em jovens adultos saudáveis que façam exercício físico, expostos por períodos de 6,6 horas”, além de “efeitos na saúde das crianças” e de um “aumento estimado entre 3 e 5 por cento na mortalidade diária”.

Em outubro de 2013, a Agência Internacional de Pesquisa em Cancro (IARC), subordinada à OMS, classificou, pela primeira vez, a poluição atmosférica do ar livre como agente cancerígeno notável, no mesmo grupo do tabaco e álcool. Da avaliação da IARC resulta também a conclusão de que a poluição do ar nas cidades e nas zonas rurais foi responsável por 3,7 milhões de mortes prematuras por ano, no mundo, em 2012. Essa mortalidade deveu-se à exposição às PM10.

Luciana Leitão

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