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Portugal quer mais renminbis

Jorge Torres Pereira, embaixador de Portugal na China, foi na passada semana distinguido como diplomata económico do ano pela Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa. O Prémio Francisco de Melo e Torres tem como objetivo assinalar os esforços para a captação de investimento e internacionalização de empresas nas relações externas, e a escolha do distinguido deste ano não será alheia ao facto de Portugal ter recebido de empresas chinesas mais de 6,5 mil milhões de euros em investimento nos últimos anos. 

O diplomata, que se encontra em Pequim desde 2013, assume a captação de investimento como uma das principais tarefas da diplomacia e acredita que, apesar o momento económico na China ditar novos constrangimentos à saída de capitais do país, a tendência de aproximação económica de Pequim a Lisboa é para continuar. Mas, diz, o mais importante é garantir que os investimentos que já foram feitos corram bem.

Para este ano, Torres Pereira espera a resolução de dois projetos atrasados: a abertura do Consulado-Geral de Portugal em Cantão e o início de funcionamento de um Centro Cultural Português em Pequim.

- O que é que este prémio significa para si em termos de um reconhecimento da ação que teve nos últimos anos na embaixada portuguesa em Pequim?

Jorge Torres Pereira – Como deve calcular, foi muito agradável, sobretudo porque é um prémio que vem da sociedade civil, de fora das estruturas do Ministério [dos Negócios Estrangeiros] e do Estado. É no fundo o reconhecimento por parte de uma associação representativa dos empresários, o que é duplamente simpático. Por outro lado, como tive ocasião de dizer quando recebi o prémio, considero isto não só uma distinção pessoal como também da equipa que na China esteve a trabalhar em matérias de diplomacia económica, que inclui não só a embaixada e a delegação da AICEP em Pequim, como os consulados-gerais em Xangai e em Macau, e os delegados da AICEP. Creio que a todos nós, que nos coordenámos intimamente nestes últimos anos e que apresentámos anualmente planos comuns de desenvolvimento em relação a iniciativas de natureza económica, este prémio conforta-nos no sentido de estarmos a fazer as coisas bem.

- Vemos que este grande enfoque na promoção económica do país e captação de investimento internacional não é uma tendência passageira na ação da diplomacia.

J.T.P. – Diria que os diplomatas sempre fizeram diplomacia económica. Na diplomacia económica a única diferença é existir um rótulo. A diplomacia sempre parte da atividade de um embaixador a ativamente contribuir para facilitar a vida das empresas portugueses e para facilitar todos os contactos que possam levar a maior investimento. Um dado que também é importante, embora este prémio seja efetivamente de diplomacia económica, é lembrar, como o senhor ministro [Augusto Santos Silva] aliás disse o ano passado, que a palavra diplomacia não precisa de atributos, seja económica, cultural ou da língua. A diplomacia é um todo e, portanto, o que nós fazemos no sentido de promover o ensino da língua portuguesa nas universidades chinesas, o que fazemos no sentido de divulgar a imagem de Portugal no plano cultural, tudo isso é também um trabalho que tem um retorno ao nível do relacionamento bilateral económico. Nesse aspecto, fazemos diplomacia, e é evidente que temos consciência em relação à situação do país e às necessidades de desenvolvimento económico de Portugal a médio prazo. O investimento é um aspecto fundamental. A China será cada vez mais um gerador importante de investimento direto externo. Portanto, essa é uma dimensão que tratamos com especial cuidado e creio que vai continuar assim.

- Há receio de algum afrouxamento desse investimento na Europa, e em particular em Portugal, numa altura em que há maior controlo na saída de capitais chineses e se assiste a uma tendência de maior investimento nos Estados Unidos?

