Editorial-paulo

O abraço de Xi

Xi Jinping voltou a espalhar charme no Fórum de Boao. O autismo de Trump esvaziou a cadeira da Casa Branca no espelho dos valores ditos globais; oportunidade que o líder chinês gere com clarividência. O abraço de Xi aquece corações inquietos com o aquecimento global, a propriedade do espaço, o fundo do mar, o livre comércio, o multiculturalismo… agora, de mão estendida também ao catolicismo, numa das maiores operações diplomáticas do pós-guerra. E há um português muito especial nos bastidores desta legitimação de índole medieval: António Guterres.

Há muita gente distraída com este movimento. Não certamente Xi Jinping, nem o Papa Francisco. Porque vejo Guterres neste filme? Porque faz parte do seu próprio enredo; da carreira que fez, da sua ascensão política, da forma como governou em Portugal… e, obviamente, também do lobby de São Pedro que lhe abriu as portas das Nações Unidas. António Guterres é português, claro, mas é também uma estrela do humanismo católico e um ideólogo da globalização com base no liberalismo económico, no humanismo cristão e no multiculturalismo. A sua competência pessoal conta para estar onde está; mas pensar que a liderança das Nações Unidas não inclui o apoio do Vaticano, e dos Estados que lhe são fiéis, é não perceber as regras do jogo.

É a terceira vez que Guterres está na China, desde que assumiu o cargo. Desta feita por longos cinco dias. Claro que chega nesta altura ser secretário-geral da ONU para merecer as atenções de Xi. Mas neste preciso momento, um dos maiores beatos da elite política mundial está certamente coordenado com o seu líder espiritual. Eu, ateu, me confesso: não sou fã desse lobby. Contudo, como português e homem de fé na plataforma sino-lusófona não me escapa essa luz. Mais importante ainda: o abraço de Xi já não é só global – é holístico.

Paulo Rego  13.04.2018

 

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