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O princípio da incerteza e a China a sorrir

Trump rompeu com o status quo e, embora com menos votos brutos, manteve a base republicana e arrebatou a maioria dos estados em dúvida. Clinton, moderada, senhora da continuidade, deixa uma certeza: mulheres, negros e hispânicos não se reviram nela. Trump, antisistema, xenófobo e protecionista, captou o eleitorado branco, da classe média-baixa, excluído pelo mainstream. Resta a incerteza: fará Trump o que prometeu? Ou render-se-á à realpolitik, aos lobbies internos e à ordem mundial? Curiosamente, a China sorri face ao novo inquilino da Casa Branca.

Francisco Leandro, professor na Universidade de São José, que anteontem falou sobre Segurança na Fundação Rui Cunha, detaca o princípio da “incerteza” trazido por Trump. O ataque aos imigrantes, o protecionismo e a ameaça nuclear aumentam a “percepção do risco”, quer na relação entre estados quer na relação entre o Estado norte-americano e os seus cidadãos. Isto porque a proteção do modo de vida, do emprego, dos investimentos, etc, faz hoje parte da perceção da segurança, encarada de um modo global e compreensivo. Na mesma sessão, Rui Flores, que apresentou os novos conceitos de segurança na Europa, destaca dois aspetos de sinal contrário na relação de Trump com o Velho Continente: por um lado, o protecionismo e o fim do tratado transatlântico prejudicam as relações comerciais; por outro, a exigência de uma NATO renovada, com maior participação dos europeus, até vai ao encontro da visão que Bruxelas hoje tem da sua própria Defesa.

China feliz

“Estou ansioso para trabalhar consigo, sem conflitos ou confrontos” e “sob o princípio do respeito mútuo e cooperação”, escreveu Xi Jinping a Trump, num telegrama bem mais caloroso que a maioria das mensagens enviadas pelos líderes europeus, mais inclinados para Clinton.

“Os republicanos valorizam mais uma relação com base no benefício mútuo”, comenta Zhao Kejin, vice-diretor do centro de pesquisa sobre política global Carnegie-Tsinghua. “De um ponto de vista global” é “mais fácil para a China lidar com Trump”, explica Mei Xinyu, investigador do Instituto de Cooperação Económica e Comércio Internacional do Ministério do Comércio da China, pensando numa relação “já muito institucionalizada e benéfica também para os EUA”, na expressão de Cheng Xiaohe, professor do departamento de Relações Internacionais da Universidade Renmin.

“Faz sentido”, explica Sales Marques ao Plataforma: “Em primeiro lugar, as ameaças de Trump são fundamentalmente na esfera económica”: acusa a China de manipular a moeda, promete sobrecarregar as importações chinesas com tarifas compensatórias e anuncia incentivos às empresas americanas para que façam regressar as suas unidades de produção. Embora faça “mossa”, a China “é capaz de gerir isso”, sustenta Sales Marques. Até porque uma coisa é o que Trump anuncia, outra é o que poderá fazer”, uma vez que “os negócios com a China são de enorme dimensão e envolvem muitos interesses republicanos”. Por fim, conclui, se as tarifas adicionais “tornam os produtos chineses menos competitivos”, também servem de “incentivo à reconversão do modelo de crescimento chinês” – dos produtos manufaturados para exportação para o paradigma de crescimento do seu próprio mercado interno.

Tensão no Pacífico

Arnaldo Gonçalves acredita que o protecionismo de Trump e “a concentração dos Estados Unidos em si próprio” significam também uma política externa “calculista e mais frontal”. Nesse contexto, o especialista em relações internacionais disse no telejornal da TDM que espera “uma maior presença naval norte-americana” na Ásia Pacífico.

Sales Marques defende precisamente o contrário: “O regresso a um certo isolacionanismo americano pode ser visto com bons olhos” por Pequim, vislumbrando-se uma “presença menos evidente e o fim da política de regresso à Ásia”, personificada “precisamente por Hillary Clinton”. Esse “relaxamento só pode beneficiar a China, que terá de pensar menos na sua própria segurança”. Por fim, “um recuo dos Estados Unidos da sua posição de polícia do mundo, abre campo de manobra à China” e, do ponto de vista ideológico, a pressão de Trump contra o multilateratismo reforça a ideia de que há modelos alternativos à ordem internacional neoliberal, que também não agrada à China”. Nessa medida os extremos tocam-se e “o chamado consenso de Pequim pode ganhar mais força”.

Macau reage a “incidente súbito”

Depois de uma primeira reação negativa, de Nova Iorque a Hong Kong, as quedas na bolsa chegaram a provocar uma reunião de emergência em Tóquio. Mas ontem as bolsas voltaram a normalizar. Entretanto, o Governo de Macau declarou-se “preparado para as flutuações dos mercados financeiros” geradas por um “incidente súbito” na sequência da eleição de Trump.

“O Governo da RAEM e o sistema financeiro local dispõem de capacidade suficiente para fazer face às flutuações dos mercados financeiros”, garante a Autoridade Monetária de Macau, anunciando “mecanismos de supervisão e de resposta ao incidente, de modo a reforçar a comunicação e a coordenação com as instituições financeiras locais, bem como a tomar atempadamente providências, caso a situação se justifique, para manter a estabilidade económica e financeira de Macau”.

A Região tem “liquidez bastante para fazer face a este incidente súbito”, com uma reserva cambial, em setembro deste ano, de 154,9 mil milhões de patacas (19,3 mil milhões de dólares) e ativos em divisas correspondentes a “aproximadamente 12 vezes o valor da moeda em circulação em Macau”.

Por fim, o Governo apela à população para que “seja prudente e se mantenha muito atenta aos riscos, consoante o seu apetite pelo risco”. 

‭ ‬Paulo Rego

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