Paulorego

“Irritantes”

contas difíceis com o passado, Luanda agarra com unhas e dentes o futuro. Na visita a Lisboa, o Presidente João Lourenço escancarou portas à massa crítica portuguesa, sugerindo que a Sonangol fica no BCP e na GALP, resistindo à polémica mais “irritante” na História recente das relações bilaterais: suspeita de corrupção do ex-vice-presidente angolano. Após prolongado braço de ferro com o poder político, a justiça portuguesa cedeu, transitando o processo para o país irmão. “Nunca defendemos Manuel Vicente”, mas sim “o direito do Estado julgar os nossos cidadãos”, esclareceu João Lourenço, numa declaração com enorme impacto político global.

Tenso continua o ambiente entre Pequim e Luanda. Xi Jinping aponta desvarios do anterior governo angolano e congela empréstimos – a última tranche, anunciada na África do Sul, serve apenas para pagar dívidas a empresas chinesas. Discreta, mas consistentemente, Pequim pergunta pelo dinheiro desaparecido, pressionando um país carente de linhas de crédito. O próximo ano é crucial para a negociação, estando em causa um preço que expõe João Lourenço ao sensível equilíbrio de forças entre velhos e novos senhores de Luanda.

O acordo parece inevitável, dada a geoestratégia em causa. Este “irritante” é mais próximo do que se possa pensar com o que abalou Luanda e Lisboa. E neste caso é ainda mais importante ultrapassá-lo, porque a plataforma sino-angolana é essencial para o novo ciclo de desenvolvimento. Contudo, aqui a ponderação de forças é muito diferente. A liderança global emergente não se compara com a memória colonial decadente. 

Paulo Rego 30.11.2018

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