Focus on China - Concept

O crescente papel da China no desenvolvimento global

Apesar da aparente tranquilidade das reuniões de primavera deste ano do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, existem razões para preocupação relativamente à economia global. A “dura” saída do Reino Unido da União Europeia e a agenda antiglobalização de Donald Trump estão a criar incerteza económica, e continuarão a fazê-lo durante algum tempo.

Em contraste com Trump, o presidente chinês Xi Jinping surgiu em defesa da globalização, e disponibilizou novo capital para criar bens públicos globais, melhorar a conectividade e criar emprego em países em desenvolvimento. Mais de 60 países deram as boas vindas à iniciativa Faixa e Rota, e 29 chefes de Estado e Governo marcaram presença em Pequim no Fórum Faixa e Rota para Cooperação Internacional nos dias 14 e 15 de maio. Sendo assim, quais são os fundamentos da China para seguir esta visão grandiosa – uma que tantos países, particularmente em desenvolvimento, já acolheram de braços abertos?

No nosso novo livro, “Going Beyond Aid: Development Cooperation for Structural Transformation”, defendemos que a ajuda pública ao desenvolvimento (APD) não necessita de ser sempre concessional, e argumentamos a favor de ir “para além da ajuda”, em direção a uma abordagem mais ampla – como aquela assumida pela China – que inclui o comércio e o investimento. Atualmente, a definição de APD da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico não inclui sequer alguns dos instrumentos mais eficazes para facilitar a transformação estrutural em países recetores, como o investimento de capital e grandes empréstimos não-concessionais para infraestruturas.

Juntando a ajuda ao comércio e investimento, tanto os países doadores como recetores poderão beneficiar. Por exemplo, a cooperação de desenvolvimento Sul-Sul usa todas as três atividades para tirar proveito das vantagens económicas dos países recetores. Isto permite à cooperação de desenvolvimento Sul-Sul evitar os entraves em países parceiros que são visíveis sob o modelo convencional de APD, o qual separa a ajuda do comércio e do investimento privado – e por isso impede os países de explorarem as suas vantagens comparativas.

No nosso livro, olhamos para este assunto através do prisma da nova economia estrutural (NSE, na sigla em inglês). A NSE trata o desenvolvimento económico como um processo de contínua mudança estrutural nas tecnologias, indústrias e infraestruturas materiais e imateriais – mudanças que aumentam a produtividade do trabalho, e, por conseguinte, também o rendimento per capita.

Segundo a NSE, a abordagem mais eficaz e sustentável para um país de baixo rendimento impulsionar um crescimento e desenvolvimento dinâmicos consiste em desenvolver os setores nos quais possui vantagens comparativas latentes: onde os custos de produção são baixos, mas os custos de transação são altos devido a infraestruturas materiais e imateriais inadequadas. Os governos podem ajudar a reduzir os custos de transação criando zonas económicas especiais ou parques industriais, melhorando as infraestruturas e tornando mais atrativo o ambiente empresarial geral nesses enclaves. Com esta abordagem, um país em desenvolvimento pode crescer de forma dinâmica, e criar um ciclo virtuoso de criação de emprego e redução da pobreza, mesmo que a infraestrutura geral e ambiente empresarial ainda fiquem aquém do desejado.

Para além disso, grandes economias de mercados emergentes como a China, o Brasil e a índia podem usar as suas vantagens comparativas em infraestruturas e manufactura ligeira para ajudar outros. Para a China, isto está em consonância com um ditado confucionista: “Aquele que deseja ter sucesso deve também ajudar os outros a ter sucesso; aquele que deseja desenvolver-se deve também ajudar os outros a desenvolverem-se.”

A China possui uma clara vantagem comparativa na construção de infraestruturas, devido aos seus baixos custos de mão-de-obra (o custo de um mestre de obras na China é um oitavo do de países da OCDE) e vasto mercado interno, os quais lhe permitiram alcançar economias de escala que outros países simplesmente não conseguem ter. Consequentemente, o custo geral de construção para ferrovias de alta velocidade na China é dois terços do custo existente em países industriais.

