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A fusão da cultura gastronómica luso-chinesa deve ser promovida

Macau foi considerada “Cidade Criativa UNESCO de Gastronomia”, um título que não é fácil de obter. A principal razão para a obtenção deste título foi a existência de pratos macaenses, resultantes da fusão entre a China e Portugal. No entanto, a meu ver, muitos não fazem ideia de que pratos são estes, nem quais as suas características. Aparentemente, nem mesmo os macaenses conhecem bem estes pratos. Afinal o que comem eles em casa? Eu não poderei ser considerado macaense, visto que normalmente este termo se refere a uma pessoa com algum sangue português. Eu sou chinês, podendo talvez ser chamado de chinês de Macau. Todavia, no que diz respeito a pratos macaenses, acredito que isto se deve referir aos pratos onde ingredientes locais são cozinhados à moda portuguesa, assim como pratos onde ingredientes portugueses são cozinhados à moda chinesa. No entanto, estes pratos ao longo do decorrer de vários séculos foram-se integrando na dieta dos locais. Por isso, quando se pergunta “o que são pratos macaenses?”, “quais as suas características?”, é difícil de responder. A principal característica desta gastronomia é que ela resulta da fusão entre a cultura chinesa e a portuguesa. Fusão que conta com uma longa história, resultante de uma integração na vida diária dos habitantes, não de algo instituído ou forçado. Algumas destas fusões até foram depois levadas para outros locais, que as melhoraram e tornaram num prato típico desse mesmo local. Um exemplo disso mesmo é o “pão de ananás” de Hong Kong. Este petisco típico, presente na cultura do chá de Hong Kong, tem apenas 40 anos de história, enquanto que na história de Macau, este já está presente há mais de 50 anos. Existe uma prova muito simples deste facto: os portugueses gostam de comer pão, enquanto que os ingleses preferem comer bolo. Por isso, entre Hong Kong e Macau, o último tem uma história mais longa ligada ao pão. Além do mais, antigamente todos os pães comidos por macaenses eram pães portugueses. As gerações mais antigas chamavam-lhes “鹹麵飽” (pães salgados). Em Hong Kong estes passaram-se a chamar de “豬仔飽” (pães porquinhos), devido à sua forma, fazendo com que Macau perdesse assim a “autoria do nome”. Mas Macau não reage contra tal. Alguns locais até adotam esta mentalidade de “Hong Kong grande, Macau pequeno”, passando a chamar a estes pães de “豬仔飽” (pães porquinhos). Até mesmo no prato de estilo português “焗骨飯” (arroz de porco), já presente e famoso em Macau há várias décadas, foram retirados os “direitos de autor do nome”, sendo este agora chamado de “焗豬扒飯” (arroz de costeleta de porco). Tudo isto é um resultado da integração e fusão ao longo de vários séculos das culturas chinesa e portuguesa em Macau, e não merece por isso perder-se. Talvez a razão para tal acontecer seja o facto de no passado haver poucos praticantes de uma dieta macaense. Todavia, neste momento Macau é “Cidade Criativa UNESCO de Gastronomia” e é, por isso, importante promover a gastronomia que resulta deste contacto entre a China e Portugal, assim como divulgar a história e significado por detrás da mesma, indo além da perspetiva apenas gastronómica e turística.

David Chan  09.02.2018

 

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