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SETOR DAS COMUNICAÇÕES NA LUSOFONIA DESPERTA INTERESSE DA CHINA

 

Os países de língua portuguesa têm muitas oportunidades de investimento no setor das comunicações, defendeu o presidente da Associação Internacional das Comunicações de Expressão Portuguesa, João Caboz Santana. Em entrevista ao Plataforma Macau, o responsável constata que o mercado lusófono tem despertado o interesse das empresas chinesas, considerando que poderão surgir futuramente parcerias estratégicas.

 

PLATAFORMA MACAU – A associação realizou este ano, pela primeira vez, em Macau uma reunião de altos dirigentes. Por que razão escolheram Macau?

JOÃO CABOZ SANTANA – É um encontro que pretende reunir todos os presidentes e altos executivos das organizações associadas da AICEP e que fazemos todos os anos e esta foi a primeira vez que teve lugar fora de Portugal. Este ano aconteceu em Macau desde logo porque fomos convidados pelos nossos membros locais e porque é muito importante a sua preservação.

A nossa associação assenta a sua atividade em dois eixos fundamentais, o das comunicações, e do seu desenvolvimento, e também na língua portuguesa. Macau é um território que também fala português e queremos dar um contributo para a consolidação, preservação e manutenção da relevância da língua portuguesa como um ativo estratégico dos nossos membros aqui, porque o peso económico do português é incontornável. A quantidade de pessoas que falam português no mundo e de negócios que se fazem por todo o mundo em português tornam a língua como um ativo estratégico e, portanto, há que saber preservá-lo e aproveitá-lo.

Por outro lado, manter a atividade associativa com os nossos membros de Macau é uma alegria e orgulho imensos, pois eles são o nosso elo de ligação a esta zona geograficamente mais distante das outras geografias representadas na lusofonia que queremos preservar e aumentar.

Este ano debatemos o tema “Um Futuro em Rede – Oportunidades e Desafios”, que não podia deixar de ser mais oportuno, porque o setor das comunicações tem uma dinâmica extraordinária, está a sofrer um desenvolvimento muito acentuado, vertiginoso, diria mesmo, tal como o setor das tecnologias de informação e vivemos uma nova realidade que é o digital. A era do digital é um mundo novo e é também a era do consumidor, pois nunca o consumidor teve tanto poder como hoje. O setor das comunicações vive hoje em rede e temas como a convergência de serviços, mobilidade, digitalização, virtualização, segurança e privacidade de dados constituem enormes oportunidades e também desafios.

P.M. – Como olha para o setor das comunicações de Macau?

J.C.S. – Da mesma forma como olho para o setor no mundo que fala português, com enorme confiança. Os desafios são muitos, mas não são menos do que as oportunidades e também em Macau o mercado compara muito bem com o que de melhor se faz em todo o mundo e tem operadores permanentemente a disponibilizar aos consumidores ofertas modernas e adequadas à realidade do digital de novos serviços.

Que o trabalho continua, continua, que as exigências do consumidor vão ditar novas ofertas, vão. Está-se a discutir em Macau a questão do ‘triple play’ e do ‘quadruple play’, que são ofertas já mais consolidadas noutras geografias, nomeadamente na lusofonia, como é o caso de Portugal, mas tenho a certeza de que os operadores já estão a trabalhar nelas e que saberão oferecer ao mercado aquilo que ele pede.

Em Macau, bem como em toda esta zona da Ásia, o grau de penetração é muito elevado, o que faz com que sejam elevadas as expectativas dos consumidores. Acredito que os operadores estão claramente a trabalhar e a identificar todos os desafios e oportunidades de desenvolver-se enquanto organizações e de contribuírem para o desenvolvimento do mercado das comunicações em Macau. Há sempre mais e melhor para se fazer aqui e em todo o lado e penso que Macau está no bom caminho.

P.M. – Como compara a lusofonia neste setor com outras partes do mundo? 

J.C.S. – Acho que compara muito bem. O setor das comunicações é um dos principais motores de crescimento das economias. Considerando que a economia da lusofonia no seu todo é crescente, muito alavancada pelo Brasil, Angola e Moçambique, o setor lusófono das comunicações compara muito bem com o de outras geografias. Não ficamos nada atrás, procuramos acompanhar as tendências, antecipá-las e, no fundo, as ofertas que os nossos clientes têm são as mesmas do que em outras geografias.

P.M. – Qual o peso do setor das comunicações na economia da lusofonia?

