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Guerra comercial sino-americana em pausa até alguém erguer a bandeira branca

Existe entre muitos a opinião de que os recentes contactos entre a China e os Estados Unidos (EUA) irão determinar o futuro da economia e mercado globais. Porém, na realidade, mesmo sem nenhum acordo aprovado, há razões para acreditar numa atenuação do clima.

Em primeiro lugar, o recente discurso político americano mudou drasticamente, não se focando mais na questão do emprego nos Estados Unidos e promovendo um novo objetivo de “travar” a China, tentando impedir o país de se desenvolver a nível científico e tecnológico e ameaçar a hegemonia americana. Os líderes chineses têm consciência de que toda a geração atual tem de lutar contra este controlo, pois o país não está disposto a perder esta “2ª Guerra Fria”. O Governo tem uma série de medidas à sua disposição para garantir que a economia chinesa não é gravemente afetada pelas tarifas americanas. Numa situação de baixos impostos sobre as exportações, o Governo e os bancos centrais conseguem, estimulando a procura nacional, diminuir o impacto de fatores económicos externos. A desaceleração do crescimento económico chinês este ano é quase inteiramente resultado de manipulação controlada. A China, após análise, decidiu que o sistema financeiro precisava de abrandar, Governos locais precisavam de pedir menos empréstimos, o investimento em infraestruturas de diminuir e preços imobiliários de ser controlados através de políticas monetárias mais apertadas, que podem ser ajustadas ou revertidas. Os criadores das anteriores políticas, alguns líderes importantes no país, deixaram claro que não vão permitir que a economia chinesa seja ainda mais afetada no próximo ano, e por isso as alterações necessárias serão implementadas a devido tempo. 

Em segundo lugar, agora que a China demonstrou a sua habilidade e vontade de defender o seu crescimento económico, as considerações políticas de Trump não irão com certeza mudar. O presidente americano pretende claramente ganhar esta guerra com a China para depois se vangloriar durante as eleições de 2020. Mas, para tal, precisa de chegar a acordo com o lado chinês num curto espaço de tempo, porque se a guerra entrar numa fase seguinte, ou seja, se a tarifa americana sobre produtos chineses subir dos 10 por cento para os 25 por cento, esta guerra deixará de receber o apoio do povo americano. Caso tal aconteça, o maior risco para a economia norte-americana será o efeito de Keynes destas tarifas. Atualmente, o mercado laboral dos Estados Unidos está bastante preenchido, e não existe espaço para produção nacional que venha substituir as importações da China. Isto significa que tais tarifas não só afetariam a atividade económica e mercado de trabalho chineses, como, sobretudo, iriam cair sobre os consumidores e importadores americanos, subindo a inflação e taxas de juro americanas.

Por último, o historial de negociações geopolíticas de Trump não mostra antecedentes de recuos previamente anunciados. Trump tem enfrentado uma série de conflitos diplomáticos importantes, como o problema nuclear com a Coreia do Norte, a fronteira entre o México e os EUA e a revisão do acordo de livre comércio na América do Norte. A sua tática habitual tem por base fazer afirmações agressivas e depois negociar um recuo repentino às portas de uma guerra, tendo este método resultado não só para o presidente norte-americano pessoalmente, como para todo o país. Se a China e os EUA conseguirem chegar a um acordo num futuro próximo (no espaço de três meses), será seguido este padrão. No caso de os dois lados não aprovarem o acordo definido entre Xi Jinping e Trump, os EUA automaticamente irão impor as suas tarifas, e de seguida, algumas semanas ou meses mais tarde, o lado americano irá finalmente aproveitar alguma ocasião oportuna para recuar e cantar vitória ao estilo “Dunkirk”. Será, porém, positivo para a imagem de Trump se a China estiver disposta a fazer algumas concessões para estabilizar as relações comerciais entre os dois países, chegando a acordo sobre problemas como direitos de propriedade intelectual e abertura de mercado.  

DAVID Chan 2018.12.07

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