Ensinar a pescar

O provérbio chinês perde-se em tempos imemoráveis e acaba por ser um lugar- comum e uma verdade de La Palice. “Se deres peixe a um homem alimentá-lo-ás por um dia, se o ensinares a pescar alimenta-lo-ás para toda a vida”.  A este provérbio, há que juntar as simples e sábias palavras de Nelson Mandela: “A educação é a mais poderosa arma que podemos usar para mudar o mundo”. E por último, vem-nos à memória uma canção de meados dos anos 1990 de uma prodigiosa banda de hip-hop portuguesa, os Da Weasel: “Educacão é Liberdade”. Às dimensões estruturantes de autonomização, transformação e emancipação, junta-se uma outra camada pautada pela formação cívica, competitividade e formação  de elites que faça sobressair os talentos que, dentro e fora de portas, inovam, lideram e inspiram.  

Neste contexto, Sou Chio Fai tem em Macau um percurso ímpar por ter sido, anteriormente Diretor dos Serviços de Educação e Juventude e, mais recentemente, ocupar os cargos de Coordenador do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior e a Comissão de Desenvolvimento de Talentos. Na entrevista que concede ao PLATAFORMA esta semana, Sou denota uma visão e ambição que se espera que possa criar uma dinâmica que colmate as fragilidades que permanecem ao nível da formação de alto nível dos residentes locais. Três ideias chave emergem: alargar o âmbito da formação no exterior de modo a termos talentos bilingues em múltiplos setores; um reforço da ligação com universidades de referência no exterior, nomeadamente em Portugal e outros países de língua portuguesa; e oportunidade de estágios e experiência em organismo internacionais para que Macau possa ter quadros importantes e de topo nessas organizações. São objetivos que fazem todo o sentido e que devem ser acompanhados por medidas robustas para equipar as novas gerações com os instrumentos necessários para os enormes desafios que surgem no horizonte, começando pelo projeto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. 

A tarefa não é fácil, tendo em conta o importante mas tardio esforço antes da transição e as limitações estruturais que persistem. Não podemos, contudo, ficar pelo telhado. Há que cuidar das fundações. O sucesso desta empreitada depende de um sistema de ensino que passe, efetivamente, a incentivar o sentido crítico, tolerância, liberdade de pensamento, participação cívica, uma forte cultura humanística e curiosidade pelo mundo. Sem isso não há milagres. Ensinar a pescar não é apenas ensinar como fazer, mas também ensinar a pensar.  

José Carlos Matias  11.05.2018

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