J.C.S. – É muito grande, ele contribui muito para o crescimento da economia dos países em que está inserido, para a criação de emprego e há estudos que dizem inclusivamente que a economia mundial vai crescer muito puxada pelas economias lusófonas, em particular pelas africanas. Ora se pensarmos que todos os países de expressão portuguesa se fossem um só país representariam a sexta economia mundial, com cerca de 4,6% do PIB mundial, isto diz tudo do peso e da relevância que a economia da lusofonia tem na economia mundial. E sendo as comunicações um grande fator de crescimento das economias lusófonas vejamos bem a influência que tem na geração de valor, na criação de emprego e sobretudo como grandes e importantes fatores de coesão económica e social dos próprios países.

 

P.M. - Quais as perspetivas futuras de negócio neste setor? 

J.C.S. – Esta era do digital, que é também uma era de convergência, traz desafios em rede para todos. As pessoas escrevem cada vez menos cartas e, portanto, comunicam-se mais eletronicamente e utilizam mais soluções digitais, por isso, é irreversível que, para o setor postal, o correio físico está a decrescer e vai continuar a decrescer. A carta não vai morrer, nunca há de morrer, mas vai continuar a decrescer.

No entanto, também assinalamos um aumento significativo, crescente e também irreversível das encomendas motivado pelo comércio eletrónico. Este é um dado novo que assinala claramente esta convergência entre o setor postal e das telecomunicações. Por outro lado, cada vez mais os operadores postais em todo o mundo estão em processos de grande transformação e a oferecer mais aos seus clientes soluções digitais baseadas em modelos de negócio digital, portanto, também estes desafios não estão a deixar de constituir grandes oportunidades para os operadores de correios que as estão a saber agarrar.

Também há um grande fenómeno novo e de convergência entre o setor das telecomunicações e dos conteúdos em todo o mundo e também no espaço lusófono, nomeadamente em Portugal. Os operadores de telecomunicações são hoje cada vez mais operadores de conteúdos. A convergência é incontornável para o mercado e para os seus players e dessa forma tem influenciado e vai continuar a influenciar positivamente todos os que neles operam e trabalham.

 

P.M. – No âmbito das telecomunicações, era importante que houvesse uma grande operadora lusófona?

J.C.S. – Tem-se assistido nos últimos anos a alguns fenómenos de concentração em diferentes geografias. Aconteceu em Portugal, em Cabo Verde, haverá porventura algum espaço ainda para que isso possa acontecer, mas isso não passa necessariamente por fusões entre empresas para constituir um grande operador. Em todo o mundo – e a lusofonia não é exceção – verificam-se casos muito relevantes e interessantes em que as várias empresas continuam independentes, mas unidas num propósito estratégico de desenvolvimento comum e a partir daí  desenvolvem em conjunto um determinado projeto e alguma parceria e aproveitando sinergias relevantes.

 

P.M. – Mas haveria benefícios em termos uma grande operadora lusófona?

J.C.S. – Acho que há sempre benefícios, mas não estou a dizer é que isso vai acontecer ou que pode acontecer, mas esses fenómenos de concentração têm vantagens que podem ser aproveitadas em benefício do mercado e do cliente.

Confesso que tenho algumas dúvidas de que haja mais espaço para seguir esse caminho, para além dos casos que já aconteceram em diferentes geografias da lusofonia.

 

P.M. – No âmbito das parcerias e dos movimentos de fusão e aquisição no setor, há perspetivas de cooperação entre o espaço lusófono e a China?

J.C.S. – Acho que o setor das comunicações, muito vivo e dinâmico, é sempre muito propenso a novas oportunidades, nomeadamente na área de desenvolvimento de parcerias. O mercado lusófono está cheio de oportunidades para quem quiser investir nele e certamente há de haver também muitos operadores da lusofonia que acompanham com muito interesse e atenção aquilo que vai acontecendo no mercado e no setor das comunicações noutras geografias, sempre na expectativa de identificar novas oportunidades de negócio e de parcerias.

 

P.M. – A China poderá ser um bom parceiro da lusofonia neste setor e acha que há perspetivas de isso vir a acontecer?

J.C.S. - Acho que o mercado da lusofonia tem despertado bastante interesse a algumas empresas de origem na China. Digo isto porque em muitos eventos que a AICEP organiza e em que participa constata esse interesse de grandes players chineses no setor das comunicações, nomeadamente dos serviços, infraestruturas e dos equipamentos de telecomunicações e das comunicações em geral. Eles olham com muita atenção para o mercado das comunicações lusófono e acredito que isso seja um sinal de que veem oportunidades de investimento que consideram muito relevantes e acredito que o inverso também possa ser verdade.