J.T.P. -  Não sei dizer como é que as coisas se vão desenrolar. Há claramente, na lógica do que se está a passar na China, um incentivo à internacionalização da economia chinesa, ao ‘go global’, à aquisição de ativos noutras geografias. É verdade que existe mais recentemente algum receio em relação aos montantes de capitais que saem da China, mas – como costumo dizer – antes de nos preocuparmos com o que vem a seguir temos de nos preocupar, como diria de uma forma coloquial, que a coisa corra bem. Isto é, que os investimentos chineses feitos até agora sejam histórias de sucesso, deem retorno financeiro a quem investiu, e que sirvam os propósitos da forma como temos apresentado o investimento em Portugal: que efetivamente contribuam para que em parceria nos possamos mover em geografias na América Latina, em África, em países lusófonos. E é claro que, neste contexto todo, Macau também tem o seu papel a jogar.

- Irá haver alguma alteração na rede diplomática portuguesa na China em virtude do início dos voos diretos entre estes países este Verão?

J.T.P – Para já, o que sabemos é que há uma intenção que já vem de há um ano de abrir um consulado-geral em Cantão. Isto representa já um reforço da malha diplomática e da AICEP que cobre a China. O Turismo de Portugal está presente em Xangai e eu tenho tentado que essa presença seja reforçada, sobretudo a partir do momento em que tivermos o ponto de partida de um voo para Portugal a partir de Pequim. Tenho encontrado, naturalmente, um empenho em todos os decisores no sentido de fazermos tudo o que é preciso ser feito para que os indicadores de visitantes chineses em Portugal continuem a expandir-se ao ritmo a que se têm expandido nos últimos anos.

- Haverá necessidade de em Hangzhou, em específico, haver alguma estrutura portuguesa?

J.T.P. – Para já, não creio que esteja nas prioridades imediatas.

- Em relação ao Consulado de Cantão, que se esperava que estivesse já em funcionamento, quando é que se espera que possa finalmente iniciar abrir portas?

J.T.P. – Creio que todos os atrasos serão ultrapassados e que, seguramente no decorrer deste ano de 2017, teremos um edifício em Cantão com a bandeira portuguesa e com a indicação de Consulado-Geral de Portugal em Cantão.

- Em que passo estão os planos para a criação de um Centro Cultural em Pequim, também previsto para o ano passado?

J.T.P. – Digamos que o enquadramento jurídico que passa por um instrumento que foi acordado entre os dois governos está ultrapassado. Agora estamos na fase em que temos de identificar um espaço, temos de identificar um orçamento para o financiamento sustentável desse espaço, e logo que isso estiver definido temos de começar a pensar na programação para esse centro cultural. Naturalmente, não são programações a seis meses nem a um ano – têm de ser pensadas com mais tempo. Também estou esperançado que durante o ano de 2017 tenhamos novidades boas nesse campos.

- O financiamento será assegurado exclusivamente com receitas provenientes do Estado Português ou haverá envolvimento de privados?

J.T.P. – Isso ainda não foi pensado no detalhe, mas penso que no que diz respeito à programação devemos pensar num modelo em que o mecenato seja uma componente importante.

- Macau passa a acolher a sede efetiva do Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Também o Fundo de Cooperação que lhe diz respeito passa a estar sedeado em Macau. Que papel é que Macau poderá ter, que ainda não tenha, na ação diplomática portuguesa nesta vertente económica?

J.T.P. – Estamos completamente atentos a estas alterações, que decorrem aliás da visita do primeiro-ministro chinês a Macau em Outubro do ano passado. Como temos sempre dito, Portugal está particularmente empenhado em que a diversificação da economia de Macau seja uma realidade e seja um sucesso. A região administrativa especial de Macau pode contar com Portugal em todas estas iniciativas que representam o futuro da região. Daremos o devido acompanhamento. O ponto é que há uma série de iniciativas a que Macau em primeiro lugar terá de dar corpo. Dentro dos países de língua portuguesa que cooperam no quadro do Fórum, seguramente Portugal será dos que estará mais empenhado em que todas essas iniciativas e eventos sejam concretos e tenham resultados.

Maria Caetano

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