Mas as vantagens comparativas da China em 46 de 97 subsetores – particularmente na manufactura – beneficiam também outros países em desenvolvimento. À medida que os custos laborais na China crescem, as indústrias de mão-de-obra intensiva estão a deslocar-se para países em desenvolvimento com salários mais baixos, fornecendo milhões de oportunidades de emprego. Por exemplo, a Huajian Shoemaking Company, a C&H Garments e o China JD Group (fabricante de vestuário), estão agora a operar em zonas económicas especiais na Etiópia, Ruanda e Tanzânia, respetivamente.

Para além de exportar as suas vantagens comparativas, a China também utiliza “capital paciente”, que possui uma maturidade de 10 anos ou mais. Num artigo publicado recentemente, conceptualizamos o capital paciente como um investimento num “relacionamento”, no qual um investidor possui uma participação de longo prazo no desenvolvimento de um país. Os detentores de capital paciente são como investidores de ações, contudo estão dispostos a “depositar” dinheiro no setor real por um período alargado.

Os detentores de capital paciente têm também uma maior vontade, e capacidade, de assumir riscos. A posição líquida em ativos estrangeiros de um país está fortemente relacionada com a sua orientação de longo prazo. Por outro lado, as posições líquidas em ativos estrangeiros de países com uma orientação de curto prazo e uma baixa taxa de poupança tendem a deteriorar, enquanto as suas dívidas externas crescem.

O capital paciente desempenha um papel importante no financiamento de infraestruturas, pois é frequentemente acompanhado de know-how tecnológico e e de gestão, o que ajuda a melhorar a conectividade global e acelerar o desenvolvimento.

Até agora, a grande reserva de capital paciente da China tem sido usada para financiar os seus projetos nacionais. Contudo, ela será cada vez mais exportada à medida que mais empresas e bancos chineses se internacionalizam. De facto, a China poderá em breve tornar-se no maior credor líquido do mundo, e uma porção dos seus ativos externos líquidos tomará a forma de capital paciente, que é adequada para melhorar infraestruturas, desenvolver setores de fabrico e criar emprego em todo o mundo.

A partir de 2015, o financiamento do desenvolvimento começou a surgir menos da ajuda tradicional e mais de instituições de financiamento do desenvolvimento, bancos de desenvolvimento e fundos soberanos em economias emergentes. A China, por exemplo, dedicou 60 mil milhões de dólares ao financiamento do desenvolvimento em África no período de 2016-2018 – constituído em grande parte por capital paciente.

A China e outras economias emergentes estão também a transitar do bilateralismo para o multilateralismo, trabalhando com parceiros de países desenvolvidos e em desenvolvimento. À medida que novas instituições de países em desenvolvimento como o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas e o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS colaboram com bancos estabelecidos de desenvolvimento multilateral, estão também a aprender a ser melhores parceiros, e a criar impulso para os esforços de desenvolvimento global.

A China, para além disso, está a tentar aprender com os seus parceiros de forma a poder melhorar os seus próprios padrões de governação, trabalho e ambiente. E este processo bilateral está a dar origem a novas ideias, teorias e conceitos – sendo um deles o nosso livro. A adoção de um papel global por parte da China deve ser aplaudida. Estamos cautelosamente otimistas de que os países desenvolvidos e em desenvolvimento poderão trabalhar juntos para assegurar a paz e prosperidade para todos.

Justin Yifu Lin/Yan Wang*

*Justin Yifu Lin, ex-economista-chefe do Banco Mundial, é diretor do Center for New Structural Economics, diretor do instituto South-South Cooperation and Development e reitor honorário da Faculdade Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim, e Yan Wang é investigador sénior do Center for New Structural Economics da Universidade de Pequim.

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