 

P.M. – E que interesse tem gerado o mercado chinês junto dos operadores lusófonos?

J.C.S. - É inegável que a China neste setor, como noutros, é um país com organizações de referência e de valor incontornável e acredito que os operadores e as organizações da lusofonia também acompanham com atenção tudo o que essas empresas fazem para ver de que forma é que elas podem contribuir para o seu desenvolvimento. Considero que se as organizações e players lusófonos identificarem oportunidades de negócio com organizações da China, acho que não será difícil encontrarem plataformas de entendimento para desenvolverem em parceria projetos estratégicos em benefício dos respetivos mercados e clientes.

 

P.M. – Faria sentido a criação de um regulador lusófono?

J.C.S. - Esse é um tema que até na União Europeia se discute. Tem na base ideias aliciantes que fazem algum sentido, mas tem grandes dificuldades. Acho que é uma ideia que até ser realidade ainda levará certamente algum tempo. O que posso dizer é que, no âmbito da lusofonia, não há uma harmonização dos quadros regulatórios.

 

P.M. – E essa harmonização é necessária?

J.C.S. - A tendência até pode ser essa, mas há sempre especificidades muito próprias dos diferentes mercados que, porventura, dificultarão a existência de um quadro único. Mas os diferentes quadros são inspiradores uns dos outros.

 

P.M. – Como vê o processo de privatização de operadores de telecomunicações na lusofonia?

J.C.S. - Estão a acontecer realmente processos de privatização, aconteceram alguns, nomeadamente em Portugal, com os Correios, e são casos de grande sucesso. Sobre as vantagens e desvantagens das privatizações, preferia não falar sobre isso enquanto presidente da AICEP, acho que devem ser os próprios operadores a fazê-lo. No entanto, em termos globais da lusofonia, no setor das comunicações, com algumas exceções, a maioria dos operadores são detidos direta ou indiretamente pelo Estado.

 

P.M. – E acha que essa situação irá manter-se?

J.C.S. - Não tenho dados que me permitam dizer que não se vai manter no curto e médio prazo.

 

P.M. – Como disse estamos na era do consumidor, portanto, como avalia os preços praticados pelo setor na lusofonia?

J.C.S. - Os mercados da lusofonia também são muito competitivos em termos de oferta e preço. Não vejo grande diferença em relação ao que se passa nos outros mercados. O setor das comunicações na lusofonia é bastante evoluído, bastante maduro e compara muito positivamente com tudo o que de melhor se faz no resto do mundo.

 

P.M. - Em alguns mercados, os preços não serão ainda um pouco elevados?

J.C.S. - Discute-se muito se os preços são elevados ou não e os operadores entendem que as exigências de investimento fazem com que os preços até possam não ser tão elevados em relação à perceção do mercado.

 

P.M. - Nesta era digital, a tendência é de baixa dos preços…

J.C.S. - Em teoria sim, a tendência de mercados competitivos em leal e sã concorrência repercute-se também positivamente nos preços. A forma como se fazem estes ajustamentos e o tempo que isso leva é que podem variar. E para isso não basta apenas a perceção do cliente de que o preço é elevado,  isso também passa por aquilo que está na base da formação do preço e que tem por trás muitas vezes um custo de investimento.

 

P.M. - O roaming na lusofonia, pelo menos na África lusófona, continua a fazer sentido?

J.C.S. - Verifica-se ao nível da União Europeia que, nomeadamente no setor das telecomunicações, o roaming é um serviço caro e em vias de desaparecimento e, portanto, essa tendência provavelmente não deixará também de se verificar noutras áreas do mesmo setor.

 

P.M. - Como está a lusofonia em termos de penetração das comunicações?

J.C.S. - São mercados muito intensos na oferta e no consumo de soluções de comunicações. Basta ver que alguns países lusófonos têm grupos etários maioritariamente muito jovens e, portanto, muito mais propensos para o consumo das tecnologias. Isso mete pressão no mercado e nos operadores  de terem sempre mais e melhores soluções integradas desses serviços. São elevados números de penetração. Há algumas discrepâncias entre os diferentes países e dentro dos próprios países, nomeadamente entre zonas urbanas e rurais, mas são processos de desenvolvimento dos mercados que os operadores não deixam de encarar.

 

Patrícia Neves

 

 

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